METEOROLOGIA – por Henrique Miguel Carvalho

CIÊNCIA

da história
………………os círculos
tocaram de perto
………………..o que sou,
………………..em um apogeu

de profecia —
………………..alcançou-me
o futuro
……………..onde previsto
……………..eu era estar

ermo, na praia,
……………….frente
à bruma,
………………por sobre
………………o mar

— ainda o vi,
……………….onda breve
que se anunciara,
mas só
……………….nos olhámos
……………….de relance

as mãos
……………… abertas,
de par em par
— sabia
……………….o que o esperava,
……………….ciente

habitual
………………do que viria —
que eu partia,
………………por passos
………………de areia

longe, de novo,
………………a divagar,
por passos
de areia,
………………que a maré
………………há de apagar

— e os
……………..distraídos,
as mãos
……………..pendendo
……………..dos braços

absortos
…………….por saber
se o Sol,
…………….indução perfeita,
continuará
…………….a erguer-se
…………….de manhã

com se
…………….por hábito
adquirido
— que eu,
……………por minha sorte,
……………sigo, lateral

ao destino,
……………em dunas
varridas
de vento,
…………..alto, por sobre
…………..o tempo

vendo
…………..e revendo
o que é
…………..e de igual não é —
numa simultaneidade
…………..estranha,
convoluta,
de que falara
………….o filósofo
………….enlouquecido

e o que
………….soube
desaprendi,
………….pelo ser
………….impredicado

liberto
…………..de contingências,
e livre,
…………..finalmente,
…………..de certezas

♣♣♣

PARADEIRO

ergui-me,
………………..enquanto as
trevas
………………..se fragmentam
………………..amplamente

e as estrelas,
………………..ociosas,
escondem de azul
………………..o negro
………………..espanto

para buscar,
………………..alto anúncio,
por quem sabia
………………..querer poder
………………..encontrar

— fui primeiro,
………………..e perceber
que chegara
………………..tarde, ao café
………………..movimentado

que disseram
………………..que partiras,
de apenas
………………..ver-te sombra,
na cadeira
………………..recuada,
………………..vazia

— porque foges
………………..viandante,
à chegada?
………………..do primeiro
pão, sem fermento
………………..ajuntado
………………..à farinha

— a cidade
………………..montava
a sua sinfonia,
………………..oscilações
entre
………………..a tensão
………………..e o repouso

e percorri
………………..as ruas,
analisando
………………..nas faces
………………..desbotadas

em vão
………………..pela tua fisionomia
familiar,
………………..tal qual
………………..num espelho

vasculhei
………………..em cada
escada,
………………..em cada janela
trancada
………………..olhei, pasmado,
………………..o que não vi

saber
………………..não haver
chegado,
………………..o verbo solto,
………………..a palavra nada

— perguntei
………………..nas lojas,
de fotografia
na mão,
………………..se alguém
………………..te conhecia

mas não,
………………..apenas olhavam
e diziam-me
………………..— és tu,
………………..e eu ria

o impostor
………………..é que sabia,
que, quando
………………..eu entrava,
………………..ele partia

— repousei
no jardim,
………………..quando,
por entre choros
………………..de água,
………………..julguei ouvir-te rir

e, ao meio-dia
………………..azul vertido
amarelo,
………………..a claridade
………………..criou as condições
pelas quais
o dia nasce
………………..de forma
………………..repetida

em sombras
………………..que invertem
a sua direcção,
como tu,
………………..sem aviso
………………..ou previsão

— à tarde
………………..fui à biblioteca,
emboscando
………………..cada estante
………………..na surpresa

de te ver,
………………..transparente
como a luz
………………..a permear
………………..os vidros

sentei-me
………………..a ler aquele
poeta flanerista,
………………..que não sabe
………………..como se chama

e quase
………………..me lembrei
do teu nome,
espichado
………………..nas paredes
………………..e retractos

— coloquei
………………..um anúncio
no jornal,
………………..mas enganei-me
………………..na hora e no dia

que eu,
………………..cristão
………………..embriagado,
deixei a taça
………………..tombada,
………………..caída

— aproximou-se
………………..o crepúsculo,
quando
os candeeiros
………………..se acedem,
………………..ainda dia

no equívoco
………………..de uma madrugada
inversa,
………………..outra
………………..e desperta

— na fachada
………………..dos edifícios,
agora acesos,
………………..suspeitei
………………..ver a tua silhueta

falei sobre ti
………………..ao jantar,
mas ninguém
………………..pareceu
………………..prestar atenção

disseram-me
………………..que nunca
tinhas existido,
………………..que a tua presença
há muito
………………..deixou de ser
………………..notada

e o mundo
………………..girava na sua orbe,
indiferente
………………..ao labor
………………..do detective

— regressei
………………..cansado,
no quarto
………………..despi o fato,
preparando
………………..o adormecer,
………………..ciente

de sonhar-te
………………..sonho,
………………..que ao despertar,
eu sei, também
………………..acabarei
………………..por esquecer

♣♣♣

TELA

a chuva
………………..perturba
o céu, que cai,
………………..rente
………………..à janela

— entrava
………………..gente,
indiferente,
………………..de gabardine
………………..e jornal

azul, quase
………………..amarela,
a luz ecoa
na sala,
………………..a dividir o dia
………………..noutro dia

— a cidade
………………..surge a tons
de malva,
………………..sobre o vidro,
………………..reluzente

e eu aceno,
………………..de frente,
para a película
………………..húmida
………………..do mundo

e fico aguarela
………………..desse gesto,
orvalho
………………..perpétuo
………………..de mim mesmo

— o serviço
………………..anota o pedido,
repetido,
………………..ao balcão,
………………..por notas joviais

verto o café,
………………..quente,
de espuma espessa,
………………..que remexo,
………………..lentamente

e a colher, a tinir,
………………..percute
a melodia
do açúcar,
………………..em círculos,
………………..eternamente

♦♦♦

Henrique Miguel Carvalho nasce em 1970, em Lisboa. Os seus interesses, vida curiosa, vão da literatura à filosofia, passando pela ciência e pela matemática. Acha que a poesia, para ser levada a sério, actividade livre, não deve sê-lo. Gosta de fazer longas caminhadas pelo campo, onde vai à procura de inspiração.
henrique_mm_carvalho@yahoo.com