O POEMA E O POETA – por João Rasteiro






Nossa memória sempre foi 
a memória dos monstros 
nosso enigmático testamento

Casimiro de Brito



I

O poema nunca estará morto,
não é sequer poema,
a ilícita quimera desejada, o ouro
imperceptível e consumado,
“o problema não é meter o mundo
no poema”; vislumbrá-lo inteiro,
desinquieto em auroras claras,
em giestas de espera, e só assim
na breve treva a veracidade
que emana do canto dos pássaros
em disperso azul, em alforria,
lhe permitirá agarrar o seu trémulo
verso, a singular oblação da rosa.

 II

(“no corpo sitiado” do poema
vagueiam as estranhas inflexões
divinas, o apetecível nervo de deus,
com garras aguçadas e fontes
visionárias, e “no corpo sitiado”,
no mais profundo do branco
e do sangue, o séquito de ninguém,
poesia, “ode & ceia” – um homem)

III

Expurgue-se a língua sobre o mundo,
e escarneça-se o segredo do poema;
“o problema é torná-lo habitável,
indispensável”, imprescindível na mão
direita que exibe a infinita cifra
que se esvai no pestanejar dos olhos
entre o enegrecido chão, e o alvejante
horizonte, entre a folha e o céu,
entre o homem e o poeta: deuses,
em sua imatura, mas voraz semente.

 IV

E ouse-se suster a convulsão,
aceitando com desmesurada grandeza
o destino lapidar e conciso, o perjúrio
como furtivas e órfãs rosas,
aí, em “canto adolescente”, o poeta
rasura a devoção do equívoco,
a inconsciência do artesão: a derrota
transfigurada em infinitas coroas de ouro.

 V

O poema nunca estará morto,
não é sequer poema,
fonema bárbaro, face a face, rude,
ou sílaba real e transparente,
ele é o corpo do mundo por entre o jugo
da morte, na primordial violência
da “negação da morte”: o poema
perece, o poeta perece, a traição é bela!

                                                   ♦♦♦

[inédito de João Rasteiro – poema de homenagem ao poeta Casimiro de Brito, na celebração dos seus 80 anos e dos 60 de publicação da sua primeira obra: “Poemas da Solidão Imperfeita (1958)]

 

João Rasteiro (Coimbra): Licenciado em Estudos Portugueses e Lusófonos pela FLUC/U.C. Tem poemas publicados em revistas e antologias em Portugal, Brasil, Itália, Espanha, Finlândia, República Checa, Moçambique, México, Hungria, Colômbia e Chile. Obteve vários prémios, entre eles o Prémio Literário Manuel António Pina (2010). Em 2012 foi um dos 20 finalistas do Prémio Portugal Telecom de Literatura. Publicou 16 livros (Portugal, Brasil e Espanha), o primeiro, A Respiração das Vértebras, 2001 e o último, A rose is a rose is a rose et coetera, 2017, que, o grupo de teatro “Os Controversos” (com adaptação e direcção de Ricardo Kalash), levou à cena no final de 2017.

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