UM ESTRANHO ASCETISMO, por GILLES DELEUZE – TRADUÇÃO DE FRANCISCO TRAVERSO FUCHS

 

Um estranho ascetismo, por Gilles Deleuze

Tradução de Francisco Traverso Fuchs

Nietzsche sabia bem, por tê-lo vivido, o que constitui o mistério da vida de um filósofo. O filósofo apodera-se de virtudes ascéticas — humildade, pobreza, castidade — para fazê-las servir a fins inteiramente particulares, inauditos, muito pouco ascéticos na verdade.[1] Ele faz delas a expressão de sua singularidade. Elas não são para ele fins morais, nem meios religiosos para uma outra vida, mas antes os “efeitos” da própria filosofia. Pois não há, em absoluto, outra vida para o filósofo. Humildade, pobreza e castidade tornam-se, a partir de agora, os efeitos de uma vida particularmente rica e superabundante, potente o bastante para ter conquistado o pensamento e subordinado qualquer outro instinto — o que Spinoza chama de Natureza: uma vida que já não é vivida a partir da necessidade, em função de meios e de fins, mas a partir de uma produção, de uma produtividade, de uma potência, em função das causas e dos efeitos. Humildade, pobreza e castidade são a maneira característica do filósofo de ser um Grande Vivente, e de fazer de seu próprio corpo um templo para uma causa demasiadamente orgulhosa, rica e sensual. […] É nessa perspectiva que a solidão do filósofo ganha sentido. Pois ele não consegue integrar-se em nenhum meio, ele não serve para meio algum. Não há dúvida de que é nos meios democráticos e liberais que ele encontra as melhores condições de vida, ou melhor, de sobrevivência. Mas esses meios são, para ele, apenas a garantia de que os maus não poderão envenenar nem mutilar a vida, separando-a da potência de pensar que conduz um pouco mais longe do que aos fins de um Estado, de uma sociedade e de todo meio em geral. Em toda sociedade, mostrará Spinoza, trata-se de obedecer e nada mais: eis porque as noções de falta, de mérito e de demérito, de bem e de mal, são exclusivamente sociais, dizendo respeito à obediência e à desobediência. A melhor sociedade será, portanto, aquela que isenta a potência de pensar do dever de obedecer, e se abstém, em seu próprio interesse, de submetê-la à regra do Estado, que só vale para as ações. Enquanto o pensamento é livre, portanto vital, nada é comprometido; quando ele deixa de sê-lo, todas as outras opressões são possíveis, e já realizadas, qualquer ação torna-se culpável, e toda a vida, ameaçada. É certo que o filósofo encontra no Estado democrático e nos meios liberais as condições mais favoráveis. Mas em nenhum caso ele confunde seus fins com os fins de um Estado, nem com os propósitos de um meio, uma vez que solicita no pensamento forças que se furtam à obediência como à falta, e erige a imagem de uma vida para além do bem e do mal, rigorosa inocência sem mérito nem culpabilidade. O filósofo pode habitar diversos Estados, assombrar diversos meios, mas à maneira de um eremita, de uma sombra, viajante, locatário de pensões mobiliadas. Por isso não se deve imaginar Spinoza rompendo com um meio judeu supostamente fechado para entrar em meios liberais supostamente abertos, cristianismo liberal, cartesianismo, burguesia favorável aos irmãos de Witt… Pois, para onde quer que vá, ele não pede, ele não reivindica, com maior ou menor chance de sucesso, senão ser tolerado, ele mesmo e seus fins insólitos, e julga por essa tolerância o grau de democracia, o grau de verdade, que uma sociedade pode suportar, ou então, ao contrário, o perigo que ameaça todos os homens. […] É preciso compreender como um todo o método geométrico, a profissão de polir lentes e a vida de Spinoza. Pois Spinoza faz parte dos viventes-videntes. Ele mesmo diz que as demonstrações são os “olhos do espírito”.[2] Trata-se do terceiro olho, aquele que permite enxergar a vida para além das falsas aparências, das paixões e dos mortos. Para uma tal visão são necessárias as virtudes, humildade, pobreza, castidade, frugalidade, não mais como virtudes que mutilam a vida, mas como potências que a esposam e a penetram. Spinoza não acreditava na esperança e nem sequer na coragem; ele só acreditava na alegria e na visão. Ele deixava os outros viverem, desde que os outros o deixassem viver. Ele queria somente inspirar, despertar, fazer ver. A demonstração como terceiro olho não tem por objetivo comandar, e nem mesmo convencer, mas apenas fabricar a luneta ou polir a lente para essa visão livre inspirada. «No meu entender, vejam, os artistas, os sábios, os filósofos parecem muito ocupados em polir lentes. Tudo isso são vastos preparativos visando um acontecimento que não se produz jamais. Um dia a lente será perfeita; e nesse dia nós todos perceberemos claramente a assombrosa, a extraordinária beleza deste mundo…» (Henry Miller).

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DELEUZE, Gilles. Spinoza, Philosophie pratique. Paris, De Minuit, 1981 (1970), pp. 9-11/23-24. Tradução minha. Versão revisada da colagem de três trechos do primeiro capítulo que publiquei pela primeira vez em 13 de maio de 2004.

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Sobre o tradutor:

Francisco Traverso Fuchs formou-se em História pela UFF, é mestre em Filosofia pela UFRJ e atua como pesquisador independente. Em setembro de 2025 lançou o site ponto cinza, onde tem um blogue e está começando a reunir sua produção.

[1] Nietzsche, A genealogia da moral, III.

[2] Tratado teológico-político, cap. 13; Ética, V, 23, escólio.