A BBC ERROU? – por Francisco Traverso Fuchs

 

A BBC errou?

Nos primeiros dias de novembro de 2025 o jornal britânico The Telegraph revelou uma série de malfeitos jornalísticos praticados pela BBC (British Broadcasting Corporation). Um deles teve repercussão imediata. Em duas ocasiões diferentes, a BBC apresentou um discurso de Donald Trump de forma deliberadamente distorcida, fazendo-o dizer algo que não dissera. Pouca gente simpatiza com Donald Trump, sobretudo fora dos Estados Unidos, mas não é disso que se trata; simpatias ou preferências políticas devem ser esquecidas, ou ao menos postas entre parênteses, no momento em que se começa a discutir algo tão decisivo quanto a transformação de um gigantesco veículo de comunicação, supostamente imparcial, numa agência de propaganda.

A BBC errou? A pergunta pode causar um certo estranhamento, uma vez que a própria emissora britânica admitiu oficialmente o que ela mesma chamou de erro. Devemos, entretanto, tomar essa admissão de culpa pelo seu valor de face? Ou seriam as coisas um tanto mais complexas do que a BBC gostaria de nos fazer acreditar?

Relembremos, em primeiro lugar, alguns fatos. No programa Panorama exibido em 28 de outubro de 2024, uma semana antes das eleições americanas, a BBC editou o vídeo onde havia sido gravado um discurso de Trump proferido em 6 de janeiro de 2021. Ela escolheu um trecho desse discurso e juntou-o a outro trecho (proferido 54 minutos depois) sem deixar transparecer que houve uma edição; o resultado (a montagem ou edição) era (ou parecia) coerente e apresentava-se como um discurso contínuo. Arranjadas daquele modo, as palavras de Trump levaram os espectadores a concluir que ele havia incitado seus apoiadores a cometerem atos violentos. Isso não era verdade; se fosse, Trump teria sido processado em nível federal nos EUA por instigar uma rebelião.[1] Essa era apenas uma entre as várias denúncias contidas num memorando enviado à BBC por Michael Prescott, que foi conselheiro editorial independente da empresa durante aproximadamente três anos.[2] O jornal The Telegraph teve acesso a essa carta e tornou-a pública no dia 6 de novembro de 2025.[3] Em 9 de novembro, confrontados com a repercussão das revelações apresentadas nesse documento, o diretor-geral Tim Davie e a diretora executiva de jornalismo Deborah Turness pediram demissão da empresa.[4]

Como a BBC justificou esses fatos em seu pedido de desculpas? Em primeiro lugar, a emissora declarou que a impressão de continuidade e que o efeito de sentido obtidos pela adulteração do discurso de Trump foram produzidos “sem querer” (unintentionally).

During that sequence, we showed excerpts taken from different parts of the speech… However, we accept that our edit unintentionally created the impression that we were showing a single continuous section of the speech, rather than excerpts from different points in the speech, and that this gave the mistaken impression that President Trump had made a direct call for violent action.[5] (Grifo meu.)

Não sei como estão as coisas hoje em dia, mas antigamente as crianças eram ensinadas assim: quebrar o vaso é um erro mais do que perdoável, mas tentar livrar-se da responsabilidade pondo a culpa no gato é uma falta grave. No texto acima, a BBC assemelha-se à criança que atirou o vaso ao chão com toda a força e, não havendo gato para pôr a culpa, disse que foi “sem querer”.[6] Voltarei a esse ponto mais adiante, pois tenho motivos para acreditar que há, nessa desculpa pueril da emissora, algo além de um simples insulto à inteligência do público. De todo modo, ela tornou-se ainda mais insustentável quando veio à tona (no mesmo dia de sua publicação) uma segunda edição desse mesmo discurso de Trump, bastante semelhante à primeira, realizada no programa Newsnight de 9 de junho de 2022 e denunciada ao vivo durante a transmissão do programa.[7] Nada impede que uma criança desastrada quebre sem querer dois ou até mais vasos, mas é difícil acreditar que duas edições fabricadas do mesmo vídeo, praticamente idênticas e com idêntico efeito de sentido, são mera coincidência.

Ainda em seu pedido de desculpas a Donald Trump, e logo após o trecho citado, a emissora diz ter cometido um “erro de julgamento” (error of judgement). Os termos usados pela BBC são um exemplo daquilo que é chamado, na língua inglesa, de collocation: uma justaposição de palavras que soa natural aos falantes nativos. Error of judgement significa, basicamente, que a pessoa que o cometeu tomou uma decisão errada ou ruim.[8] Perguntei ao ChatGPT qual é o sentido dessa collocation e o robô destacou, como um “ponto importante”, que

diferentemente de ‘misconduct’, ‘negligence’ ou ‘wrongdoing’, error of judgement normalmente é usado para indicar que a pessoa agiu de boa-fé, mas errou na análise, não na intenção.

Boa-fé? Seria muito fácil contradizer a BBC dizendo que ela não cometeu um simples “erro de julgamento”, mas um erro moral, pois salta aos olhos que a falha em questão foi de natureza ética. Mas talvez seja precisamente isso que a própria emissora deseja: que o público raciocine desse modo e conclua que o alegado “erro de julgamento” foi, em realidade, um “erro moral” que a emissora, como sói acontecer nesse tipo de erro, teria relutância em admitir. O problema, porém, é justamente esse: a BBC não “errou”. Erros são, por definição, eventos episódicos. “Erra a mão” o chefe de cozinha que calcula mal a quantidade do tempero e prepara um prato salgado em excesso (erro de julgamento), erra o adolescente que, pela primeira vez, comete um furto (erro moral); mas um único erro como esses não basta para definir o caráter de um homem ou sua competência profissional. Assim, ao admitir um mero “erro”, por definição “pontual”, a BBC está, na verdade, buscando para si uma espécie de absolvição. Quem jamais errou?

É por isso que um político de esquerda como Ed Davey, que qualifica a BBC como precious (palavra que possui peso considerável na literatura inglesa), recorreu à retórica do “erro isolado num único programa”. Fazendo questão de ignorar os variados e recorrentes problemas apontados pelo relatório de Michael Prescott, e sem imaginar que um “segundo erro” (a edição anterior do mesmo discurso de Trump no programa Newsnight) estava prestes a ser revelado, Ed Davey acusou aquele que havia sofrido os ataques de “atacar” a emissora e disse que

they are seizing on a single mistake by one BBC programme as an excuse to undermine the whole organisation. We simply cannot let that happen.[9] (Grifo meu.)

Não houve um “erro”, ou mesmo dois. A BBC não “errou”. O que existe na BBC, de acordo com o relatório de Michael Prescott, é um viés editorial sistemático que vai muito além da edição (das duas edições) do discurso de Trump. Nada substitui a leitura direta desse documento, que elenca diversos problemas no tratamento das notícias veiculadas pela emissora; entre eles, vale destacar as denúncias relativas às reiteradas distorções na cobertura da guerra entre Israel e Hamas, seja pela BBC britânica, seja pelo serviço árabe da BBC, que ocupam 7 das 19 páginas do relatório.[10]

Mas a preocupação principal de Michael Prescott ao escrever sua carta para o Conselho da BBC era a atitude (ou a falta de atitude) da governança da empresa no sentido de corrigir os abusos. Ele chegará a dizer que, diante de “problemas sérios e sistêmicos”, a direção executiva da emissora havia se tornado ela mesma um problema sistêmico:

Indeed, I would argue that the Executive’s attitude when confronted with evidence of serious and systemic problems is now a systemic problem in itself – meaning the last recourse for action is the Board.[11]

Quais foram as consequências práticas do vazamento da carta de Prescott? Após a demissão do diretor-geral Tim Davie e da diretora executiva de jornalismo Deborah Turness, o diretor global de notícias Jonathan Munro assumiu interinamente o cargo de diretor-geral da BBC.[12] Bem antes disso, no entanto (em 12 de maio de 2025), Jonathan Munro afirmou que “não houve tentativa de enganar a audiência quanto ao conteúdo ou natureza do discurso de Trump antes da rebelião no Capitólio. Editar discursos em clipes curtos é uma prática normal”.[13] Munro também descartou ou minimizou os apontamentos de outro colaborador, David Grossman, a respeito da BBC Árabe, e justificou a predominância das narrativas do Hamas na emissora dizendo que elas “ajudariam a compreender o que palestinos na Cisjordânia e em Gaza podem estar ouvindo”.[14]

Como se pode ver, a dança das cadeiras na BBC, tal como está sendo conduzida, não induz a acreditar numa mudança do panorama; mas o discurso de seus executivos tampouco é animador. O próprio Presidente da BBC Samir Shah, cujas palavras sobre o “erro de julgamento” foram posteriormente transcritas no pedido oficial de desculpas, sabia desde janeiro de 2025 que a fala de Trump havia sido adulterada, porém nada fez a respeito e ainda tentou justificar, em sua carta de 10 de novembro, a manipulação realizada pelo programa Panorama. De acordo com Samir Shah, em janeiro de 2025, e novamente em maio do mesmo ano, o Comitê de Diretrizes e Padrões Editoriais (EGSC na sigla original) foi informado pela BBC News de que

o objetivo da edição do clipe era transmitir a mensagem do discurso do Presidente Trump para que o público do Panorama pudesse compreender melhor como foi recebido pelos apoiadores do Presidente Trump e o que estava acontecendo no local naquele momento.[15]

Que lições é possível tirar de todo esse embrulho? A imprensa deu bastante destaque à declaração de Michael Prescott quando este negou que a BBC seja “institucionalmente tendenciosa”, embora isso signifique apenas que ela não pode ser confundida com o Pravda ou o People’s Daily.[16] Em sua análise da carta de Samir Shah, Gordon Rayner, editor associado do The Telegraph, afirma que a BBC “não aprendeu nada com seus próprio erros”.[17] Posso estar enganado, mas duvido que a BBC deseje aprender alguma coisa. Acredito que o jornalismo enviesado, as justificativas pueris e as trocas de comando inócuas fazem parte de uma única e mesma cultura corporativa narcísica que não presta contas senão a quem pensa da mesma forma. As desculpas esfarrapadas não são, portanto, um simples insulto à inteligência do público, mas uma forma de zombaria e de gaslighting especialmente dirigida àqueles que ainda acreditam que as instituições atuais são guiadas por conceitos de épocas passadas como verdade, imparcialidade e razão. Nesse sentido, e embora finja crer nos valores mencionados, a BBC, como tantos outros meios de comunicação, pratica um jornalismo que eu chamaria de bárbaro porque tem dificuldade em dar ouvidos (e portanto dar voz) a quem não faz parte de sua tribo.

[1] How an edited Trump speech exposed BBC bias. The Telegraph (YouTube), 2025.11.03.
[2] Who is Michael Prescott, the man at the centre of the leaked BBC memo? Sky News, 2025.11.24.
[3] Exclusive: BBC doctored Trump speech, internal report reveals. The Telegraph, 2025.11.03. A carta de Michael Prescott ao Conselho Editorial da BBC foi publicada pelo jornal três dias depois: Revealed: The devastating memo that plunged the BBC into crisis. The Telegraph, 2025.11.06. O documento pode ser lido na íntegra aqui, aqui (links oficiais) ou aqui.
[4] BBC director general and News CEO resign over Trump documentary edit. BBC, 2025.11.09. Ver também: Tim Davie and Deborah Turness’s resignation letters in full – and the BBC response. Sky News, 2025.11.09.
[5] Panorama – Trump: A Second Chance? (Corrections and Clarifications). BBC, 2025.11.13. Uma captura desse documento pode ser encontrada aqui. Ver também: BBC chair’s letter to the Culture, Media and Sport Committee in full. BBC, 2025.11.10.
[6] A analogia, contudo, é imperfeita. Quebrar um vaso requer apenas um esbarrão, mas emendar dois trechos de vídeo (e de áudio) criando uma ilusão de perfeita continuidade requer um propósito e um trabalho de edição meticuloso.
[7] BBC Newsnight also doctored Trump speech. The Telegraph (YouTube), 2025.11.13.
[8]https://www.collinsdictionary.com/dictionary/english/error-of-judgment.
[9] The first step towards saving our precious BBC: remove Robbie Gibb from the board. The Guardian, 2025.11.10. Nesse artigo, Ed Davey subscreve a tese do “erro de julgamento” e pede a cabeça de Robbie Gibb, adversário político conservador que indicou Michael Prescott, o autor da denúncia, para o cargo: BBC pede desculpas a Trump, enquanto esquerda vê ação orquestrada da direita contra emissora. Folha de São Paulo, 2025.11.13. A julgar pela resposta que se pode ver nesta captura de tela, as opiniões de Ed Davey sobre Robbie Gibb tiveram bastante influência no treinamento da IA do Google. Ver também: Ed Davey urges British leaders to defend BBC against Trump. The London Economic, 2025.11.10.
[10] Michael Prescott letter to BBC Board, p. 12-18. Ver também: Natasha Hausdorff describes personal BBC experiences after anti-Israel bias revealed in leaked memo.
[11] Michael Prescott letter to BBC Board, p. 1.
[12] A informação não é oficial e, seja como for, o novo diretor-geral da empresa ainda não foi escolhido. Sobre o tema da sucessão, ver: ‘Not for the faint-hearted’: is running the BBC an impossible job? The Guardian, 2025.11.15.
[13] Michael Prescott letter to BBC Board, p. 3.
[14] Michael Prescott letter to BBC Board, pp. 13-14. O relatório de David Grossman ainda não veio a público.
[15] BBC chair’s letter to the Culture, Media and Sport Committee in full. BBC, 2025.11.10.
[16] BBC is not ‘institutionally biased’, says author of explosive memo. Reuters, 2025.11.25.
[17] The letter that shows the BBC has learnt nothing from its mistakes. The Telegraph, 2025.11.10.

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Francisco Traverso Fuchs formou-se em História pela UFF, é mestre em Filosofia pela UFRJ e atua como pesquisador independente. Compareceu, no fatiloquente ano de 1984, ao comício pelas ‘Diretas Já’ no Rio de Janeiro, mas hoje pergunta-se se não teria sido melhor votar nos ministros do Supremo Tribunal Federal.