TRÊS POEMAS de Paulino Soma Adriano

Imagem de Lourdes Ximenes

Sabes?

Sabes?

Nunca pensei

Que um dia

Nem a mão me acenarias;

Que passarias por mim

Sem palavra, sem som, sem nada;

Que me desconhecerias!

Sabes?

Nunca pensei

Que um dia

O meu nome esquecerias,

Que viverias uma eternidade

Sem me chamares, sem me amares…

Que me pisarias e nada sentirias!

Sabes?

Nunca pensei

Que um dia eu morreria

No teu cerne,

Que aparecendo eu aos teus olhos,

Tu não me verias, não te lembrarias mais de mim,

Cega para tudo o que edificaste em meu coração!

Sabes?

Não sei se tu me perdeste

Ou se eu te perdi,

Mas sei

Que sinto muito a tua falta!..

21/09/2002

♦♦♦

Facebook translúcido

Umbral da adolescência

Amámo-nos idilicamente

Manhã cedo

E os teus olhos amanheciam no meu portão

Era a luz para me acompanhar àquela escola sem muros

A escola feita de chapas de contentores

Com assentos de adobes

Mas contigo aquela escola era exótica

Era o meu mundo com o sol da tua presença

Em um ano apenas um beijo

Ah! Um único beijo e nada mais…

Estávamos sobre duas pedras amigas

E combinaste comigo por meio de uma cartinha

Que aquele seria o nosso primeiro beijo

Mas outro não houve!

Ah se tu soubesses que era o meu coração que beijavas

Ah se eu soubesse a cicuta que é a distância entre nós

Não te deixaria escorregar nunca das minhas mãos

Agora estamos crescidos

Mas agora estás longe, longe, longe

Apenas a tua beleza translúcida no facebook

Fiz-te o pedido de amizade

E tu não respondes

Imploro-te

Aceita ao menos facebookar comigo!

♦♦♦

Lisbolubango

No metro de Lisboa,

Uma menina de proa;

Cabelos compridos,

Livres, lisos e alados;

Smartphone na mão,

Mistério no coração;

Quem é o seu dono?

Qual é o seu destino?

Em mim o desejo de cruzar o seu caminho,

De ser o corrimão em que ela desliza as mãos…

Mas de repente um vulto interrompe o sonho:

No táxi do Lubango

Um rosto solarengo

Coberto de tranças corridas

Sorria para mim

Porque já me conhecia,

Porque já me pertencia.

Dispensei o Tejo

E continuei na Tundavala;

Do Lubango é o meu beijo

De Lisboa, a saudade que não cala.

Apesar de tudo

Lisbolubango

Lislubango

Lubango

♣♣♣

Paulino Soma Adriano, natural da Huíla, Angola, é professor universitário. PhD em Linguística, pela Universidade de Évora, mestre em Consultoria e Revisão Linguística, pela Universidade Nova de Lisboa. Tem publicadas três obras: Viver e Morrer em Angola (romance), Amálgama d’Alma (poesia) e A crise normativa do português em Angola (ensaio). 

Um comentário em “TRÊS POEMAS de Paulino Soma Adriano”

  1. leonildacátia diz:

    Dr. Paulino, palavras são insuficiente para descreve-lo, porém gostaria de dizer que o Senhor é um poéta como ja mais visto . Os teus poemas dispertam emoções que um ser humano pode sentir.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *