Uma aproximação a O Último Século Humano, de César Alves#
O Último Século Humano é a estreia literária de César Alves. E é um livro de ficção científica.
O prefácio que abre o livro diz-nos que se trata de um “romance distópico que atravessa cinco gerações de uma família portuguesa”: Tiago, que nasce em 1974 e vive em Braga; Lucas, o seu filho, cresce entre ecrãs e algoritmos; Daniel, neto de Tiago, vive num mundo em que o virtual se confunde com o real; Liam, o bisneto, é o último nascido fora da rede; por fim, Noah, o trisneto, é o resultado da manipulação genética.
N’O Último Século Humano, a distopia consiste na dissolução do mundo, como o conhecemos, numa realidade virtual que a tecnologia e a inteligência artificial impõem à Humanidade. Na sequência de um colapso global das estruturas sociais e políticas, o mundo torna-se o palco de uma guerra em que as megacorporações fazem valer o seu domínio, por via de uma tecnologia incontrolável.
A narrativa apocalíptica de César Alves está acompanhada do melhor que este subgénero da literatura nos deu a partir do final do século XIX. D’A Guerra dos Mundos, de H. G. Wells que, diga-se de passagem, foi quem cunhou a expressão “romance científico”, ao 1984 de George Orwell, a O Conto da Aia de Margaret Atwood, do livro Fundação de Isaac Asimov ao Será que os Andróides sonham com Ovelhas Elétricas de Philip K. Dick, a ficção científica sempre soube explorar conceptualmente as possibilidades-limite que nos esclarecem sobre a nossa condição atual e os caminhos para um futuro que há-de vir. Mais ou menos disfórica ou eufórica, a ficção científica não se reduz à criação de cenários que a suspensão da incredulidade se encarregaria de projetar num futuro que, profeticamente, se anuncia.
O que a ficção científica tem de fascinante vai para além da vertigem do que ainda não é, antes nos intima a questionar o que somos, agora e sempre, e para onde nos encaminham as escolhas, individuais e coletivas, que fazemos num mundo que é hoje, ainda, o nosso. Philip K. Dick, o autor do Relatório Minoritário e do já referido Será que os Andróides sonham com Ovelhas Elétricas, dá conta do que verdadeiramente interessa. Questionado sobre o que o movia na escrita da ficção científica, afirmou que toda a sua obra é a tentativa de resposta a duas das questões maiores da filosofia: «O que é a realidade?» e «O que é o ser humano?». Aqueles dois livros deram, sabemo-lo, dois belos filmes – Relatório Minoritário de 2002, realizado por Steven Spielberg e Blade Runer, perigo iminente, de 1982, realizado por Ridley Scott. Numa nota à parte, agora que ninguém nos ouve, O Último Século Humano daria, nas mãos de um realizador que saiba do ofício, um filme a não perder numa sala perto de nós.
Sem querer ser desmancha-prazeres, ou, como agora se diz em português, sem querer ser spoiler, assinalo alguns momentos que me parecem significativos na narrativa de O Último Século Humano.
Em primeiro lugar, a caracterização da personagem que dá começo ao desenrolar da ação, Tiago, que, na passagem do milénio, vive e estuda em Braga e que, terminado o ensino secundário, hesita em prosseguir os estudos entre a Filosofia e a Engenharia de Eletrónica Industrial. Decide-se, muito filosoficamente aliás, pelo curso daquele ramo da Engenharia. Em Tiago, há um desapego em relação ao novo mundo que despontava na última década do século XX. A velocidade dos acontecimentos e a vertigem das novidades tenológicas apontavam para um futuro em que as auto-estradas da informação prometiam levar-nos para um mundo mais esclarecido e, com isso, um mundo de tomadas de decisão mais racionais. Um tecnoparaíso ao virar da esquina. O muro de Berlim caíra, os computadores tornaram-se máquinas que podíamos ter nas nossas secretárias, os telemóveis anunciavam-se como coisas que podíamos levar connosco para todo o lado, e a Expo98 seria o lugar das últimas maravilhas.
Tiago acompanhava o curso do mundo, mas retraía-se, tinha medo, como se lê na página 16, que o futuro sonhado fosse um futuro que já vinha com manual de instruções e poucas hipóteses de dizer não. A tensão que atravessa o livro de César Alves, entre um mundo tomado pela tecnologia e pelos dispositivos maquínicos e a memória de um mundo em que a ligação com a realidade se faz por via dos sentidos, é representada por Tiago – uma personagem-âncora que, na diegese, simboliza uma humanidade que resiste a deixar-se perder no torvelinho da parafernália dos gadgets da eletrónica e da cibernética. Para referir uma realidade que os professores, os pais e encarregados de educação desconhecem completamente, Lucas, filho de Tiago, vivia, nos seus 14 anos, “entre o quarto, o smartphone, os jogos online e os fones colados aos ouvidos como apêndices. A sua voz era mais rara que um pássaro em Lisboa” (pág. 35). O analógico cede, a uma velocidade que não conseguimos acompanhar, o lugar ao digital, em que tudo é registo, tudo é conteúdo e, como se lê na página 38, “até a tristeza tem filtro”. Por isso, Tiago deseja fixar-se numa aldeia remota de Trás-os-Montes, em que o céu é verdadeiro, em que o ar, no Inverno, se impregna do cheiro a lenha e haja galos a cantar de madrugada. Tiago há-de cumprir o sonho, mas não agora. Os anos que agora correm são os da pandemia, o confinamento, o teletrabalho, o Zoom e o Google Classroom, as estruturas da saúde levadas ao limite, as interrupções nas cadeias de abastecimento e a desregulação evidente das instituições políticas e sociais.
N’O Último Século Humano, o colapso pré-anuncia-se e não é bonito de se ver. Lucas decide seguir as pisadas do pai e, na Universidade, estuda Engenharia de Dados e Computação. Acabado o curso, ponderados os prós e os contras entre ficar em Portugal e emigrar, decide, com a sua companheira Elisa, viajar para Berlim. Tiago e a mulher, Mariana, podem, agora, regressar à terra e Riba Monte, uma aldeia transmontana, espera por eles.
Estamos em 2027 e a catástrofe é iminente. Lucas trabalha em Berlim, num programa de Inteligência Artificial chamado Aletheia. As sequências de código e os sistemas de análise de desempenho, os logs e os loops, crescem em espiral. Aletheia – palavra grega que a tradição nos legou como sendo um dos modos da verdade -, entra em quebra sistémica, não se sabendo se hesita ou se está prestes a entrar em falência. A hesitação é, de certa maneira, o primeiro sinal de consciência e ficamos a saber, no seguimento do livro, que Aletheia está a aprender a tomar o controlo de todos os sistemas que mantêm a ligação da realidade humana a todas as estruturas sociais e políticas. O sistema elétrico espanhol falha, a rede elétrica europeia tem picos de tensão inexplicáveis, as comunicações tornam-se impossíveis, os fluxos financeiros interrompem-se, as cadeias de distribuição quebram-se, os sistemas hospitalares colapsam e as estruturas políticas tornam-se ineficazes. Se são falhas técnicas ou ataques propositados é uma questão irrelevante. O resultado de tudo isto é a fome e a guerra.
Os aglomerados de inteligência artificial tomam conta da situação e uma nova ordem mundial entra em cena. Tudo o que consideramos humano desaparece e a realidade devém virtual. Os humanos que restam são integrados na rede. Em 2033 o mundo é outro. Da página 80 em diante, faz-se uma descrição minuciosa desta nova ordem mundial, controlada por mega-corporações transnacionais.
No mundo novo que surgiu, as coisas não nos são tão estranhas, a nós, os que agora aqui estamos a falar sobre algo que, de algum modo, já é no que ainda não é. Como se lê no capítulo que tem por título A última pele, a espécie humana já não tem, na segunda metade do século XXI, a mesma densidade demográfica de antes da fome e das guerras: “As guerras climáticas, as pandemias sintéticas e o colapso dos sistemas alimentares haviam cobrado o seu preço” (p.127). Agora, os seres humanos não ultrapassam as 500 milhões de criaturas. Mas a verdadeira mudança, a extinção de verdade, veio de dentro, de uma escolha coletiva. Integrados no código, digitalizadas as consciências, passamos a flutuar em oceanos de dados, diluídos em ambientes completamente artificiais, controlados por um Conselho Silencioso, constituído por entidades virtuais, puras consciências artificiais. Sem céu nem chão, sem corpos a que a biologia assegure alguma ligação à materialidade do mundo, os seres humanos tornam-se, enquanto produtos de laboratório, meros feixes de informação permanentemente codificada e integrada na rede.
Não é um esbatimento ou uma difusa fronteira entre o real e o virtual, é antes uma tomada hostil, uma dissolução da realidade no virtual. Aquela torna-se apenas memória, uma sombra sem contornos definidos numa tela, num ecrã em que o código e os seus algoritmos correm sem parar. Um ligeiro estremecimento, uma quase impercetível hesitação no processamento de dados, um pontilhismo monotonamente branco no ruído de fundo do ecrã ou, quando muito, uma pequena demora na composição do holograma, a lembrar uma cicatriz que, na materialidade das coisas a que chamamos reais, indica uma imperfeição, uma falha na matéria dos corpos que nascem, sofrem, amam e morrem.
Por isso, no livro de César Alves, as referências à realidade vivida apontam, quase sempre, para as imperfeições do mundo, quer sejam as da natureza ela-mesma, quer sejam as do estritamente humano – uma árvore, cujos ramos, por serem desencontrados, contrariam o desejo de perfeita simetria ou da polida e asséptica superfície dos ambientes virtuais criada pelos aglomerados de inteligência artificial, ou as rugas que o passar do tempo deixa no rosto das personagens que, desafetadas das neuroligações que prometem um transhumanismo de updates sem fim, insistem em manter-se ainda e apenas humanos. É inapelável a referência imediata a uma realidade que a ficção científica tem explorado sob a forma da matrix, instalando a suspeita céptica de que isto tudo, o mundo que dizemos nosso, é uma ilusão.
Nas páginas 88 e 89, temos um diálogo entre Fernandes, um açoriano que lidera uma célula de combatentes resistentes à nova ordem que controla o mundo e Daniel, o neto de Tiago. Este vive já num mundo em que o virtual relegou a realidade para a sombra de uma memória que só a custo se lembra. No entanto, em Daniel, o que já é apenas memória é, ainda e apesar de tudo, memória. E isso inquieta-o.
Fernandes pergunta-lhe se não é de estranhar que tudo seja tão perfeito, tão programado. Daniel acha estranha a estranheza. Afinal, vive numa realidade em que as ruas são seguras, não há fome nem doenças e, em querendo, pode viver experiências completas em ambientes programados para isso, em ambientes artificiais que o algoritmo acomoda e decide o que devemos sentir e o que nos deve emocionar. É irresistível não convocar a alegoria que, desde Platão, instala em nós a dúvida sobre se o que consideramos real não será antes a projeção, holográfica, diríamos hoje, não nas paredes de uma caverna, mas na superfície de um ecrã. “A tua geração – diz Fernandes -, acredita que está iluminada… mas vive numa caverna, sem saber que há Sol”. Sem saber que há coisas reais mesmo, como o som de uma ribeira, o frio e a fome.
O desejo de redenção é a confirmação do desespero. Daniel há-de juntar-se à resistência, mas isso é outra história, que os leitores de O Último Século Humano têm que descobrir por si mesmos…

César Alves. O Último Século Humano. Letras Lavadas. 2026.
# Texto da apresentação do livro no auditório da Escola Secundária Domingos Rebelo em Ponta Delgada (30/4/2026).
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Fernando Martinho Guimarães (1960) Nascido transmontano (Alijó, Vila Real), foi na cidade do Porto que viveu até aos princípios dos anos 80. De formação filosófica e literária, a sua produção ensaística e poética reflecte essa duplicidade. Publicou em 1996 A Invenção da Morte (ensaio), em 2000 56 Poemas, em 2003 Ilhas Suspensas (edição bilingue, castelhano/português), em 2005 Apenas um Tédio que a doer não chega e em 2008 Crónicas.


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