APONTAMENTOS POUCO MELANCÓLICOS
Os sintomas da melancolia são conhecidos. No Código Internacional de Doenças de 1993, documento da responsabilidade da OMS, elenca-se a concentração e atenção reduzidas, a falta de ânimo, a auto-estima reduzida, visões desoladas e pessimistas do futuro e o desejo de morte. Assim, a melancolia entra na lista das doenças a cuidar de tratamento, de terapêutica. A sua medicalização provocou a busca por “amortecedores de preocupações”, fármacos que dissipam os sintomas da melancolia e a sua dissolução entre os transtornos da alma, as psicoses maníaco-depressivas.
Da melancolia se pode dizer o mesmo que se diz da tristeza, que é uma lassidão da alma, uma fadiga negligente das atividades que o viver exige. A negatividade que é aqui o caso consiste na negação do mundo, uma repulsa ou aversão face ao desejo que nos leva a procurar atingir um objetivo, a completar as tarefas que o quotidiano impõe. Não admira que a melancolia, a acédia medieval, fizesse parte do catálogo dos pecados, a par da tristeza, (tristitia) e da cólera.
Hipócrates naturalizou a melancolia. Sendo um desajuste dos fluidos segregados pelos órgãos, uma húbris do baço em que a bílis negra se sobrepõe em demasia à bílis amarela, ao fleugma e ao sangue, a melancolia degrada-se e é colocada, à semelhança das outras doenças, como consequência dos fluidos e humores dos órgãos naturais.
O princípio é simples. Dando-se uma intensa produção da mente, dá-se uma diminuição das ações do corpo. A teoria dos vasos comunicantes traduz, precisamente, a exigência do equilíbrio entre os diferentes fluidos segregados pelos órgãos: o fígado, a bílis amarela, o baço, a bílis negra, o cérebro, o fleugma, e o coração, o sangue. A saúde, a eucrasia, e a doença, a discrasia, resultariam da oscilação da húbris, da desmesura, e da moira, dos limites que o destino impõe.
Joke J. Hermsen, filósofa dos Países Baixos, no seu livro Melancolia em Tempos de Perturbação, publicado em Portugal em 2022, percorre as diversas formas como a melancolia foi vista ao longo do tempo. De estado especial enquanto fonte de criatividade e de descoberta à condição depressiva a pedir tratamento médico, à melancolia atribui-se uma dualidade inultrapassável. Por um lado, na melancolia encontra-se um afastamento e clausura face ao mundo mas, simultaneamente, encontramos nela um regresso irreprimível à reflexão, um apelo irrecusável à solidão que o pensar sempre exige. Por isso, a melancolia se parece com a saudade, mas sem objecto ou, na linguagem freudiana, um luto sem perda que lhe corresponda. Joke J. Hermsen, de maneira a ilustrar aquela ambiguidade dual, propõe a gravura de Dürer, Melancolia I, como metáfora da fractura própria da melan chole, que significa, literalmente, melancolia.

Na gravura de Dürer, estão todas as coisas que carregam o simbolismo associado à melancolia. A mulher alada, atenta e imersa nos seus pensamentos, aguarda que o deus do momento oportuno, Kairós, se cruze com a presença do tempo e da sua inevitável transitoriedade, Cronos. O anjo melancólico, sentado ao lado de uma escada, simboliza, justamente, a inspiração que dará lugar ao nascimento de uma ideia que permita elevar o espírito e, assim, ascender platonicamente ao sol das ideias. A melancolia assume, portanto, uma dúplice dimensão: a inação contemplativa própria da natureza solitária, por um lado; e, por outro lado, a ação, a sabedoria criativa da justa medida, simbolizada pela balança, que pende por cima do anjo.
De maneira que a sorte histórica da melancolia tem o seu correspondente na melancolia ela-mesma. Se conheceu os favores que os deuses concederam aos possuídos pela inspiração criativa, também mereceu o favorecimento atento dos psiquiatras, atribuindo-lhe um lugar junto dos distúrbios maníaco-depressivos. Hoje, face à constante convocatória para a ação, por via do exercício físico e do desporto para todos e a toda a hora, assiste-se a um apagamento da melancolia. Se a teoria dos vasos comunicantes tiver razão, a um excesso de atividade física corresponderá um enfraquecimento da produção da mente, relegando, assim, a melancolia para umas sessões de relaxamento num spa perto de nós.
♦♦♦
Fernando Martinho Guimarães (1960) Nascido transmontano (Alijó, Vila Real), foi na cidade do Porto que viveu até aos princípios dos anos 80. De formação filosófica e literária, a sua produção ensaística e poética reflecte essa duplicidade. Publicou em 1996 A Invenção da Morte (ensaio), em 2000 56 Poemas, em 2003 Ilhas Suspensas (edição bilingue, castelhano/português), em 2005 Apenas um Tédio que a doer não chega e em 2008 Crónicas.


You must be logged in to post a comment.