EÇA DE QUEIRÓS E LEOPOLD SZONDI (PARTE I) – por Marilene Cahon (PARTE I)

PARTE I

Leopold Szondi

A Psicologia szondiana está marcada pelo convencimento, intuitivamente adquirido, de que, em cada par de contrários (polaridades), os pólos são atraídos um ao outro e formam uma unidade. Segundo seu criador, não vale pender unilateralmente ao bom e desprezar o mau, mas é melhor perceber o bom e o mau como dois extremos da mesma totalidade e mantê-los em um equilíbrio dinâmico. Quando um pólo cresce, o outro decresce, quando um diminui, o outro desabrocha.  A partir daí, desenvolveu a teoria da Análise do destino.

A Análise do Destino completa os conhecimentos da Psicologia Profunda, com o acréscimo do Terceiro Inconsciente, o Familiar, depois do Pessoal de Freud (Viena) e do Coletivo de Jung (Zurique).

Consequentemente, a Análise do Destino se refere a três qualidades do inconsciente: o inconsciente pessoal (Freud), que inclui todas as manifestações pulsionais, pessoais e reprimidas; o inconsciente coletivo (Jung), com todos os arquétipos humanos e o inconsciente familiar (Szondi), com as pretensões especiais dos ancestrais.

A Análise do Destino conscientiza o homem de haver vivido (inconscientemente) um destino coercitivo, repetindo o destino familiar de um de seus ancestrais; verifica que, ao lado desse penoso destino coercitivo, existem outras possibilidades de existência, entre as quais é possível escolher livremente. Só então poderá ele afirmar que conquistou seu próprio destino. A novidade da Teoria do Destino resume-se: o destino não é condicionado por um poder obscuro ou por um demônio. Apoia-se em um sistema de funções, o qual pode ser examinado com exatidão na medicina e na psicologia.

EÇA DE QUEIRÓS E O CRIME DO PADRE AMARO SOB A VISÃO SZONDIANA

Qual o crime cometido pelo jovem padre Amaro? O de ter se apaixonado por Amélia? E se o crime tem um agravante, qual a pena a ser-lhe aplicada por tê-la engravidado?

Que destino pode ser identificado nessa obra?

Polêmico e atemporal, O Crime do Padre Amaro configurará sempre a sinergia de contributos estéticos e ideológicos, os quais presidiram o processo da sua publicação.  A história literária dessa obra passa-se em 1875, em Leiria, onde Eça havia exercido funções de administrador do Conselho de Leiria. Romance que une um padre e uma jovem devota que viria a morrer, tal como o fruto deste amor, uma criança, que o pai entrega a uma “tecedeira de anjos”.

O Crime do Padre Amaro foi escrito em três versões.

Na primeira versão da obra revela-se algo lúgubre, com um fio narrativo funesto, de um romantismo melodramático. Este tom revela-se na composição do personagem Amaro e no fato de ainda não ser nítida a sua relação com o meio envolvente. Com a falta de nitidez de tal relação, ainda não se pode concluir se o destino do personagem é livre, obrigado ou uma mescla de ambos.

Na segunda versão ocorre o despojamento do retrato romântico de Amaro, a influência do meio e o cuidado do autor face aos pormenores de crueldade e falta de pudor. Há um excesso de pormenores e temas chocantes em que Machado da Rosa, confirmando o descritivismo minudente, reflete sobre o episódio em que Amélia é amortalhada (suprimido na terceira versão).

Os pormenores tão esmiuçados permitem considerar se o destino do personagem é tão só obrigado.

A terceira versão reflete um Eça maduro e adulto, ainda com o romance experimental como modelo. É a mais equilibrada. Eliminam-se os elementos inverossímeis, como o infanticídio, que Camilo comentara nos seguintes termos: Um romancista hábil engendrou um padre mau que mata um filho – uma perversidade estúpida e quase inverossímil em Portugal, onde os padres criam os filhos paternalmente

É possível, então, analisar que o destino do personagem é produto de uma variedade de possibilidades, ancoradas no ato da escolha.

Poder-se-ia traçar uma analogia, deduzindo que na primeira versão é o inconsciente individual que se desmitifica; na segunda, o inconsciente coletivo e na terceira o inconsciente familiar.

Vale dizer que Eça surge além da focalização de tipo onisciente, também da focalização interna (e da subjetividade das personagens) como é o caso da autoanálise de Amélia no capítulo V. A intriga da obra revela uma dependência mais harmoniosa com o ambiente, a formação e a hereditariedade. A trama é tecida a partir do inconsciente familiar.

(continua na próxima Edição)

Marilene Cahon, brasileira, professora, escritora, poetisa, cidadã caxiense, autora dos quinze volumes que deram a Caxias do Sul o título de Capital Brasileira da Cultura em 2008. Membro da Academia Caxiense de Letras a qual presidiu no biênio 2012-2013, ocupando a cadeira de número 15.

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