APONTAMENTOS POUCO MELANCÓLICOS – por Fernando Martinho Guimarães

 

APONTAMENTOS POUCO MELANCÓLICOS

Os sintomas da melancolia são conhecidos. No Código Internacional de Doenças de 1993, documento da responsabilidade da OMS, elenca-se a concentração e atenção reduzidas, a falta de ânimo, a auto-estima reduzida, visões desoladas e pessimistas do futuro e o desejo de morte. Assim, a melancolia entra na lista das doenças a cuidar de tratamento, de terapêutica. A sua medicalização provocou a busca por “amortecedores de preocupações”, fármacos que dissipam os sintomas da melancolia e a sua dissolução entre os transtornos da alma, as psicoses maníaco-depressivas.

Da melancolia se pode dizer o mesmo que se diz da tristeza, que é uma lassidão da alma, uma fadiga negligente das atividades que o viver exige. A negatividade que é aqui o caso consiste na negação do mundo, uma repulsa ou aversão face ao desejo que nos leva a procurar atingir um objetivo, a completar as tarefas que o quotidiano impõe. Não admira que a melancolia, a acédia medieval, fizesse parte do catálogo dos pecados, a par da tristeza, (tristitia) e da cólera.

Hipócrates naturalizou a melancolia. Sendo um desajuste dos fluidos segregados pelos órgãos, uma húbris do baço em que a bílis negra se sobrepõe em demasia à bílis amarela, ao fleugma e ao sangue, a melancolia degrada-se e é colocada, à semelhança das outras doenças, como consequência dos fluidos e humores dos órgãos naturais.

O princípio é simples. Dando-se uma intensa produção da mente, dá-se uma diminuição das ações do corpo. A teoria dos vasos comunicantes traduz, precisamente, a exigência do equilíbrio entre os diferentes fluidos segregados pelos órgãos: o fígado, a bílis amarela, o baço, a bílis negra, o cérebro, o fleugma, e o coração, o sangue. A saúde, a eucrasia, e a doença, a discrasia, resultariam da oscilação da húbris, da desmesura, e da moira, dos limites que o destino impõe.

Joke J. Hermsen, filósofa dos Países Baixos, no seu livro Melancolia em Tempos de Perturbação, publicado em Portugal em 2022, percorre as diversas formas como a melancolia foi vista ao longo do tempo. De estado especial enquanto fonte de criatividade e de descoberta à condição depressiva a pedir tratamento médico, à melancolia atribui-se uma dualidade inultrapassável. Por um lado, na melancolia encontra-se um afastamento e clausura face ao mundo mas, simultaneamente, encontramos nela um regresso irreprimível à reflexão, um apelo irrecusável à solidão que o pensar sempre exige. Por isso, a melancolia se parece com a saudade, mas sem objecto ou, na linguagem freudiana, um luto sem perda que lhe corresponda.  Joke J. Hermsen, de maneira a ilustrar aquela ambiguidade dual, propõe a gravura de Dürer, Melancolia I, como metáfora da fractura própria da melan chole, que significa, literalmente, melancolia.

Albrecht Dürer, Melancolia I, 1514.

Na gravura de Dürer, estão todas as coisas que carregam o simbolismo associado à melancolia. A mulher alada, atenta e imersa nos seus pensamentos, aguarda que o deus do momento oportuno, Kairós,  se cruze com a presença do tempo e da sua inevitável transitoriedade, Cronos. O anjo melancólico, sentado ao lado de uma escada, simboliza, justamente, a inspiração que dará lugar ao nascimento de uma ideia que permita elevar o espírito e, assim, ascender platonicamente ao sol das ideias. A melancolia assume, portanto, uma dúplice dimensão: a inação contemplativa própria da natureza solitária, por um lado; e, por outro lado, a ação, a sabedoria criativa da justa medida, simbolizada pela balança, que pende por cima do anjo.

De maneira que a sorte histórica da melancolia tem o seu correspondente na melancolia ela-mesma. Se conheceu os favores que os deuses concederam aos possuídos pela inspiração criativa, também mereceu o favorecimento atento dos psiquiatras, atribuindo-lhe um lugar junto dos distúrbios maníaco-depressivos. Hoje, face à constante convocatória para a ação, por via do exercício físico e do desporto para todos e a toda a hora, assiste-se a um apagamento da melancolia. Se a teoria dos vasos comunicantes tiver razão, a um excesso de atividade física corresponderá um enfraquecimento da produção da mente, relegando, assim,  a melancolia para umas sessões de relaxamento num spa perto de nós.

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Fernando Martinho Guimarães (1960) Nascido transmontano (Alijó, Vila Real),  foi na cidade do Porto que viveu até aos princípios dos anos 80. De formação filosófica e literária, a sua produção ensaística e poética reflecte essa duplicidade. Publicou em 1996 A Invenção da Morte (ensaio), em 2000 56 Poemas, em 2003 Ilhas Suspensas (edição bilingue, castelhano/português), em 2005  Apenas um Tédio que a doer não chega e em 2008 Crónicas.