presos na árida corda das horas, por seus umbigos.
Na casa do coração (quem a visita pressente)
um deles pulando corda e o outro rangendo os dentes.
Na casa do coração um deles constrói seu nada
enquanto o outro levita e põe flores na sacada.
Um deles grita e se arranha e do que pode, reclama
enquanto o outro se enflora e troca os lençóis da cama.
Um amarra seus legados em cordames ressentidos.
O outro planta gerânios e vai ao livros não lidos.
Um deles em cada porta impõe trancas e cancelas
enquanto aos poucos o outro pinta de branco as janelas.
Se o próprio Deus tem três faces porque o homem haveria
de guardar um só conviva em seu dentro, a cada dia?
♦♦♦
Jaime Vaz Brasil – Poeta gaúcho, com 7 livros públicados e vários prêmios, dentre os quais: Açorianos, Felipe d’Oliveira e Casa de Las Americas (finalista). Atua também como compositor, tendo vários poemas musicados e interpretados por vários parceiros, dentre os quais Ricardo Freire, Flávio Brasil, Zé Alexandre Gomes, Nilton Júnior, Vitor Ramil e Pery Souza.
William Turner: The Fighting Temeraire tugged to her Last Berth to be broken up, 1838, 1839 (detail)
Mãos devagar te levam
Mãos devagar te levam
E tu não dás por nada
Como dum cinzel purificador
A sombra é-te retratada
Para os Céus ergueste as crenças
Sem elas eras olvido
Num pranto com luz ao meio
No escuro quarto retido. Continuar a ler “POEMAS de Januário Esteves”
Pró ” Carvalho” vai tudo!
Tudo!Tudo, ou nada!
Há tamanhos e formas,
curtos, compridos e espessos!…
Pró “Carvalho, não vai nada?
Nada! Que bem lhe fica a gravata!
Por onde passa tudo esgravata,
e dos tombos cai na mocada…
Há quem diga!
Pernas são canelas,
merda pra quem olha pra elas…
Por outro! Há quem diga!
Carvalhos, são caralhos,
merda pra quem tem alhos! Continuar a ler “POEMAS DE MADALENA MEDEIROS”
Georges Bataille, Sobre Nietszche. Voluntad de suerte, V.
África I
No hay viento, ni rumor de agua, y está oscuro. Quien se extraviara allí jamás saldría o saldría desnudo y loco. Es una selva silenciosa, pero no una selva de plantas y frutos, de enormes y pequeños animales. No, nada de eso. Allí, en perfecta metamorfosis con la oscuridad y el silencio, habitan erráticas sombras, inmóviles furores, una angustia sin medida ni centro, un espasmo que arde con llama fría. Nunca estuve en ese lugar, pero con frecuencia lo veo en sueños. Continuar a ler “TEXTOS DE “MATÉRIA DESNUDA”, de Carlos Barbarito”
Engadín a intención toda de liberdade nesta túa anatomía.
Cada perna, pé e man para moverte na firmeza do corpo,
a lingua para lamber as verbas e berralas ao ar,
os dentes, como feroces defensores do teu.
Seus corpos dialogavam num diálogo incomum, que não se lê e não se entende, apenas se sente. Numa linguagem ausente de sinais e de palavras, onde as reticências traziam à baila o ponto do amor, que não era o final. Os seus corpos ora exclamavam ora interrogavam. Numa tentativa de antever o ritmo do amor, faziam dois pontos anunciando os passos que o momento sugeria e deixavam-se mover a passos dançantes, que só o amor sabia dar. A dança não era nem salsa nem valsa, era uma dança desprovida de movimentos próprios, cujos contornos só os pés que amam eram capazes de desenhar. Continuar a ler “TEXTOS POÉTICOS DE FINEZA PINTO”
enciumada estou se a mim
tua esposa, preferiste a morte
como companhia
Foste embora, foste embora
companheiro meu
ficou tua lembrança
como sombra minha.
Foste embora, foste embora
companheiro meu
e nas altas horas da noite
insone ainda
a poesia.
♣♣♣
Tateando
Poeta aguça teus sentidos
olfato, vista.
Ouve com atenção
os mais estranhos sons
enquanto tateia
o Desconhecido Rosto.
♣♣♣
Para Olga Savary
Sua poesia
água
fallus
fogo
paixões.
A minha
filha sua,
mares
línguas
ondas
também
tensões.
♣♣♣
Mar
Marula o mar,
estronda a onda.
Embala, acalma
a minha alma.
♦♦♦
Rosa Maria Sampaio Torres – pesquisadora em História (PUC-Rio), é também graduada em Estudos Sociais e pós-graduada em Ciências Políticas. Aluna do filósofo brasileiro Carlos Henrique Escobar acabou por desenvolver, também, seus dotes artísticos – especialmente como poeta, autora do livro “Bendita Palavra”. Já reconhecida como ensaísta, é autora de inúmeros artigos históricos sobre a família Cavalcanti, da qual descende, e agora sobre o poeta Guido Cavalcanti.
Julgas que sou par de asas
Impedidas, cortadas…
Sem bandeiras nem casas,
Fragatas ancoradas?
Sedutora, carente,
Sensual, feminina,
Paixão fogo ardente,
Eis a mulher felina!
Nos mares vejo adentrar
Saltitando nas ondas
Grande barco afundar,
A explosão estronda.
Lua, sol vestes do tempo.
Como quem troca às vestes
Num penoso lamento,
Dia, noite, astros celestes.
Despindo do sol, da lua
Envelhece o tempo,
Dia a dia, a angustia sua
É a canção do vento.
As vidas se repetem
Trocando de existências
Peitos arfam, padecem,
Gestos de consciências.
♣♣♣
ALAMEDAS TRISTONHAS
Ah essas RUAS! Outrora entupidas de gente, O ar que por elas, hoje, circula beneficia: Baratas e pombos somente… Um tal COVID espalha terror, e ninguém está a salvo, Estão todos, trancafiados em seus lares, padecentes. Lembras-te oh Alamedas risonhas… E, hoje as vejo solitárias tristonhas. Olha! Vejo uma ratazana, fugindo do horror do COVID! Ela sumiu, como toda gente. Fique aí, Contemplando seus fantasmas, enquanto Esperas por uma dose milagrosa! Eu? Ah! Fico aqui te olhando da janela…
♣♣♣
A ARTE O FIO QUE LIGA OS CINCO CONTINENTES
A POESIA é o fio de ouro que liga de um poeta
Ao outro e de um continente ao outro e esta ligação
Tem atravessado o tempo numa perspectiva de
Eternidade se não por algo parecido.
O que me agrada é esta certeza de que estamos entrelaçados
Por esse fio que é do metal mais nobre e não por um
Insignificante fio de náilon. Olho para os cinco continentes e vejo
Esperança no olhar de uns e de outros derramar-se em pranto.
E a paz na casa de uns tantos? Ah! É como meus versos
Despidos de métricas e rimas. E se não fosse a arte
Esse fio de ouro que liga de um continente ao outro?
O que disseram os Profetas e ou os Reis de outras datas
Que estenderam seu olhar aos cinco continentes?
Aos seus ouvidos chegavam clamores de uns tantos
E júbilos de uns poucos. Ainda bem que a Poesia liga
Um poeta ao outro e um continente ao outro!
Levantes oh pequeno caído e digas quem és tu!
Afaga-lhe o peito a ufania do nada e quem a ti traz a Salvação?
És tu que estás chorando oh continentes infelizes!
Mas o poeta também chora ao olhar a tua desgraça.
Vi meus avós meus pais falarem sobre:
Tempos bons virão! A paz reina nos sonhos de todos.
Acabou que não vi o tempo passar nem os cinco
Continentes viram. Entretanto as luas são incontáveis.
Aqui estou viva. E minha alegria não se descreve
Com a alegria das borboletas da minha idade.
É essa ligação entre os poetas dos cinco continentes
Que tem atravessado o tempo numa perspectiva de eternidade…
É consoladora apesar dos conflitos esta certeza de que
Estamos entrelaçados…
É porque nos versos do poeta leia-se a liberdade
A do bater de asas da borboleta recém-saída do casulo.
Nos dias atuais o que reina é o imediatismo frenético.
Raros os que a tentam-se ao mundo em sua volta
Não é de se admirar que sejam muitos os que vivem a olhar
Em direção aos próprios pés com um olhar febril
Para o deslumbre da efemeridade das imagens.
Eu como poeta que sou procuro olhar além do papel
Sobre a minha escrivaninha por essa razão ouso
Atravessar fronteiras para levar o meu pensamento
Que de certo modo é coletivo.
Quando ouso atravessar fronteiras deixo de ser apenas
Um poeta assumo o papel de uma nação que através da
Poesia leva aonde for a sua cultura certa de que serei
Recepcionada com festividade e que trarei na bagagem
Outras tantas lições culturais para agregarem à minha.
♦♦♦
Valda Fogaça é Poeta, trovadora, cordelista, cronista, romancista e compositora. Estudou Filosofia, Letras e História. Vive em Brasília/DF Brasil. É colunista do Site Internacional O Segredo e da Revista Sttato. Escreve para três portais: UOL Pensador, Recanto das letras, LinkedIn e para três bloggers. É membro da Associação Nacional de Escritores (ANE). É membro do movimento internacional de Poetas Del Mundo, membro correspondente da Academia Capixaba de Letras e Arte de Poetas e Trovadores, ACLPTCTC. Instagram: valdafogacaescritora.
Cruzam-se os espelhos na deformidade anunciada
Quebram-se os cristais voando na multiplicidade das velocidades
Pelos truques de ilusão claustrofóbica e parada
Onde as bestas rastejantes trocam papéis
E saltam nas prateleiras da ostentação das pedras Continuar a ler “POESIA DE Ana Oliveira”
Esta noche los muebles tienen una mirada extraña, sueño con quienes se aparean en la oscuridad y a lo lejos dispersan nuestro propio sudor. Ondas accidentales entran en las tiendas, robos de papeles causan la verdadera conjuración de astros. Alguien late fuera de sí, de su misterio. Nosotros escuchamos el viento sobre los árboles, como una imagen encarcelada se detiene el aullido, pero otra señal mueve mi boca. Te busco en las paredes, un departamento rompe los sobres de cartas desaparecidas, un cartel, tu foto enviada de pronto hacia la mansedumbre, una fecha velada en las manos de los familiares. El viento sobre los techos nos previene sobre esa forma de existir, blancos lavatorios espuman mi niñez, ahora te poseo, ahora estás detenido entre imágenes que mueren. Mamá está dormida, sus ojos miran hacia los patios y ese fragmento nos invade, rejas donde hubo cementerios, espacios extensos para quedarse fuera del límite. Mientras otros dejan sus papeles sobre las mesas, ellos llaman a sus madres para recordar, pero el miedo es un bulto que nos divide, nos colocan signos, nos niegan las verdaderas razones.
A cidade, quando feita de homem, língua e mulher, não fica só no osso. Não, ela é músculo e alma, excitáveis e contráteis, é porém uma especie de coração que se agita dentro de você a toda vez que andas na rua. A cidade é um refugio da memória onde o esquecer tem patente e permisão. É talves um caos, na verdade é o caos mesmo, uma mixtura de referentes, um espaço construido para que o amor e o desamor possan ter inumeras motivações para o combate e para a palavra que se faz cavalgadura de seus propósitos -sem a língua para nomear não existe o amor, não existe o desamor, também não o silêncio, não há projeto. A cidade feita de homem, língua e mulher, é o descalabro e ao mesmo instante a redenção. Mas lembre-se que é so isso quando é feita assim. Se for só pedra sobre pedra pode ficar núa e perecer diante o silêncio e o frio, pode sim ficar no osso, o nosso, e pesar como a laje de um túmulo para a qual ninguém registrou palavras nem memórias, que ainda não é uma lápide. Continuar a ler “NEM TODAS AS CIDADES SÃO DE PEDRA-Texto, poema e imagens de Nelson González Leal”
Ao mundo sou estrangeiro:
A este mundo brutal,
Sem lei, nem rei, nem bornal,
Sem razão, tão mundanal,
Em que nem a língua entendo.
Figuras vou eu pois vendo,
Na caverna projetadas:
Em televisão vão nascendo
E morrendo – não são nada.
Na minha casa encerrado,
Poucos passos de prisão,
Abro livros que me vão
Levando p’ra todo o lado.
Pois desse confinamento
Não me queixo, nem por isso.
A minha grande questão
Está mais fundo, em sentimento.
Ao mundo sou estrangeiro:
Quer dizer, ao mundo vão.
É preciso que uma mão
Me guie, no meu intento
De entender este portento.
Não será projeto vão?
Já tenho idade pesada,
Já andei por muitos lados…
Estudei muito de Nada,
Os meus olhos estão cansados.
Os olhos e o entusiasmo!
Coisas que aos outros acendem,
A mim me causam marasmo
E tantos para o vão tendem!
Procuro o Absoluto!
Procuro em vão a Verdade!
Mas ao menos nesta idade
Não me impinjam um produto! Continuar a ler “TROVA DO CONFINAMENTO – por Paulo Ferreira da Cunha”
Lengua para hablar, y al hablar la llamo. Pero no acude, como si en su actual condición tuviese otro nombre. Tal vez lo que cambió fue mi lengua, se volvió a sus oídos irreconocible. Callo. Para no caer, trazo, con tiza, signos sin sentido alguno en una pizarra; abrazo una fe a la que hasta una rata rechazaría y bebo de un vaso vacío, a pequeños sorbos, a la hora en que el alba es una hipótesis.
Qué es este juego que esconde la carta más valiosa, no da sino informes, vías ciegas, nebulosas; por qué la letra no se vuelve yesca, por qué apenas salido me extravío; debajo del suelo, raíces que no atinan a beber aire del aire, luz de la luz, tal vez la razón esté en la pila primera, en la primera canícula, en la primera lluvia; qué es esta fórmula que abdica apenas el cuerpo se enfrenta con su sombra, adverbio torcido en una boca entreabierta, bandadas que rozan la fronda y se alejan para no regresar o para regresar con noticias de un cielo blanco, quieto y blanco…
¿El unánime avance del incendio hacia las nubes?
¿Y la conversación acerca de tensas cuerdas,
de inauditas alegorías, de peces entrando
en cardumen en el ojo?
Saltaré –me digo- sobre las vías muertas.
Perpetuado el recuerdo del olor de la primera leche,
del primer unicornio y la primera marea.
¿Qué persiste y qué se evapora?
Lo que persiste es el vestigio.
Lo que se evapora, la apoyatura.
Oficio que fatiga, que sucumbe al primer picotazo.
¿Qué es lo que no trastorna,
derrotada la ilusión, convertido en mundo el paisaje,
en herida lo que era sapiente por traslúcido,
verdadero por sólo estar ahí, al alcance de la mano?
Ave descaderada, sin posibilidad de vuelo.
Pasadizo a ninguna parte, a oscuras.
Escribo y pienso en una inmensa ausencia.
¿Qué crédito para esta latitud al margen,
para este silencio que ensordece,
esta falaz descendencia sin cópula?
——
¿Qué, en lugar de revelarme?…
¿Qué, en lugar de revelarme a los ojos de los demás, me oculta cada vez más hasta hacerme casi invisible? ¿Por qué lo que antes me estremecía ahora me desconcierta? ¿Por qué la carcajada se convirtió en extenuación y el arte en abismo donde se arremolinan criaturas ciegas y descarnadas? Tantas veces te nombré y ya no puedo hacerlo. Porque si te nombro se abre una herida en mi lengua. Y los muertos ya no hallan su morada. Y los vivos confunden una chispa con el resplandor de los sagrados lejanos incendios. Dolor donde antes no dolía. Techo donde antes había cielo y bandadas.
Tal vez traiga, luego, novedad al día, aunque fuere una mínima hierba, un dedal oxidado, un carbón de estrella; ahora es espera, con la puerta entreabierta, un anhelo de niño por una estrella fugaz en un cielo nocturno que sólo parece admitir estrellas fijas. Tal vez traiga un poco de verdor para las hojas secas que el viento arrastra y amontona; bandadas que retornan, al menos por un día, una hora, un instante para, con sus innumerables alas, abrigar la vida mientras el otoño persiste en su antiguo oficio de convertirse en invierno.
¿Y tu rostro? ¿Fruta disputada en el mercado? ¿Alimento para aves rapaces? ¿Milagro de un atardecer con trompetas? ¿Dádiva a las puertas de la tormenta? ¿Espejo donde se miran los viajeros recién arribados del desierto? ¿Cielo caído sobre un suelo pedregoso? ¿Y mi rostro? ¿Lo que traicionaré cuando nada ni nadie me importe? ¿Lo que llevaré como escudo cuando tenga lugar la penúltima batalla? ¿Un grito contra lo oscuro, la ceniza, la especie? ¿Un sólido, asentado silencio, que es muerte en su anverso y doble muerte en su reverso?
Poemas de Carlos Barbarito
Colagens de: Sergio Bonzón
♦♦♦
Sergio Bonzón e Carlos Barbarito
♦♦♦
Carlos Barbarito (Pergamino, Argentina, 1955). Publicó más de veinte libros de poemas y ensayos sobre artes visuales. Parte de su obra poética fue traducida al portugués, inglés, francés e italiano. Forma parte de un grupo editor que publicará, en breve, un libro sobre vida y obra de la artista Norma Bessouet. En preparación, dos libros de poemas con sendos dibujos de Victor Chab y Sergio Bonzón.
Sergio Bonzón – (Pergamino, Argentina, 1959) Artista Visual y Gestor Cultural. Trabaja por series, valiéndose para ello de distintos recursos visuales. Instalaciones de pequeño formato, dibujo, pintura, fotografía, grabado o collage. Integra el colectivo de artistas Itinerancia 6 desde 2013 – Coordinador de Piccolo Spazio Sperimentale desde 2015 a 2018. En 2019 se sumó al grupo Constructores de Fuego y desde 2020 al colectivo Grabadores Bonaerenses. Entre otros proyectos en desarrollo, actualmente trabaja en un libro de collages y poemas de Carlos Barbarito.
Sou uma estrela mas sinto-me só
pouco me adianta subir aos palcos
ser comentado aqui e ali
ter delírios e explosões
muito poucos me compreendem
muito poucos compreendem
a minha revolução
e agora estou ainda mais só
a um canto
a escrever as palavras Continuar a ler “TRÊS POEMAS de António Pedro Ribeiro”
A Baía de Nápoles em noite de luar Vesuvio , by Ivan Constantinovich Aivazovsky
Olhos
O meu pai tem uns olhos graúdos que veem o mundo antes de mim para mo preparar. São grandes, bonitos e esbugalhados, e falam por si só e se a voz lhe falhar.
Enxergam o mundo num segundo, antes dos meus, alertam e aprestam-me na vida, para os tombos e os imprevistos, para as falhas e as distrações. Nunca naufragando. É uma mirada infalível. É sim. Continuar a ler “…DOS OLHOS de Correia Machado”
Quando seguir pela estrada fora, com
livros de viagens juvenis nas mãos,
poderei entender melhor a luz das manhãs na estrada,
as árvores da distância nessa luz clara.
Poderei aproximar-me de ti, fora do tempo,
num trilho paralelo ao tempo,
num atalho que o próprio tempo
tenha reservado para nós.
A nossa roupa cintilará ao sol
enquanto andarmos, enquanto prosseguirmos andando
na distância visual perfeita. És
uma mulher que pouco conheço,
e isso é-me do agrado, enquanto caminho contigo.
O nosso diálogo contém as palavras ideais;
nada nos falta nessa distância. Prosseguiremos
livres, despreocupados
e, ao que tudo indica, felizes.
Me apunhalaram. Uma carne fria
com estímulos eletrônicos,
assim deixaram minha alma.
Me arrancaram o susto de vida
e deram corpo ao previsto.
A alma que soprava arrepios
agora é piano sem lírica
e palpável às mãos do mundo.
Carne de metal: não chora,
não contempla. Só vê.
Frio é o afago, como é
também o nosso tempo
– esse homem de muitas portas
e chaves humanas,
e contudo vazio de mistério.
Arrancaram da caixa mágica
a lírica, a música e o susto.
O sangue já não é quente…
O corpo já não me escuta…
Me apunhalaram ainda n’alma
e me jogaram à carne fria
que não chora nem contempla.
Me arrancaram o susto
e no lugar puseram o relógio.
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