O DUELO FINAL – por Jaime Vaz Brasil

Basil Rathbone and Tyrone Power , no filme “The Mark of Zorro”, dirigido por Rouben Mamoulian

No porão, esperávamos o Águia. Atrasado, como sempre. Mas viria, cedo ou tarde. Viria com o nariz erguido, a roupa surrada e a tatuagem no braço que lhe valera o apelido. Iniciamos sem ele. Raimundo Sanchez estava com aquele casaco que o deixava ainda mais gordo, e foi desenrolando devagar a planta, desenhada em papel de embrulho. Olhamos em direção à porta: ninguém nos observava. O esquema todo abriu-se ali, clareira em mato de silêncio. Domingues, o manco, questionava os riscos de cada etapa. Quando mostrávamos a ele a fronte encurvada do seu medo, tentava se defender:

— Meu pai dizia que alguém precisa ser o advogado do diabo.

Emiliano chegou logo depois, e pôs uma espada militar sobre a mesa. Um por um de nós a experimentou, como se ensaiássemos um duelo imaginário e futuro. Emiliano a tomou de volta e outra vez colocou-a na mesa, desta vez sobre a planta. Em seguida, ergueu os olhos desafiadores a Raimundo Sanchez, que encarou-o por um tempo e depois resolveu tirar a espada dali, dizendo:

 — Não é comigo a tua raiva.

O gordo Raimundo tinha razão. Conhecíamos as provocações do Águia com o Emiliano. De tempo em tempo, Emiliano tentava descontar em alguém. Mas pressentíamos, para algum quando, o duelo final entre os dois. As rivalidades vinham de questões muito antigas, a começar por Maria Rita Herrera, prima de Emiliano. Depois que se estranharam da primeira vez, tudo passou a ser motivo para azedar na caixa dos rancores.

Quando o Águia chegou, falamos sobre o plano. Ele reclamou da umidade e da escuridão. Algum de nós disse que o escuro era por ele estar chegando da rua, e logo acostumaria as vistas.

— Não te perguntei.

 O Águia era assim. Em muitos momentos, quase intratável. Estava no bando porque sempre arranjava armamento pesado. O Águia olhou com desdém para a espada de Emiliano e jogou-a no chão. Domingues riu quieto um riso nervoso. O gordo Raimundo ficou impassível, parecia ter a respiração trancada. Depois, a vista de Emiliano que estava fixa na espada foi se erguendo até bater com a cara debochada do Águia. Os dois se olharam com toda a raiva que cabe no redondo dos olhos.

 Prevíamos o pior, e o pior às vezes pode ser mais cruel do que se pode pensá-lo. Corpos a rolar pelo chão batido, frontes retorcidas de dor e ódio, adagas terceando na cara um vento rubro. Entre nós, um cheiro de sangue antevisto. No corpo da umidade, naquele porão de sombra e entulhos, escorria o suor nas paredes mal rebocadas e no rosto de Emiliano. O Águia foi devagar até a espada e pisou nela.

 — Vai encarar?

Emiliano desta vez não baixou a cabeça nem desviou o olhar. O gordo Raimundo engoliu a expectativa, imóvel como todos nós. E assim ficamos por instantes intermináveis, até o manco Domingues arriscar algumas frases. Disse que seria bom irmos ao trabalho, rever a seqüência do esquema, o plano não comportaria desavenças e coisas assim. Com mais uma fala do gordo Raimundo, fomos sentando. Emiliano e o Águia sentaram por último, olhos espetados um no outro. Sabíamos: enquanto os dois não resolvessem aquele problema, de tempo em tempo teríamos o duelo pressentido. Os dois também sabiam, e num repente tornaram a se levantar. O Duelo Final. Olhares na paralela do grito, horizontais e definitivos. A cara da morte nunca esteve  tão clara quanto desta vez.

Nisso, invade nosso esconderijo dona Etelvina, vinda não se sabe de onde. Pega a espada de plástico, bate na bunda do Águia, faz ameaças e manda todo mundo pra casa estudar matemática.

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Jaime Vaz Brasil – Poeta gaúcho, com 7 livros publicados e vários prêmios, dentre os quais: Açorianos, Felipe d’Oliveira e Casa de Las Américas (finalista). Atua também como compositor, tendo vários poemas musicados e interpretados por vários parceiros, dentre os quais Ricardo Freire, Flávio Brasil, Zé Alexandre Gomes, Nilton Júnior, Vitor Ramil e Pery Souza.

4 comentários em “O DUELO FINAL – por Jaime Vaz Brasil”

  1. Maria Augusta Xavier da Silveira diz:

    Maravilha, esse Jaime é supimpa. Adorei.

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