TRÊS POEMAS de António Pedro Ribeiro

ESTRELA SÓ

Sou uma estrela mas sinto-me só
pouco me adianta subir aos palcos
ser comentado aqui e ali
ter delírios e explosões
muito poucos me compreendem
muito poucos compreendem
a minha revolução
e agora estou ainda mais só
a um canto
a escrever as palavras
de nada me serve a minha liberdade
a minha rebelião
as pessoas só pensam em contas e negócios
e na vida pessoal
de nada me vale ser do Che e de Jesus
e depois hoje acordei mal-disposto
é claro que vem o Lou Reed
“Sweet Jane”
e logo me acende
“Sweet Jane”
cantei-a na “Função Pública”
com os Ébrios
naquele célebre concerto
antes do Feira Nova
viva a Arte!
Viva o sublime!
Que se foda o dinheiro!
Redenção
ressurreição
sou uma estrela e a música é a amiga íntima
até há cartazes dos Sereias espalhados pela cidade
e nem toda a gente é imbecil
e nem toda a gente está longe de ti
e já não te sentes tão só
és apenas um solitário
como Nietzsche
como Zaratustra
não precisas do rebanho
nem da manada
seguiste o caminho que conduz a ti mesmo
por isso sofres
mas lembra-te
és do bom rock n’ roll
e há gente de bem
que tenta compreender-te
se bem que não te atinjam totalmente
talvez sejas mesmo um louco divino
mas tens que deixar de ser tão reservado
tens que te expandir mais
fora do palco
fora da escrita
não há dúvida
és mesmo a estrela
tal como outros
antes de ti
tens um grande coração
e bebes no “Pipa Velha”
e observas os outros
as gajas
e os normais
e prossegues o poema
e cumprimentas o deputado
e vem outra vez o Lou Reed
“Pale Blue Eyes”
noite underground
noite de pecados
sempre a subir
até aos Céus.

♣♣♣

ANJO DE DEUS, ANJO DO INFERNO

Quem és?
Para que vieste?
Porque não és como eles?
Porque não falas a linguagem deles?
Até parece que já estiveste
aqui antes
não há psiquiatras
nem psicólogos
que expliquem
os teus delírios
a tua loucura
a tua louca sabedoria
o dinheiro nada te diz
nem o ganhar a vida
amas as mulheres belas
canta-las
queres derrubar o Império
para chegar ao Paraíso
já em menino eras assim
puro
justo
bondoso
mas se te fazem mal
vingas-te
estátuas, castelos caem
à tua passagem
provocas
anjo de Deus
anjo do inferno.

 

FAMA DE MALDITO

Como Fernando Pessoa
levanto-me a meio da noite
para escrever poemas
só não possuo o seu génio
bom, também não sou um coitadinho
já publiquei 14 livros
além dos escritos dispersos
que por aí andam
não me têm é chamado
para encontros de escritores
ou conferências
tenho mesmo fama de beatnick,
de maldito,
uma vida de copos, noitadas e rock n’ roll
que agrada a uns
e desagrada a outros

Vou escrever mais uns versos
para provar que sou dotado
inspirado pelas musas
que, aliás, têm andado arredias
só falam comigo pelo facebook ou pelo telefone
tal é a minha sorte
também Pessoa tinha a sua Ofélia
eu tenho a minha Leonor
em tempos escrevia-lhe cartas de amor
agora já não se usa
também estou a deixar de ser
o poeta dos cafés
voltei-me mais para os pássaros
para o jardim
continuo a escrever para jornais
ou, pelo menos, a ter o nome
na ficha técnica
é um hábito que vem de trás
desde os anos 80 em Braga
no “Correio do Minho”
de facto, ando a precisar
de publicar mais um livro
tenho produzido muito
muito menos poesia
do que prosa
vou pedir ao Rui Manuel Amaral
que me faça outra selecção
foi-se o blogue
foi-se o “Trip na Arcada”
chegou a ser importante
tudo tem o seu tempo
tal como a Casa da Madeira
há pessoas que realmente me admiram
que admiram a minha arte
e essa é a maior recompensa
nunca o sucesso comercial

Como Fernando Pessoa
acordado, a altas horas da noite,
escrevo
talvez nunca venha a ser um grande poeta
e daí até nem sei
ainda vou a tempo
ainda não perdi a esperança.

Vilar do Pinheiro, 2.8.2018

António Pedro Ribeiro nasceu no Porto no Maio de 68. Viveu em Braga, Trofa, Porto e reside actualmente em Vilar do Pinheiro (Vila do Conde). É poeta, escritor, diseur, cronista e vocalista da banda Sereias. É autor de 15 livros, entre os quais, “Declaração de Amor ao Primeiro-Ministro”, “Queimai o Dinheiro”, “Dez Pés Abaixo do Mundo” (antologia), “Fora da Lei” e “Café Paraíso”. É licenciado em Sociologia e foi jornalista. Foi também activista cultural e estudantil, tendo sido militante e candidato dos partidos PSR, Bloco de Esquerda e MRPP. Actualmente considera-se anarquista.

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