
Em memória de Eduardo Alves Ribeiro (1956-2025)
O justo, ainda que morra cedo, terá repouso. Velhice venerável não é longevidade, nem é medida pelo número de anos.
Liv. Sabedoria, 4: 7-8
Talvez um indivíduo deva considerar que a sua própria morte é o último fenómeno da natureza.
Stephen Crane
É comum no espaço onde me movo discutir a minha crença/fé a partir da religião judaico-cristã, onde fui educado, assumindo me mais cristão que católico, à maneira do tolerante e liberal J. J. Rousseau. Assim sendo, para que não restem dúvidas sobre o assunto que irei tratar, a vida e a morte que já desenvolvi no ensaio Breve é toda a vida. Para uma pedagogia da morte e do morrer (2021), começo com as belas palavras de Paulo, ainda em vida, mas com a morte no horizonte: “Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé. Desde agora, a coroa da justiça me está guardada, a qual o Senhor, justo juiz, me dará naquele dia; e não somente a mim, mas também a todos os que amarem a sua vinda”. 2 Timóteo, 4:7-8. Na Apologia de Sócrates, quando o mestre ateniense procura refutar as acusações de que é alvo, na sua demanda pela verdade e justiça já tinha afirmado, também, que tal compromisso resultava das ordens que tinha recebido do Deus. Portanto na excecionalidade de muitas personalidades, a evocação de um Deus, ou deuses, como supremo ordenador daquilo que é dado à existência, é algo que se repete com frequência. A troca de ideias mais viva surge sempre em torno das questões-limite, nomeadamente a morte e como o Criador, se for esse o termo adequado, parece ser cruel ao consentir que as crianças sofram e morram e que uma boa parte das mortes precoces, caso isso seja termo adequado, envolvam seres humanos realmente bons, daqueles que acrescentam luz à luz, que têm o dom de iluminar a escuridão.
Continuarei daqui para a frente, seguindo os grandes fundadores do cristianismo, a perscrutar o paradoxo sobre o qual se afirma a fé e a crença. Não sou teólogo e a dogmática desse conhecimento não me interessa muito. Sei que a crença, no meu caso, judaico-cristã, tem as suas regras e procedimentos fixados no Catecismo que serve para a fé como o Código Civil e o Código Penal servem para a organização da vida em comum. Não me parece que esse ente superior e ordenador de todo o Universo, Deus, seja uma entidade que se ocupe particularmente de cada um de nós. Sou mais adepto da teologia mais heterodoxa que fala de um Deus que olha para as criaturas no seu conjunto e a ser assim, também acredito que a salvação não é individual, mas coletiva. Não é o individuo, a Maria, a Joana, o Paulo, o João… que se salvam ou se condenam, é a Humanidade inteira composta por cada ente.
Confrontado agora cada vez mais com a morte e a indiferença de Deus pelos que lhes sobrevivem, porque lhes leva, como diz o povo, “os que mais ama”, e por cá também eram amados, tento olhar para a morte dos outros como se da minha se tratasse e não me custando a aceitar que “morrer é só não ser visto”, não posso relativizar essa ausência como se fosse do mesmo grau de outras tantas privações de familiares e amigos que passam anos e anos longe de nós e também não são vistos. Há uma diferença de grau: o distanciamento de um ente vivo a qualquer momento pode ser encurtado; a distância a um ente morto vigora para sempre. Assim sendo, acho que todos e cada um têm o direito de chorar e fazer o luto pelos mais próximos da forma que melhor lhes convier. A vivência da morte é um sentimento particular de emoção extrema e não pode ser marcado por regras e princípios exteriores porque as vivências interiores não têm paralelo com estas.
Os cemitérios de tipo europeu são lugares de acentuada hipocrisia e reduzido respeito pela individualidade de cada um. Há muito tempo que tenho essa ideia e nunca gostei de os visitar ou neles verter as minhas lágrimas. Ao longo da leitura da obra de Philip Roth, fiquei esclarecido. São locais onde abunda a dissimulação e o desrespeito pelos entes falecidos com as parangonas contidas nas lápides. Pais e mães adoradas, esposas e esposos extremosos, avós carinhosos, etc, etc, são, na generalidade, frases emotivas com reduzido sentimento. As várias páginas que este autor tem sobre o assunto são esclarecedoras e para vincar bem o seu menosprezo sobre o que vê inserido e aquilo que deveria estar, embora eu duvide que esteja em lado algum, dá em A operação Schyloch o exemplo de uma lápide onde um vulgar marido, John Dryden, manda grafar sobre a esposa falecida: “aqui jaz a minha mulher. Deixai-a jazer. Agora ela descansa em paz e eu também”. Com tamanha sinceridade vale a pena escrever e ler na pedra! Sei que tais apontamentos, naturalmente, não são desmerecedores de tantas outras frases emotivas e sentidas que por lá se leem! Acompanhando a lucidez de Roth, aquela ideia de que passaremos a eternidade uns com os outros que por cá atravessaram o tempo ou parte dele, não me convence. Era só o que faltava que milhões de seres que viveram e vivem mortificados e maltratados por uns e outros sem saber bem porquê, tivessem que passar a eternidade, ou seja o tempo todo, em tal companhia. Na verdade, nada fora daqui será igual ou parecido com o aqui e agora. Isso para mim é quase certo.
Assim sendo, os acontecimentos que me têm angustiado com a morte de amigos próximos, conjuntamente com a minha fé, mesmo que se afirme de forma heterodoxa, obrigaram-me, agora, a desenvolver a minha preocupação com a morte e o morrer recorrendo a um autor há pouco analisado nas páginas desta publicação (cf. Giovanni Papini, 0 homem infinito, nº 28, junho 2024, da autoria de José António Barreiros). Para apoiar a aceitação da morte dos realmente melhores, reli o ensaio O diabo (1953) na senda da interpretação do cristianismo sob o olhar daqueles e daquelas que sendo crentes profundos, nunca o foram sempre. Trilharam um caminho de dúvidas e contradições sobre a fé, mas o mais importante é que as suas conversões nunca puseram de parte aquilo que tinham sido e como esse passado continuou estruturante naquilo que decidiram ser quando abraçaram a fé. Todos e todas que assim procederam têm de facto em duas figuras centrais do cristianismo exemplos vivos: S. Paulo e Sto Agostinho. Ambos com percursos de vida conturbados, nunca renegando o passado, mas em idades já avançadas com apontamentos pouco cristãos sobre as mulheres: Paulo sobre todas, Agostinho mais em torno das vantagens e desvantagens de viver maritalmente.
Entendo o cristianismo como uma religião da vida e não da morte e julgo que a Igreja e as Igrejas se estabeleceram sob o signo do temor e tremor tão bem analisado pelo crente e filósofo dinamarquês Kierkegaard, mas contrariamente a ele, não se me afigura que nós, os existentes, estejamos impregnados de espinhos na carne. Essa realidade não é natural nem resulta da afirmação da crença nem da fé, mas apenas e só de uma das maiores manipulações a que as Igrejas instituídas deitaram mão durante séculos: o medo e o pecado. Aos cristãos ou religiosos de qualquer credo, a que se juntam todas as pessoas de uma bondade extrema e ações irrepreensíveis sem apego a qualquer religião, compete agir com princípios altruístas, sem juízos prévios nem consequentes. A bondade é um atributo de todos e todas que a praticam, sem distinção de raça, sexo, religião ou condição social.
Fiquei impressionado com a tese que Papini defende em O Diabo partindo da ideia de que Deus nada pode na terra porque deu este reino ao seu anjo maior, o Diabo, como é patente no diálogo das tentações de Jesus no Deserto: “Tudo isto te darei se, prostrado, me adorares” cf. Lucas, 4: 1-13. O isto é a Terra toda, e se o Diabo a podia dar era porque lhe pertencia. Desde essa distante primeira leitura concordo com Papini: a existência é uma luta permanente entre o bem e o mal, uma caminhada que exige de cada ente uma atenção redobrada entre o que é, e aquilo que parece ser. Também sei, como ele sabia, que esta não é a ideia do Antigo Testamento, semelhante a quase todas as teorias criacionistas, onde de facto, a criação aparece como ato exclusivamente divino. Em Génesis, 18: 20-32, é exposto o diálogo entre Abraão e Javé em torno da destruição de Sodoma e Gomorra: “Vais realmente exterminar o justo com o ímpio?” pergunta Abraão. E porque por ali os justos parece que não abundavam, Abraão tentou de tudo para que Javé poupasse os entes pecadores por reconhecimento nem que fosse a um número reduzido de gente realmente boa, tendo Javé respondido: “Por causa de dez, não a destruiria”. Mas não haveria porque a cidade não terá sido poupada.
Para Papini a vida, tal como se apresenta e na qual cada um de nós individual e coletivamente participa, é modelada pelo pecado, logo pelo Diabo: “Sem um elemento de orgulho, algumas vezes admitido e confessado, não existiriam nem poetas, nem artistas, nem filósofos, nem grandes chefes de povos, nem heróis. O que se chama o ‘amor próprio’, o ‘justo sentimento do próprio valor’, não é senão uma forma – seja embora atenuada e enobrecida – do antigo orgulho, do pecado de soberba”. Acrescentando ainda à vaidade pessoal a necessidade do desejo sexual e da lascívia: “sem o estímulo da ‘líbido’, da concupiscência carnal interromper-se-ia o desabrochar de almas sobre a terra: sem um mínimo de luxúria não nasceriam as virgens, nem tão pouco os santos”. As coisas não são brancas ou negras, puras ou impuras: são uma mistura de opostos e compete a cada um integrar e não separar, apreender e não rejeitar. Tudo que o catecismo e as religiões referem como pecado, a ira, a avareza, a lascívia, a preguiça, o amor próprio, a vontade de domínio, os vícios privados, todos eles, são entendidos por Papini como estados necessários ao progresso e à melhoria da humanidade que para ser boa, tem de saber integrar o mal de que também é constituída: “Certos pecados contribuem para a conservação da espécie humana. A verdadeira malícia do Diabo consiste, mais que em sugerir os pecados, em querer agigantá-los, em incitar aos excessos”.
Papini acredita que se o homem não fosse tentado, se a sua natureza insensível e a sua imaginação prodigiosa não estivessem em combate constante com as tentações, se não tivesse que derrotar as artimanhas do Diabo “jamais alcançaria mérito verdadeiro junto de Deus, que elege, justamente, os vitoriosos e não os medíocres.” Desta forma fica claro que a salvação depende sempre do contributo do Diabo porque compete aos existentes, resistir às suas tentações. Superá-las, não lhes obedecer, traz o mérito à redenção que se procura: “As artes e as armas de Satã são, pois, instrumentos que, contra a sua vontade, levam à salvação; instrumentos cruéis mas, em certos casos, imprescindíveis. Satã, com o seu ódio tenaz, povoa o Inferno, mas ao mesmo tempo também o paraíso”. A santidade depende desta luta e sem a vitória sobre o mal ela nunca acontecerá: “Satã é o Adversário, mas sem o Adversário não haveria batalha, e sem batalha não haveria vitória nem glória”.
Tem razão o poeta José Régio quando escreve que, indistintamente, “Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém!”, a que poderia acrescentar Papini: “Quem quisesse tirar ao Demónio a sua justa parte, tiraria qualquer coisa também a Deus. O Diabo é ódio, mas o seu ódio – e eis aqui um dos dramáticos paradoxos do Cristianismo – é necessário ao triunfo do Amor”. O amor é uma força agregadora de polos opostos: une o diverso e dá-lhe sentido: não exclui, complementa.
Papini é eloquente: “O homem, sem mesmo ter em conta a queda de Adão, tem uma certa índole, uma certa lei de conduta que não podem ser obra de Satã” porque este é um destruidor e não um Deus. O Diabo corrompeu o homem mas não o planeou nem o compôs com as suas mãos: “Os sentidos e os órgãos do homem não foram fabricados pelo Diabo; há qualquer coisa que nos pertence, que está no nosso cerne e que nem sempre é estranha aos desvios do pecado”. Na exposição dos seus argumentos entende, ainda, que o corpo humano, carnal, com os desejos que tanto nos excitam e nos arrebatam, não são criação de Satã: “Ele tira disso proveito, mas não poderia tirar se a matéria de que somos feitos se mantivesse mais sã e resistente, se a nossa vontade fosse mais vigilante e aguerrida. Aquele que endossa responsabilidade de todos os pecados ao Demónio, faz deste – embora sem que o saiba – um ser omnipotente, isto é, um outro Deus”.
O ‘combate espiritual’ é, portanto, a nossa condição de existentes que deve ser assinalada, ao fim de cada dia e ao longo de cada perda irreversível, com a determinação e a persistência de nos sabermos reinventar. Algures Miguel Torga refere que “o destino destina, o resto é comigo” o que remete para a ideia grega de que tudo o que somos e fazemos depende desde sempre de um ente agregador que nos traça um fim e a maneira de lá chegar. Contudo, na perceção de Torga como na minha, não nos guia tanto quanto pensa a generalidade dos crentes, porque ao longo desse percurso de fim já marcado, vamos escolhendo livremente aquilo que mais nos convém. Uma canção de Ivan Lins intitulada Começar de novo, seja qual for o contexto em que foi composta, é suficientemente reveladora da nossa missão e da nossa condição. Oiçamos as palavras, juntemos-lhe a música e deixemo-nos embalar pela beleza do que fica daquele/as que partem, ao nascer e ao por do sol, com o aclarar da lua e com o minguar da mesma, enfim, num tempo de transição entre a beleza que consola o olhar e se alarga em melancolia:
Começar de novo
E contar comigo
Vai valer a pena
Ter amanhecido
Sem as tuas garras
Sempre tão seguras
Sem o teu fantasma
Sem tua moldura
Sem tuas escoras
Sem o teu domínio
Sem tuas esporas
Sem o teu fascínio
♦♦♦
Artur Manso, nasceu nos idos de 1964, pelo outono, ao cair das folhas, na aldeia transmontana de Izeda. Professor universitário que ao longo do tempo se tem dedicado à aprendizagem e ao ensino de pequenas coisas sob o signo da estética e da ética, do lugar que nos cabe no mundo e de como a beleza nos pode tranquilizar.


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