A “Europa” ou a minha “Nação”? por Diogo Pacheco de Amorim

Contra ou a favor da Europa? Contra ou a favor das nações? A “Europa” ou a minha “Nação” ?

Questão que hoje vivamente se coloca, desdobrando-se em infindáveis discussões. Juízos rápidos e fulminantes disparados contra quem duvida da bondade da escolha politicamente correcta, a da “Europa”. E contudo…

… Contudo são discussões sem sentido, caso antes se não defina, clara e inequivocamente, qual a Europa de que se fala. Porque há duas europas em tudo diferentes. Dois conceitos distintos instalados dentro de um mesmo termo: “europa”. Assim, se me perguntarem se quero manter-me na, ou “sair” da “europa” começarei por perguntar “qual Europa?”. Clarifiquemos, pois há uma Europa que nasceu na Grécia há 2.700 anos, entre oliveiras, penedos sagrados e o azul do mar. E aí, entre deuses demasiado humanos e homens quase divinos, nasce, cresce e agiganta-se toda uma Cultura. Ésquilo, Sófocles, Píndaro, Heraclito, Fídeas, Anaximandro, Sólon, e tantos outros, deram ao mundo o espírito de uma civilização ímpar.

O Espírito. O primeiro pilar.

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QUANDO A MADRUGADA JÁ NÃO EXISTE: SOBRE A PÓS-VERDADE por João Esteves

Ruído incomodativo às 3h30 da manhã: um vizinho põe a música num volume acima do permitido. Por enquanto, eu sei! Nas assembleias das democracias, sobre as quais me dizem ser o lugar cada vez mais antiquado, face aos desígnios do mundo de hoje – afinal as leis provêm de maiorias que nem sempre defendem o interesse da maior parte dos cidadãos – tem-se vindo a discutir, face ao aumento do turismo, a possibilidade de se alterarem as horas a partir das quais não se pode fazer ruído excessivo. Por outras palavras, tem-se vindo a discutir a possibilidade de “não haver horas para dormir”, favorecendo a ideia do mundo globalizado: a noite é todo o dia, faz Sol todo o ano. Continuar a ler “QUANDO A MADRUGADA JÁ NÃO EXISTE: SOBRE A PÓS-VERDADE por João Esteves”

TRIPÚDIO – por Luís Costa

Die Geburt des Dichters

Nunca pensei, sonhei ou desejei ser poeta
durante toda a minha juventude em vez dos livros ou da poesia
sempre preferi brincar aos índios e cowboys
ou assaltar ao meio da noite os laranjais
e os galinheiros dos vizinhos, ou ainda espreitar a vizinha,
quando esta se despia para fazer amor
e masturbar-me, masturbar-me (sim, sempre houve em mim
um gosto nato pela transgressão)

pergunto: poderá a fome de poesia ser explicada
cientificamente, será talvez uma herança genética?

que eu saiba entre os meus antepassados
nunca houve poetas, nem artistas, nem sequer homens cultos
houve, isso sim: assassinos, carrascos, esfoladores,
prostitutas, concubinas, mulheres obscuras e violentas
videntes, hipnotizadores de serpentes
também padres, mártires, santos e, sobretudo…
ah! sobretudo: loucos!

sim, entre os meus antepassados constam-se vários loucos
e confesso que também eu, por vezes, enlouqueço.

já passei alguns anos numa psiquiatria
porém todos os meus psiquiatras (foram muitos.
alguns deles suicidaram-se. outros enlouqueceram.)
dizem que a minha loucura é uma lúcida loucura.

vá lá saber-se o que é uma lúcida loucura,
mas talvez tenham razão, talvez a poesia seja um caso
de lúcida loucura.

English Garden

Aquele cadáver que plantaste o ano passado
no teu jardim já começou a despontar?
dará flor este ano?

                                                      T.S. Eliot

Foto de Paulo Burnay

Morreu no outono, um outono translúcido
como o da poesia de Trakl.

conforme o seu último desejo foi enterrado ao
canto mais belo
– onde crescem a rosas de Shakespeare –
do seu tão amado jardim,
o English Garden
onde costumava ler e escrever,
ler e escrever
até que os olhos lhe doessem de alegria.

enterraram-no com uma mão de fora
para que quando chegasse a primavera desse flor
e as andorinhas lhe cagassem em cima.

Realeza

Foto de Paulo Burnay

Toma-me, ó noite eterna, nos teus braços
e chama-me teu filho
  Fernando Pessoa

O corpo (um odre de carne malcheiroso)
Mas ainda bem modelado

A ferida costurada
Os genitais encolhidos
O incenso subindo dos turíbulos
Aos brados

Assim lhe despiram a realeza
Assim regressou à noite antiga e calma.

La beauté

Je suis belle, ô mortels ! comme un rêve de pierre
Charles Baudelaire

Há uma tremenda beleza naquelas mãos grandes e peludas:
porquanto manejam habilmente os bisturis
que são astros cintilantes na podridão das vísceras.

Foto de Paulo Burnay

Elogio da loucura

Ao meu tio José (1940 – 1999)

O meu tio José, o louco. vejo-o
deambulando pelas ruas ao deus dará
sem outro destino que não seja deambular.

um Kentucky ao canto dos lábios.
o chapéu amarrotado…

o tio José, alto e elegante
como muitos dos homens da beira alta.
os olhos tão azuis… tão azuis…
quase germânicos.
lá dentro, o céu. não o céu de deus,
pois um louco não precisa de céu,
nem de deus, pois um louco não precisa
redimir os seus pecados.

mora na noite da luz. isento.
como as aves.

 Ressurreição

Luís Guerra e Paz

Depois do dilúvio
por entre as barcas e as casas submersas
onde agora o hálito de Deus mora
com a perna amputada às costas
regressou da morte

pois dizem que Deus não gostou do seu cheiro.

♦♦♦

Luís Costa escreve poesia e mais algumas coisas. Nasceu na sexta-feira santa de 1964. Tem alguns dos seus trabalhos publicados em revistas digitais como a Triplov e a Zunái, tendo também colaborado no primeiro número da revista internacional de surrealismo Debout Sur L’oeuf. Para além disso, pouco há a dizer. Ah, diz que a biografia do poeta é a sua poesia, pois, a seu ver, fora do poema o poeta não existe. Escrever poesia é para ele uma questão de ira e amor: uma violência amorosa. E também o contínuo suicídio do eu para que a obra se faça.

Viagem a Andara oO livro invisível – de Vicente Franz Cecim

Viagem a Andara oO livro invisível

Fonte dos que dormem

POEMAS

se o Adormecido um dia vem à tona

Suspeita de ti
o Outro

que em Ti
ainda é Semente

Lagos serenos te prometem Assombros

Ouve

o Silêncio

Foto de Paulo Burnay

sob a Estrela de Silêncio

pois tendo Eles vindo,
com Suas Presenças de Ausência em Breve,

para a Fenda que não cicatriza entre Pedra e Musgo
para os Gestos humanos na Penumbra,

eu os chamei Pai e Mãe
Mai e Pãe pudesse ter Chamado,
pois seus Nomes nunca saberei,
na Fenda que não cicatriza,
nos Gestos, na Penumbra

Fontes se dando às sedes de Outras Fontes

Pois somos os que um dia vêm com dia marcado para voltar em nossas Frontes,

em bandos em bandos nos Musgos nos Musgos

Inclinados pelas Auroras

Indo

atender às Sombras nos Crepúsculos

E tu buscas a Semente, e o Dom de voltar para casa, e por onde passas, por toda parte perguntas

  • Onde moram os Espelhos da Carne¿
Foto de Paulo Burnay

Rubro sentimento lento

desamparado
fora do Mistério
na Catedral rompida

como se fosse um homem, e crendo Nisso

Cálice de Vestígios,
sede do Lábio dos Regressos

Das Auroras ao Crepúsculo do Imerso, na penumbra dos Dias

aguarda                    Margem que desperta,

oO que de Si adormece

parecem homens

Cortaram árvores para ter onde sentar

E agora,
da areia olham as Águas até o horizonte

Querem ver o que há depois da última estrela
Sentem o roçar de mãos Antigas se desfazendo

parecem tristes

Estão aí
Calados     Cada um ouvindo

em Si

sua Concha de Silêncio,

sua Areia dos Rumores

Sentem a Falta de alguma coisa,
já não lembram o que é

Foto de Paulo Burnay

E eu te digo

Não se trata
de ir Além do humano

oO Caminho cintila no inverso

vir

Aquém do humano,
regressar ao umanoh

E, assim,
ao Um,

ao Umano

se um Vento parte o Vaso da voz

adormecido agora
águas escuras
alguém alvura amizade das coisas
animal anjo Aquilo
areia árvore asas aves

beber

no Bosque das paixões Bosque sem paixões brancas brisas caminho a carne casinha de terra centeio negro o céu
Chamas cílios cinzas de Serdespanto

As coisas pelas coisas os dias Compaixão Corpo crianças
daquele despertar

Diz-se dorsos lisos

escreve Esfera espanto estranho mundo Fábula

Falar sem boca floresta Andara fontes frutos fundo gaiola grão homem de pó homem
sem ternura homens imensos

inclina inseto intuição

irmã irmã-ave de Serdespanto canta lábios lágrimas leve livro invisível lua sangrando

madeira mãe de Serdespanto

montanhas murmuram

nascido negro negra nela ninguém ninho nome

osso Pai ossos Ouçam

ouvindo palavras pântano pranto passando
perguntas pousar no leite real saber sangue das estrelas seiva semente serpente silêncio sombra sonho

tinta Invisível

tocam túmulo Vento e passagem vindo viram vivendo
voltassem

Foto de Paulo Burnay

*Poemas selecionados pelo autor, do livro Fonte dos que dormem (Editora Córrego, 2015, São Paulo, Brasil) de Vicente Franz Cecim, escritor brasileiro. Cecim nasceu e vive na Amazônia, e o livro é o mais recente passo publicado de sua obra Viagem a Andara oO livro invisível.

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Vicente Franz Cecim é brasileiro, escritor e jornalista. Autor do ciclo literário Viagem a Andara oO livro invisível, no qual há mais de trinta anos transfigura a sua região natal, a Amazônia, em Andara, região verbal metáfora da vida, onde ambienta todos os seus livros. Dos livros visíveis de Andara, os que escreve, emerge o livro invisível, que não escreve, literatura fantasma, segundo o autor, o não-livro, que não é escrito: corpo de um corpo que se sonha. Pela Viagem a Andara recebeu o Grande Prêmio da Crítica da Apca – Associação Paulista de Críticos de Arte, em 1988. Já foram publicados também em Portugal os livros de Andara: Ó Serdespanto (Íman, 20012) e K  O escuro da semente (Ver o Verso, 2005). Sobre o primeiro, Eduardo Prado Coelho escreveu no Público: Uma revelação extraordinária! (…) O pensamento liberta-se dos seus lastros terrestres e ganha um estatuto de ave, uma leveza de princípio do mundo, uma sageza do fim dos séculos, uma inocência dos extremos. O que faz de Ó Serdespanto um livro inclassificável é que ele é feito do círculo crepitante das histórias que se contam e recontam, do uso visionário das palavras refeitas letra a letra ou a da lenta respiração da terra. E sobretudo de uma demorada aprendizagem do espanto de ser e de não-ser.

POEMAS de Júlia Moura

Foto de Paulo Burnay

CORPO DO AMOR

falar de amor é a tentativa de decifrar
o escuro divino com a intuição do âmago
esbarrar no vazio tropeçar no tudo e
inventar meio mundo dando voltas
nas estrelas caídas
mais fácil é falar do teu corpo
do teu copo
do teu sopro de natureza cálida

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Sleeping Beauties – por Paulo Burnay

 

 

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PAULO BURNAY

Nasceu em 1957, no mesmo ano do Bin Laden, do Rui Veloso e da RTP.

Aos nove anos começou a roubar pedaços de luz para dentro de uma Diana, a célebre máquina da Farinha Amparo. Assinou então o seu primeiro filme com generosas dedadas, durante a luta de uma hora, às escuras, para o enfiar dentro do tanque de revelação, e ficou para sempre viciado no cheiro a fixador que lhe impregnou as mãos.

Ainda anda por aí a roubar pedaços de luz.