O INVISÍVEL E O ABSOLUTO EM GUERRA JUNQUEIRO – por Alexandre Teixeira Mendes

O INVISÍVEL E O ABSOLUTO EM GUERRA JUNQUEIRO

– Sobre a edição de Joaquim Domingues de Escritos Espirituais

JUNQUEIRO, GUERRA (2025) ENSAIOS ESPIRITUAIS.

Muitas são as razões que tornam compreensível a organização e edição por Joaquim Domingues de Guerra Junqueiro Ensaios Espirituais – Notas à margem de uma filosofia, 2025. Graças à compilação de escritos inéditos do autor da Velhice do Padre Eterno – que datam de 1890-1904 – e textos afins – mas congeminações esboçadas que são simultaneamente anotações provisórias ou imperfeitas – embrionárias – de significação (in) consistente – permitem-nos hoje apreender melhor o seu percurso metafísico-espiritual e em que o sagrado (“tremendum”) e o divino ou a mística – a ágape – afiguram-se como temas centrais – subjacentes – da sua doutrina. Será possível compreender a sua obra – especulativa a ajuntar à poesia e até ao fim da vida – como o corolário “plenificante” de um processo intelectual e interior (autocontraditório) – do tipo subjectivo-existencial ou procedimental heterodoxo? Parece-nos, portanto, que o seu ultravoltaireanismo ou o vítor-hugismo na sua juventude não é menos importante que o franciscanismo final vazada numa cosmovisão “orante”. Não pretendemos discutir aqui as influências culturais – como ponto de passagem – o ser-em ou estar-em – que se revestiram de carácter episódico ou ocasional e que lhe serviram de modelo para o pensamento e para a acção. A ideologia do progressismo modernizante ou conservador – republicano – liberal-democrático – não pode ser dissociado do panfletarismo discursivo-poético – arbitrário – benéfico ou maléfico – muito corrente no seu tempo – à altura da história e da imediatidade revolucionária – plásticamente presente nos seus versos – sendo necessário ou desejável questionar nessa conexão os leitmotiv – mas, antes, chamar a atenção para o discurso filosófico – em seus próprios termos – na convicção da centralidade de uma fé religiosa ou filosófica – da ética ou de um universalismo moral judaico-cristão – insistindo, por exemplo, no amor do próximo e da natureza e, portanto, na continuidade de uma atenção ao amor divino e gravitação em torno de Emanuel (que traduzido significa “Deus connosco” Mt. 1:23). Como quer que se descreva o vértice da síntese junqueiriana privilegiada – poetizada – une-se, outrossim, a um pendor religioso e espiritual – até aos seus últimos redutos – converte-se estruturalmente num hino querigmático (categórico-soteriológico) ou num dizer ou numa escrita paraclética (ver a introdução de J. Pinharanda Gomes “A Oração Cristo-Cósmica de Guerra Junqueiro”, in Guerra Junqueiro, Oração ao Pão. Oração à Luz (Lello ed., 1997). Mas na poética de Guerra Junqueiro – tão digna de substância metafísica – convivem (explicitamente) as retóricas radicais e as ideias contrárias e contraditórias. Na predileção das compulsões estético-literárias fundacionais ou consubstanciais ao anti-clericalismo – temático-epocal – cristalizadas em alguns dos seus poemas maiores – e inerente às definições doutrinais e outras fórmulas conceptuais ao modo de Renan e de toda a literatura francesa do século XIX – na paternidade das revoluções e da propaganda – mostra-se curiosamente – e se fortalece – na sua fase final – enquanto auto-exibição do absoluto – a cristologia.

Nas fronteiras da filosofia

Quem duvida – na sua essência e especificação – da propensão de Guerra Junqueiro – nunca cabalmente resolvida – entre a humanidade e a divindade? Sendo ser sua a convicção fundamental que a humanidade de Jesus foi uma humanidade perfeita, incorruptível, no sentido de que não foi plenamente semelhante à nossa natureza caída ou resultado da queda – lembremo-nos das teses de Sampaio Bruno -, salientando, portanto, a humanidade particular de Cristo? Partindo da “descrição” humana de Cristo e, por esse mesmo signo, do seu papel enquanto redentor, Guerra Junqueiro logrou mostrar a importância distintiva da espiritualidade cristológica ocidental. Poderemos dizer que os seus esboços filosóficos agora apresentados – do ponto de vista expressivo – mostram-se aleatórios – nas fronteiras da filosofia – da não filosofia na filosofia – como diria François Laruelle – distinguem-se – por tudo o mais – pelo simbolismo religioso dirigido à transcendência ou à emoção interior panteísta e pelo (re)pensar o carácter inescrutável da origem do mal que resumimos. O que o filósofo portuense Joaquim Domingues nos revelou é expressivo, no entanto as virtualidades dos seus fragmentos manuscritos – reunidos e longamente trabalhados e acompanhados de notas explicativas – são, contudo, na sua marca circular, inconsistentes, conquanto textos conjeturais ou especulativos sui generis ou contingentes, elípticos, na absorção de um evolucionismo mal assimilado, tematizado, mas tão somente onde os ditames intuitivos-cientificos nos revelam, portanto, uma doutrinação em que – no seu expressionismo ascético ou subtilizado – patenteiam uma explicitação interpretativa do universo (in)satisfatória – (com)possível?

Quimera, déficit

Na linha de uma reflexão filosófica – mais intimamente ligada ao fulcro teologal – de uma fé livre – em Cristo – num colóquio directo com Deus através da natureza – que deu a sua aquiescência – ou de uma mística – às vezes desconcertante e, muitas vezes, paradoxal, delineou o nosso poeta – há que reconhecer – uma religiosidade de tradição cultural cristã e já decididamente no vértice ou do gosto das antíteses e do cerne especulativo em torno da «unidade do ser». Sabe-se que o primeiro Guerra Junqueiro imbuído de militantismo cívico-político republicano e de um jacobinismo emancipalista procurou exorcizar ou reforçar o seu semblante profético, chegando a aprofundar, pelo estudo, os seus conhecimentos – vagos e (in)diferenciados – na área das ciências “positivas” ou naturais. Ora, já cedo o nosso poeta mostrava-se determinado em prosseguir a via da metafísica (ver o prefácio de Os Pobres, de Raul Brandão; a biografia «espiritual» de João de Deus, publicada no n.” 5 da Atlântida; o artigo sobre Antero de Quental inserto no In Memoriam). Resta acentuar que a prometida obra-ácume “A Unidade do Ser” – no seu passo decisivo ou pessoal – tão debatido – revelou-se em si um projeto inacabado e (im)possível – da qual andou continuamente empenhado – foi, efetivamente, uma “quimera”. A publicação destes escritos – e admitindo que encerram a psiqué do poeta e – neste horizonte – um vislumbre filosófico em torno da religião cosmo-crística – como já acentuámos – traduz um fracasso nos seus esforços e, nessa (sobre) determinação, um deficit de coerência predicativa ou analítica-sistémica – de que fazemos a sinopse – até por que nos mostra à saciedade fórmulas superlativas ou limiares num processus acidental de escrita – das subtilezas (in)vulgares? A obra, assim compreendida, na fragmentação generalizada – nas palavras-senha – isoláveis ou significativas – entrelaçamentos – que nos ajudam a apreender ou a pressupor que a grandeza da inquietação e da veracidade do signo junqueiriano – na ultrapassagem das contradições – está seriamente ou inexoravelmente na poesia e nos poemas – prefigurados visionariamente nas imagens ou justificado nos seus reptos retóricos – como assinalou nos finais dos anos de 1960 David Mourão Ferreira – e através da explicação tácita das grandes incógnitas metafísicas. E só a poesia-livre por excelência a sua singularidade profética.

Alexandre Teixeira Mendes
18 de Junho de 2025

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Alexandre Teixeira Mendes, (Refojos, Cabeceiras de Basto, 1959) – Estudou nas Universidades do Porto e Católica de Braga.  É autor de vários livros de poesia e ensaios de teor literário-poético e notações de encalço filosófico.  Foi jornalista e é membro da Society for Crypto-Judaic Studies e do Instituto de Filosofia Luso-Brasileira. Os seus trabalhos incidem sobre a poética e a filosofia portuguesa, o pathos da visão esotérica e do “enjeu” marrano português. No prelo encontra-se o livro  Do parco e do inexcedido – notações cripto philo sóficas (Edições Sem Nome) e um ensaio consagrado a António Telmo.