POEMAS de Júlia Moura

Foto de Paulo Burnay

CORPO DO AMOR

falar de amor é a tentativa de decifrar
o escuro divino com a intuição do âmago
esbarrar no vazio tropeçar no tudo e
inventar meio mundo dando voltas
nas estrelas caídas
mais fácil é falar do teu corpo
do teu copo
do teu sopro de natureza cálida

a morfina dos seus olhos amedrontam
as senhorinhas católicas do meu peito
elas fogem da sua boca despida de terra
e já não guardo mais o mundo todo em mim
-faltam as senhorinhas católicas

 

amor não é só teu corpo de entranhas ar e fogo

afinal

não é só perfeição

é o devaneio pagão que posiciona os limites

 

do mundo na curva da sua nuca
e coloca crianças infinitas para escorregar

feito nuvem no seu pescoço

deslizando pelo planeta água

amor é sobre coragem

sobre um salto de ponta num oceano de gota

irregular e doce

é uma prece à assimetria imprescindível

e charmosa das maçãs do rosto

uma ode às nuvens que nunca são iguais

e se misturam eternamente

 

a cor e o cheiro da manhã nua são a única
harmonia do mundo mais serena
que os tons da sua pele

 

o ego fraco dos homens bonitos

e o choro que não se assume nem se rende

não erguem meu seio florido

nem inclinam o lírio do meu sossego ao céu

a carne a alma e o espírito se elevam

na força que reivindica a importância de não ser

de amar e

de se perder

o amor não se deita entre paredes de orgulho

e acaba por morrer de cansaço

 

se os pelos dos poetas não crescessem

na direção do sol que estala lirismo

eu conseguiria domar o ócio

e matar as horas com golpes de afazer

 

mas vivo à deriva
na eterna espera de não sei o quê

carregando o devir numa bolsa que

nunca estoura

saciando o signo do amor escrevendo

poemas sobre seu corpo

sobre a falta que faz as senhorinhas

católicas no meu peito

sobre o caos sagrado que dá vida à vida

e sobre esses lábios da luamor que beijam

meus pés minhas dores e minha noites

 

quando me atrevo a falar de amor

 

e do teu corpo.

 

BASTARDO

os cordões umbilicais nunca cortados

orbitam um sol que arde sem ter nome

 

a palpitação dos corações alheios

põe o arrepio pra brincar e

me faz beijar um planeta que não tem nome

 

o suspiro que invade um coração sem porta

 

me lança à renúncia que é amar

um homem que não tem nome

 

crianças que me cobrem na madrugada fria

 

usam o cerol de suas pipas para sangrar

poemas sem nome

 

todos os presidentes impronunciáveis

da União Soviética

se embriagaram escondidos e aos prantos

com vodkas que não tem nome

 

o espírito da nossa época brota de

uma fonte que afoga a congruência e

emerge o absurdo que não tem nome

 

o perfume que mergulha no olhar sem

ponto de fuga

 

foge pro fundo de um corpo que esconde

vontades sem nome

 

o nome do beco é a cor do barulho que ele canta

e quando toco a membrana frágil que divide

 

o riso e o choro do mundo

 

foge o nome de todas as minúcias

 

que respiro

 

a poesia engole a forma

no espaço de duas pernas

depois explode

 

o poema prematuro não atende pelo nome

-não haveria poetas

ele só acorda com o grito desvalido

das coisas que sublimam

não existem
e nunca desaparecem.

 

INSÔNIA

Indomáveis são minhas pernas nessas noites de calor

 

Correm pelos escritores que ficaram famosos por se contradizer e

me enchem de esperança

Meu caso com o verso é mal resolvido

É nesse desencaixe que se esconde o

mistério do amor

e o telefone escrito num papel de doce

que um homem me entregou no ônibus

Se eu achasse esse papel

O último álbum do Jorge Mautner falaria da mulher

que se casou aos 17 anos

 

Nas entrelinhas dos versos dos poetas latinos

mora a verdade tropical

Contando o dia em que o caos engoliu a métrica

E que um militante da poesia é tão desimportante

que lambe o continente com a ponta da língua

É dessa umidade que vem a lírica destemida

falando de sol, marte, gozo, criança, miséria e pele

num só poema

-o continente é o desenho de todas as manchas da sua pele

juntas

 

Eu dormiria agora se a lua me deixasse

Se os postes da rua não fossem tão amarelos

Se o único homem na praça não estivesse fumando

 

cigarro escondido de sua esposa

 

Se esse mesmo homem não guardasse um perfume

no bolso pra disfarçar o cheiro

Se os grilos não tentassem cantar minha música preferida

Se eu soubesse qual é minha música preferida

 

Se eu não tivesse assistido ao jornal sangrento no almoço

Se você não tivesse me sorrido daquele jeito

Se me explicassem o segredo das cores

Se o barulho do único carro que passa

não parecesse com o som da sua chegada

Se Deus me explicasse o porquê

dos bebês segurarem nossos dedos com a força do mundo

Se não houvesse livros na minha cabeceira

 

Eu dormiria agora

Se minhas pernas não fossem indomáveis nessas noites de calor.

 

TRANSE

eu visitei um vale dentro da minha cabeça

há um rio que corta esse vale ao meio

os pássaros gorjeiam música tântrica

e as estrelas brilham muito e caem

o tempo inteiro

há várias criaturas aladas

há também uma correnteza fluindo pelas minhas pernas

a ponta dos meus dedos simulam libélulas

batendo a cauda na água

logo percebi que o rio era eu

e que a correnteza sutilmente selvática

era a força de outras mulheres-fluxo nesse rio

 

qual é o charme das máquinas

e das coisas apressadas

que teimam em dizer que existem?

 

há um vale

eu sei que há

 

há também um princípio anárquico que rege

todos os seres que perguntam o porquê

das coisas

os cílios desses seres se descolam

de seus olhos

e vão passear

voam igual dente-de-leão ao vento

às vezes caem nas coxas de seus

amores e fazem cócegas

mas daí é só às vezes

 

respostas de pernas bambas

dessas muito aparentes

fáceis demais de enxergar

se desequilibram entre os cílios

e não intimidam

essas flores de maracujá

que brotam no canteiro

desses olhos

 

a propósito,

vocês já viram uma flor de maracujá hoje?

pois então não digam

que gineceus não entram em transe.

 

PANGEIA

hoje a flor brotou na pele

toda palavra é uma lâmina bêbada

 

as terminações nervosas do órgão mais sensível

se espalharam pelos dedos, olhos, pernas

 

as letras dos poemas que minha mente desenha

aram meu peito até esfarinhar

assistir ao noticiário é matar o último lírio verdevida que chora e não se rende

os contornos dos continentes são os contornos das minhas curvas
e hoje é o primeiro dia depois da pangeia

que me rasgou em cinco

hoje

a pele da flor que assistiu a morte da mulher que morreu por ser mulher acordou arrepiada

e eu

à flor da pele

já nasci e morri quatro vezes

só antes desse dia começar a respirar.

 

NÃO DIZER NÃO

Estamos a um espasmo do fim do mundo

e sei que a assimetria das tuas pintas

 

são tão importantes para a natureza

quanto as resoluções da Conferência de Kyoto

 

Não há tempo para concluir a missa

Saiam da igreja antes da saudação final

Deus é graça e

do céu escorre a bênção

toda vez que te observo

 

Não são tempos de produzir coerências

Nem de revisar os textos

Os homens que resolvam seus problemas.

É tempo de escrever poemas

nas cinturas e nos dedos

até descobrir o porquê do seio do mundo

ter o cheiro dos seus fluidos

 

Não procurem terapeutas e psicólogos

A solução do problema se esconde

no botão da rosa das mulheres

Beije a boca dessas mulheres como se todas

carregassem seu melhor poema no útero

e o lirismo lhe ofertará um sorriso

 

Não há tempo para nada do que já foi dito

Por isso que escapam neologismos dos seus olhos

toda vez que você sorri

 

O sol dá piruetas sobre a explosão dos corpos

que nunca dizem não

 

Criei um pássaro que tem a textura de tudo

que nunca toquei

e que imita seu olhar desvalido

É com a ousadia desse pássaro que peço para ser arrebatada

ao paraíso que te pariu todos os dias

O tempo que ainda existe é para o nascimento.

♣♣♣

Júlia Moura é brasileira, nascida em Taguatinga-DF, no final da década de 90. É graduanda em História na Universidade de Brasília. Por meio de seu pai, escritor, desde pequena foi estimulada a mergulhar no mundo da literatura. Integra o Coletivo Poético Assum Preto, junto com outros artistas que pulsam a veia das nuances latino-americanas, relacionam-se tanto com o verso arma como com o verso lírio. Militante da poesia, declara fazer parte dessa luta que de tão vã, se torna imprescindível. Inédita em livro. Contato: juifmoura@gmail.com.

 

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