QUANDO A MADRUGADA JÁ NÃO EXISTE: SOBRE A PÓS-VERDADE por João Esteves

Ruído incomodativo às 3h30 da manhã: um vizinho põe a música num volume acima do permitido. Por enquanto, eu sei! Nas assembleias das democracias, sobre as quais me dizem ser o lugar cada vez mais antiquado, face aos desígnios do mundo de hoje – afinal as leis provêm de maiorias que nem sempre defendem o interesse da maior parte dos cidadãos – tem-se vindo a discutir, face ao aumento do turismo, a possibilidade de se alterarem as horas a partir das quais não se pode fazer ruído excessivo. Por outras palavras, tem-se vindo a discutir a possibilidade de “não haver horas para dormir”, favorecendo a ideia do mundo globalizado: a noite é todo o dia, faz Sol todo o ano.

Tal posição é muito sintomática do nosso tempo: em nome de interesses particulares, a sociedade aproveita-se das misteriosas leis cósmicas para pisar as velhas condições humanas, delineando novos paradigmas para a sociedade que são, em si mesmos, contrários aos interesses da maioria. Mas a falta de lógica sustenta o lucro fácil, passageiro e não sustentado e tais modelos propostos para a vida em comunidade serão apenas “modas” com os dias contados. Pelo meio, o que fica são aproveitamentos perversos: calam-se as vozes da grande parte das pessoas em favor de alguém que as desrespeita. Quem as desrespeita esconde-se sempre atrás da lei. Crimes assim se perpetuam, paradoxalmente, ao abrigo de regimes não integradores e defensoras do interesse de uma minoria. Quando a lei reflectir o interesse colectivo, é porque o vizinho que pôs a música muito alta (símbolo do interesse minoritário) já cá não está, isto é, já não é para ele incomodativo calarem-lhe o pio – pensamos nós, em movimento projectivo, alimentando a descrença que nos move.

É a tão proclamada pós-verdade, tão antiga desde que o mundo é mundo. O relativismo derivado do cepticismo em relação à ideia de se construir um mundo melhor, porque a capacidade congregante que pressupõe a empatia não existe. Não tenho empatia porque a empatia não existe; existe apenas a lei ao serviço de uns quantos – pensa quem assim se comporta. Sem capacidade reivindicativa, aceitam-se as injustiças passivamente, provocando nos outros a ideia de que tudo depende do prisma de quem analisa a situação. Será injusto para quem pede justiça, será normal para quem nela se “habituou” a sobreviver. Entretanto, a psiquiatria, sempre concordante com o seu tempo, propõe novos indutores do sono para dormimos calmamente e esquecermos estes vizinhos que se simbolizam o eterno presente adiado.

Porto, 3 de Janeiro de 2018

Foto de Paulo Burnay

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João Esteves. Finalista do curso de medicina da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, colaborou, até ao momento, com o magazine de poesia «Eufeme» e com a revista literária «Caliban». Natural do Porto, reside em Vila Nova de Gaia.

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