
1.7. Essa preferencialidade “do pensamento e da pátria” e do “movimento e da mátria” encontra-se na essência da sua obra. Temos aqui a vertente quitessencial do (proto) nacionalismo. Distancia-se e diferencia-se nessa fidelidade a Aristóteles – crença no sobrenatural – vínculo à teoresis e a praxis humanista – koinomía – teologia-poesia – espiritualismo nas suas diversas variantes. Nesse influxo (pre) existente – no pressupôr de uma reflexão do ser da verdade – da veritas – o sacramentum – no anelo da contemplação e, portanto, de uma cristologia ou, mais exactamente, de uma jesulogia – evocam-se os passos e as vias abertas do prosseguimento “cênico” de Jesus. Teremos então de concordar com Pinharanda Gomes quando ele nos diz que o “descobrimento” da palavra é o “achamento” de uma filosofia “comunidade” “nação” “respublica”. Se por um lado temos de anuir que a linguagem é um código que se estratifica – como ordem própria circundante – sintaxe, léxico e enunciação – estrutural- aqui indicada – da nomeação e da pronunciação que não cessa – , por outro lado, temos de atestar a transparência e a opacidade (presumida ou afirmada) do proto pensamento constitutivo situacional – no cerne de um (inter) discurso e de uma pátria – reconfigurada – espiritual – o viabilizar “patriótico” – é antes compreender que a linguagem não é um simples «instrumento» de comunicação. Indiquemos, suscitamente, o rastro de uma hermenêutica – a astúcia do historiador da filosofia portuguesa – pré – determinado – sujeito à compreensão participante – da possesão ou da não possesão da filogia e da semiótica (do grego antigo σημεῖον, « sinal », e λόγος, “palavra, discurso, estudo”). De facto,como veremos adiante, as obras fundamentais publicadas após 1964, no «tema» do pensamento português e da “filosofia portuguesa” podem servir como revelador para os diferentes questionamentos, a atenção positiva e incondicional e a empatia pela “Escola Portuense”, o empenho na desobstrução e na desocultação, o quadro da descrição da afirmação, o cultivo e a experiência “viva” do pensamento português (desde o seu existir pré-nacional até à contemporaneidade) cabal procura de sentido e de verdade. Remete-nos, no seu sentido distintivo às suas intervenções como publicista e como ensaísta – na sua unidade de juízos ou silogismos – e de uma forma bastante determinada. Esses vislumbres antecipadamente do aristotelismo-tomista permanecem limitados e, aliás, esboçados de maneira puramente teórica, no âmbito simplesmente do «tratamento» filosófico. Teremos de levar em conta sobretudo o seu auto-didactismo, análise tradicional e elucidação do singular. Existe uma lógica hermenêutica que se apoia na compreensão, anterior a qualquer lógica formal das proposições, e que a fundamenta. A compreensão é assim individualizadora e, na medida em que é confessional revela-se de forma actuante de acordo com o pensamento metafísico clássico e o substracto aristotélicco da filosofia portuguesa. A partir dos inícios de 60 e ao largo dos anos 70, J. Pinharanda Gomes descobre-se a si mesmo e a sua vocação, é o caminho de um autodidacta – que nas suas nota (aproxima) ções filosóficas e filológicas – ensaios cruciais plenos de erudição – valorizou precisamente a fenomenologia da cultura e a lógica da identidade (que tomamos por dado) inscrita nas formas – da recorrência e da mesmidade (in) cognoscível – do espírito? Procedendo, por conseguinte, a uma apropriação ou leitura metafísica do cânon português – na sua “tematização” (in) pensável – das grandezas conjugadas da filosofia das ideias – na sua contingência e descontinuidade cultural – buscou a exigência de um suplemento de sentido – fazer uma exposição crítica de uma história exaustiva da filosofia portuguesa na coexistência de três escolásticas (a cristã, a muçulmana e a hebraica). Tomemos, por exemplo, a pertinência da análise e a sublimidade ou o ímpeto conceptual – inquiridor próprio – circunscrito – da compreensão e síntese da teoria cultural – de uma dissecação e de uma análise contextual prévia – no vocabulário do método histórico-crítico (hermenêutica da letra, do sentido e do espírito) e da fenomenologia (fazer com que o ser, ou a coisa se revele) realizando a síntese existencial entre os postulados de Álvaro Ribeiro e de José Marinho. Contudo, Pinharanda Gomes está longe de ignorar os paradigmas teoréticos (sobre) determinados, (re) introduzindo e, portanto, os passos da teologia, a “ciência mor” especulativa. A faceta mística é aqui evidente ou a “conexão” mística orante – saudosa – e o (re) descobrimento do Deus do “ocultamento”. Não é, pois, de estranhar que nesse modelo orientador definido haja ampliado com invulgar lucidez a investigação panorâmica-fenomenológica do pensamento português. De facto, se retomarmos as etapas do caminho, que indicámos, descobriremos o peregrino na fé, reelaborando uma filosofia orante-mística, em companhia de outros irmãos carmelitas, tutti cumpetentes, a caminhada de discernimento e vocação filosófica-hermenêutica. O que é que se subtende pelo fulcro heterodoxo? Essa disposição eclesial – do pre-anunciar – “seguir a Jesus”? “Seguimento” e “discipulado” – “o fervor da caridade” – “ortopraxis”? Nessa configuração ou síntese “teológica” – do “con (di) senso”? De uma unidade literária – livros, escritos, (a) notações – na reivindicação idealista e hermenêutica-existencial – evangélica – ou até mesmo de um catolicismo (in) circunscrito – aura ou invólucro carmelita? Busca do (i) legível – (in) visível (ou seja, do próprio “templum”) – no vínculo entre a “visio comprehensionis” – do culto – e a “visio cognitionis” – da teologia? Continuar a ler “MEDITAÇÃO “ESCUTANTE” EM J. PINHARANDA GOMES (1939-2019) II (conclusão) – por Alexandre Teixeira Mendes”








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