
PAISAGEM
eu entre
……………..as árvores
e a sós,
……………..trilho à sombra
……………..buscado
pelo escutar
……………..o clamor
oculto,
……………..o rumor
……………..inaprendível
entre frondes
……………..e ramos,
no contraponto
……………..e fugas
……………..ao vento
e no aroma,
……………..húmido
de aspecto,
……………..que cobre
este lugar
……………..ermo a todas
……………..as coisas
— até que,
……………..ouro e inflamado,
o sol remove
……………..e seca
……………..a paisagem
em clareira
……………..visível
e inoportuna,
……………..rodeando
……………..a cerca
em volta
……………..ao mundo,
para marcar
……………..o lugar
onde a humanidade
……………..estranha
……………..habita
— e serei
……………..eu o atento?
observador
……………..do ofício
……………..de tais espaços
ou serei
……………..mãos e braços,
e pés?
……………..dúcteis,
recusando, de si,
……………..as mesmas
……………..pegadas
quando,
……………..ruídos e artificiais,
fragmentos
……………..de outro
……………..presente
convidam
à vida,
……………..outra distante,
da qual me escuso,
……………..por desejo
e omissão,
quase
……………..fauno
……………..transformado
— quem são
……………..aqueles?
cujas
palavras
……………..já não percebo,
……………..cujos gestos
desencontro,
……………..a espécie
insólita,
……………..que tem
……………..por caminho
a estrada
……………..— de quem?
aquelas mãos
……………..de novelo
……………..e crochet
em explicações
……………..acerca
do caso morto,
……………..nesse êxodo
……………..insensívelinsensível
às formas
……………..da luz,
ou às emoções
……………..nativas
……………..das folhas
— de quem?
……………..as faces
cujos sons
……………..assim
……………..trocados
se confundem
……………..com a espessura
das paredes,
e se extinguem,
postais
……………..de viagem
enegrecidos
de um tempo,
……………..por longínquo,
à mercê
das linhas
……………..particulares
……………..de certa geometria
— e retorno
……………..o olhar, numa dança
de bruços,
de regresso
……………..ao corpo
……………..das sombras
labirinto
……………..inacessível,
perdido
……………..de trilhos
……………..e trajectos
onde fetos
……………..e ervas,
floresta mínima,
crescem,
……………..à guarda
……………..das copas
majestáticas
……………..das alturas,
pelo odor verde
……………..da verdade,
……………..tolhido
na sintonia
……………..estática
dos insectos
……………..e vocais,
……………..as aves delirantes
OCASO
com a sua
……………..chave
de gumes,
……………..o dia fecha
……………..as portas
e fica
……………..do lado
de dentro
……………..de casa,
……………..ao canto, calado
— olhar
……………..de azul
pela janela,
……………..a ver
as árvores
……………..recolher
……………..à sua sombra
e a penumbra,
……………..por mão
secreta,
……………..colher
……………..nas flores a luz
em linhas
……………..que,
verso ou cor,
são aquela
……………..outra e antiga
……………..madrugada
em que
……………..o pudor
é tudo
……………..o que resta,
ou fica,
……………..do sentido
……………..máximo da visão
IMAGEM
— deixa-me
……………..sair,
ir embora
e não voltar,
……………..e destruindo
……………..as pontes ao passar
de regresso
……………..ao ponto
móvel
……………..da verdade,
a partir
do qual
……………..a intolerável
……………..espera começara
— recusa-te
……………..inteiro,
para que
te possas
……………..reconstruir
……………..ao comprido
sem as
……………..contingências
de uma terra
estranha,
……………..que não fala
……………..a tua língua
sob
……………..a paralisia
de um relógio
……………..sem ponteiros,
incongruente
……………..de espaço
……………..e tempo
para
……………..reaprender
o que sempre
……………..soubeste —
que no final
……………..és apenas
……………..tu e o espelho
exposto
……………..à imensidão
do provável,
……………..e à corrente
insinuante
……………..do mais leve,
……………..épico movimento
— por isso
……………..lembra-te
de quem foste,
quando ainda
……………..não eras
quem és,
……………..e talvez voltes
……………..a ser quem
serias
……………..quando,
por engano
……………..e inclemência,
deixaste
……………..de ser quem
……………..foras, ou querias
— reencontra-te
……………..instinto,
impermeável
……………..a qualquer
……………..argumento
preparado
……………..sem falhas,
ou a persuasivas
……………..prédicas
……………..morais
e rejubila-te
……………..certeza,
caminho
……………..trilhado fixo,
……………..lume na noite
da estrada,
……………..para além
de qualquer
……………..improntidão
……………..— e regressa
pelo teu pé
……………..a casa,
escapando
……………..ao dia do erro,
pela suprema
……………..liberdade
……………..do nada
depois
……………..de as pedras
haverem sido
lançadas,
……………..sem malas
……………..ou roupa
àquela
……………..superfície
cuja dureza
é menor
……………..que o comprimento
……………..da luz
♦♦♦

Henrique Miguel Carvalho nasce em 1970, em Lisboa. Os seus interesses, vida curiosa, vão da literatura à filosofia, passando pela ciência e pela matemática. Acha que a poesia, para ser levada a sério, actividade livre, não deve sê-lo. Gosta de fazer longas caminhadas pelo campo, onde vai à procura de inspiração.
henrique_mm_carvalho@yahoo.com


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