MEDITAÇÃO “ESCUTANTE” EM J. PINHARANDA GOMES (1939-2019) II (conclusão) – por Alexandre Teixeira Mendes

1.7. Essa preferencialidade “do pensamento e da pátria” e do “movimento e da mátria” encontra-se na essência da sua obra. Temos aqui a vertente quitessencial do (proto) nacionalismo. Distancia-se e diferencia-se nessa fidelidade a Aristóteles – crença no sobrenatural – vínculo à teoresis e a praxis humanista – koinomía – teologia-poesia –  espiritualismo nas suas diversas variantes.  Nesse influxo  (pre) existente  – no pressupôr de uma reflexão do ser da verdade – da veritas – o sacramentum – no anelo da contemplação e, portanto, de uma cristologia ou, mais exactamente, de uma jesulogia  – evocam-se os passos e  as vias abertas do prosseguimento “cênico” de Jesus. Teremos então de concordar com Pinharanda Gomes quando ele nos diz que o “descobrimento” da palavra é o “achamento” de uma filosofia “comunidade” “nação” “respublica”. Se por um lado temos de anuir que a linguagem é um código que se estratifica – como ordem própria circundante –  sintaxe, léxico e enunciação –  estrutural-  aqui indicada – da nomeação e da pronunciação que não cessa – , por outro lado, temos de atestar a transparência e a opacidade (presumida ou afirmada) do proto pensamento constitutivo situacional – no cerne de um (inter) discurso e de uma pátria – reconfigurada – espiritual – o viabilizar “patriótico” – é antes compreender que a linguagem não é um simples «instrumento» de comunicação. Indiquemos, suscitamente, o rastro de uma  hermenêutica – a astúcia do historiador da filosofia portuguesa – pré – determinado – sujeito à compreensão participante – da possesão ou da não possesão da filogia e da semiótica (do grego antigo σημεῖον, « sinal », e λόγος, “palavra, discurso, estudo”). De facto,como veremos adiante, as obras fundamentais publicadas após 1964, no «tema» do pensamento português e da “filosofia portuguesa” podem servir como revelador para os diferentes questionamentos, a atenção positiva e incondicional e a empatia pela “Escola Portuense”, o empenho na desobstrução e na desocultação,  o quadro da descrição da afirmação, o cultivo e a experiência “viva” do pensamento português (desde o seu existir pré-nacional até à contemporaneidade) cabal procura de sentido e de verdade.  Remete-nos, no seu sentido distintivo  às suas intervenções como publicista e como ensaísta  – na sua unidade de juízos ou silogismos  –  e de uma forma bastante determinada.  Esses vislumbres antecipadamente do aristotelismo-tomista permanecem limitados e, aliás, esboçados de maneira puramente teórica, no âmbito simplesmente do «tratamento» filosófico. Teremos de levar em conta sobretudo o seu auto-didactismo,  análise tradicional e elucidação do singular. Existe uma lógica hermenêutica que se apoia na compreensão, anterior a qualquer lógica formal das proposições, e que a fundamenta. A compreensão é assim individualizadora e, na medida em que é confessional revela-se de forma actuante de acordo com o pensamento metafísico clássico e o substracto aristotélicco da filosofia portuguesa. A partir dos inícios de 60 e ao largo dos anos 70, J. Pinharanda Gomes descobre-se a si mesmo e a sua vocação, é o caminho de um autodidacta – que nas suas nota (aproxima) ções filosóficas e filológicas  – ensaios cruciais plenos de erudição – valorizou precisamente a fenomenologia da cultura e a lógica da identidade (que tomamos por dado) inscrita nas formas – da recorrência e da mesmidade (in) cognoscível – do espírito? Procedendo, por conseguinte, a uma apropriação ou leitura metafísica do cânon português –  na sua “tematização” (in) pensável – das grandezas conjugadas da filosofia das ideias – na sua contingência e descontinuidade cultural  – buscou a exigência de um suplemento de sentido – fazer uma exposição crítica de uma história exaustiva da filosofia portuguesa na coexistência de três escolásticas (a cristã, a muçulmana e a hebraica).  Tomemos, por exemplo, a pertinência da análise e a sublimidade ou o ímpeto conceptual – inquiridor próprio – circunscrito – da compreensão e síntese da teoria cultural  –  de uma dissecação e de uma análise contextual prévia – no vocabulário do método histórico-crítico (hermenêutica da letra, do sentido e do espírito) e da fenomenologia (fazer com que o ser, ou a coisa se revele) realizando a síntese existencial entre os postulados de Álvaro Ribeiro e de José Marinho.  Contudo, Pinharanda Gomes está longe de ignorar os paradigmas teoréticos (sobre) determinados, (re) introduzindo  e, portanto, os passos da teologia, a “ciência mor” especulativa. A faceta mística é aqui evidente ou a “conexão”  mística orante – saudosa  – e o (re) descobrimento do Deus do “ocultamento”. Não é, pois, de estranhar que nesse modelo orientador definido haja ampliado com invulgar lucidez a investigação panorâmica-fenomenológica do pensamento português. De facto, se retomarmos as etapas do caminho, que indicámos, descobriremos o peregrino na fé, reelaborando uma filosofia orante-mística, em companhia de outros irmãos carmelitas, tutti cumpetentes, a caminhada de discernimento e vocação filosófica-hermenêutica. O que é que se subtende pelo fulcro heterodoxo? Essa disposição eclesial  – do pre-anunciar –  “seguir a Jesus”? “Seguimento” e “discipulado”  – “o fervor da caridade” – “ortopraxis”? Nessa configuração ou síntese “teológica” – do “con (di) senso”?  De uma unidade literária – livros, escritos, (a) notações – na reivindicação idealista e hermenêutica-existencial – evangélica – ou até mesmo de um catolicismo  (in) circunscrito – aura ou invólucro carmelita? Busca do (i) legível – (in) visível (ou seja, do próprio “templum”) – no vínculo entre a “visio comprehensionis” – do culto –  e a “visio cognitionis” – da teologia? Continuar a ler “MEDITAÇÃO “ESCUTANTE” EM J. PINHARANDA GOMES (1939-2019) II (conclusão) – por Alexandre Teixeira Mendes”

MEDITAÇÃO “ESCUTANTE” EM J. PINHARANDA GOMES (1939-2019) I – por Alexandre Teixeira Mendes

Jesué Pinharanda Gomes no Centro de Estudos com o seu nome, em Sabugal (Foto CMS)

– trajectória mística carmelitana e aristotélica-tomista

“(…) não será esta a experiência essencial do pensamento como da escrita, a da meditação escutante (…) do seu dito e do seu não-dito (…)”

Fernando Belo, Heidegger pensador da terra, APF, Coimbra,1992, 32.

 «O Novo (Testamento) está oculto no Antigo, e no Novo o Antigo se torna patente»

Sto Agostinho, Quaestiones in Heptateucum, 2, 73, PL 34, 623.

1. Duas tendências se evidenciam muito cedo no percurso especulativo de J. Pinharanda Gomes (1939-2019) – a mística carmelitana e o aristotelismo-tomista – que (re) colocamos em discussão. Ora, a obra do nosso autor é, definitivamente, o exemplo maior da meditação “escutante”. Mas desde já devemos interrogar-nos sobre o exprimir teológico (“theologikos”) ou perguntar-nos acerca do “silogismo” teológico. Apraz-nos sublinhar – sumariamente – que a tradição metafísica portuguesa, como tantas vezes já foi dito, desenrolou-se fundamentalmente à sombra do “magistério” aristotélico-tomista. Torna-se claro, a partir dos primeiros enfoques literários-filosóficos de J. Pinharanda Gomes, numa espécie de criação isolada e testemunhal, a interpelação por uma muda vox Dei, sendo evidente a sintonia com o depositum fidei  – na reverência romano-católica –  sobre o pano de fundo da kenosis –  morte da cruz e encarnação. Já no relevo da mensagem e da tradição cristã –  e, por sua vez, do vínculo à filosofia moderna portuguesa – decididamente – na assimilação dos exemplos significativos da tradição da  “Escola Portuense” (a aliança de Bruno (José Pereira de Sampaio)  e da geração do 57 achar-se-á através do “mestrado” dos discípulos de Leonardo Coimbra. Também com um empenhamento público –  frutuoso – com o carmelitismo laico (V. Manual da Ordem Secular dos Carmelitas Descalços, Edições Carmelo, 1983).  Mas como interpolar num curto excurso o escritor eclesial, o filósofo e o hermeuta, na sua generalidade, aqui subentendido, o teólogo sob o signo da metanóia centrada no homem do VIII dia? E quem ignora esse seu pendor de doutrinário e de historiador-sistemático da filosofia portuguesa e entre essas duas vertentes primaciais: a consideração de um filosofar metafísico ou situado e o confluir ou desembocar numa teologia do mysterium crucis e de busca da “presença divina”? Apoiando-se, no sentido mais restrito e gradual, na filosofia bergsoniana – da apreensão do “vir-a-ser” de “Pensée et le Mouvant” – e mais sistematicamente ou persistentemente da influência da “Razão Animada” de Álvaro Ribeiro  – é muito significativo a este respeito o livro “Pensamento e Movimento (Prolegómenos a uma Filosofia Ascética)” (Lello & Irmão- Editores, Porto,1974) que trouxe à superfície a  problemática da principialidade da filosofia. A preocupação básica foi a de mostrar o nexo entre culto e cultura e do circuncrever, necessariamente, a “visio compreensionis” e a “visio cognitionis”? Um mês antes de falecer,  a 27 de Julho de 2019, J. Pinharanda Gomes lançou, na cidade do Porto,  o livro “Leonardina – Estudos acerca de Leonardino Coimbra” (Fundação Eng. António de Almeida, Porto, 2019) onde reuniu os seus escritos em torno do filósofo de “A Alegria, a Dor e a Graça”, com quem estava intimamente familiarizado. A filosofia do autor de Notas sobre a abstracção científica e o silogismo surge-nos caracterizada – como foi parcialmente sugerido, validamente, – por uma polaridade essencial ou duplicidade de dons –  coincide com o acráta  e o metafísico  –  o precursor do “existencialismo” cristão ou o formulador (no sentido distintivo do termo) do  “nocionismo”. Ainda mais apreciada é a centralidade da crítica e denúncia do positivismo que se abstrai sistemáticamente das consequências da cousificação e através da assunção do conceito de “vício cousista”. Relevo também e sobretudo para a vertente da “filosofia religiosa” assente fortemente – no entender de Sant`Anna Dionísio – num optismo levitante (Leonardo Coimbra, Pensamento e Drama, Lello & Irmão- Editores, Porto, 1983, pág.39). “A filosofia ciacionista – escreveu ainda Delfim Santos – não é só teoria e crítica do conhecimento, mas exigência de promoção valorativa do concreto, cujo mais alto nível é a pessoa” (Prefácio XII in O Criacionismo (Síntese Filosófica), Livraria Tavares Martins/Porto, 1958). Continuar a ler “MEDITAÇÃO “ESCUTANTE” EM J. PINHARANDA GOMES (1939-2019) I – por Alexandre Teixeira Mendes”

“EXCURSUS” E “GLOSAS” (NEO) PITAGÓRICAS – por Alexandre Teixeira Mendes

“EXCURSUS” E “GLOSAS” (NEO)PITAGÓRICAS

 – Trans (e) figuração e geometria secreta em António Telmo e Lima de Freitas

Pergunta – O que é a Ilha dos Bem-Aventurados?
Resposta – É o sol e é a lua.
P – O que é o Oráculo de Delfos?
R –  É a Tetractys.
P – O que é a Harmonia?
R – É o canto das Sereias.

François Millepierres, Pythagore, Fills D`Appollon, Gallimard, 1959, 119.

1.1. O pitagorismo de António Telmo (1927-2010) e Lima de Freitas (1927-1998) merecem bem uma meditação prolongada. Ora, precisamente o que surpreende – à luz da doutrina pitagórica – é a nobilíssima clarividência hermética de ambos e a (in) excedível valoração da mística e ocultismo do número e a proporção áurea. Supõe a liturgia algorítmica e a “golden ratio”. O nosso próprio interesse – proeminente – pela ciência «acroamática» ou esotérica provém, afinal, aparentemente ou rigorosamente falando, das reflexões-tipo sobre os conceitos-chave de transcendência e de realidade absoluta (que chamamos “o divino”). Quando comparamos, no conjunto, as reflexões pitagóricas de António Telmo e de Lima de Freitas, verificamos que ambos se referem à descoberta da estética da sectio aurea e que comentaram pormenorizadamente a década que é a natureza essencial de todo número – uma mónada de no mínimo 10. É interessante notar que Teofrasto – filósofo grego da escola peripatética que escreveu no século IV a.C. as “Doutrinas dos Filósofos da Natureza” (Phusikon Doxai) –  apresenta-nos uma ideia pitagórica bastante interessante – que o número ideal não está necessariamente sujeito a uma progressão sequencial ou causal de um a dez, mas é, antes, uma unidade com dez qualidades essenciais e potenciais, simultaneamente presentes na Década ou Tetraktys (eis porque pode representar, porventura, tanto uma unidade mínima quanto uma maximalidade em dez). Após ter posto em relevo, no início, as minúcias do hermetismo –  de que um dos aspectos primordiais é a kabbalah –  não é irrelevante a atenção –  (des) concertante  – sem alarde – destes nossos autores às “vias” de iluminação e realização espiritual do ser humano. Tratou-se, nos casos, ainda de um aprofundar dos estudos sobre a  kabbalah teórica (maasé bereshit) cujo alcance se estende desde a concepção do infinito até o mundo físico de coisas e acontecimentos que experimentamos como independentes e separados, passando pelas diferentes configurações da “divindade”, a “Árvore da Vida”, os mundos e seus habitantes, as almas humanas e seu destino, a semântica do alfabeto hebraico, e um longo etecetera. De facto, esse é o significado profundo da palavra kabbalah, que provêm da raiz hebraica, QBL, da qual deriva o verbo “lecabel”, receber. Kabbalah significa recepção. Não é assim surpreendente que, do acervo das ideias dos autores de “História Secreta de Portugal” (Vega, Lisboa, 1977) e de “Pintar o sete – Ensaios sobre Almada Negreiros, o pitagorismo e a gemetria sagrada” (INCM, Lisboa, 1990)  façam parte acentuada – desde o início –  os escritos da kabbalah (adcionando a quota-parte do conjunto das doutrinas esotéricas e místicas judaicas). É lícito, entretanto, mencionar o método de técnica oculta da kabbalah que professa a revelação central do sentido oculto do divino? Continuar a ler ““EXCURSUS” E “GLOSAS” (NEO) PITAGÓRICAS – por Alexandre Teixeira Mendes”

ANTÓNIO TELMO OU RAFAEL SANZIO E A PINTURA DO (IN) EXPLÍCITO – por Alexandre Teixeira Mendes

A filosofia e os seus nexos latentes e não – ditos

Rafael Sanzio

Hesitar-se-á em admitir a amplitude alusiva-metafórica, simbólico-mística ou supra-histórica de “A Escola de Atenas” de Rafael Sanzio (1483 – 1520)? Já que o afresco, tal como nós o conhecemos, não cessa de interdizer (nos) ou apresentar (nos) visual e pictoricamente uma actividade intelectual – sintomaticamente –  a filosofia. Como, pois, intérprete da alegoria – ou seja emerso nas “projecções” das práticas vivas dos filósofos reais – livres – persistindo em se conformar ao delineado significado – secular –  da “visio comprehensionis”?   Este fresco – de 440 x 770 cm – que ocupa uma das paredes do que foi a biblioteca e escritório do Papa Júlio II – actualmente a Câmara da Assinatura do Palácio do Vaticano – projecta (aparentemente) –  com a complexidade de uma geometria prevalente e (precisemo-lo também) de um simbolismo –  na confluência mitológica, histórica e alegórica. E sempre se há-de avaliar os correlativos da representação, é à sua maneira a doutrina definida – segundo Edgar Wind de Art and Anarchy – por Pico de la Mirandola como Concordantia Platonis et Aristotelis – ressoa – segundo as aparências e as maneiras de ver renascentistas  –  com registros distantes, mas convergentes: a imaginação matemática e a história da circulação de livros e a instrução em mesmidade (co-formação), a magia naturalis, as controvérsias literárias e a teoria dos intervalos musicais, a epigrafia e o fascínio (transcendente) pelos hieróglifos e emblemas, a doxografia antiga e a análise da ética aristotélica, as biografias de estudiosos humanistas e as concepções cosmológicas (juízos-prévios) no alvorecer coperniciano. Continuar a ler “ANTÓNIO TELMO OU RAFAEL SANZIO E A PINTURA DO (IN) EXPLÍCITO – por Alexandre Teixeira Mendes”

O INVISÍVEL E O ABSOLUTO EM GUERRA JUNQUEIRO – por Alexandre Teixeira Mendes

O INVISÍVEL E O ABSOLUTO EM GUERRA JUNQUEIRO

– Sobre a edição de Joaquim Domingues de Escritos Espirituais

JUNQUEIRO, GUERRA (2025) ENSAIOS ESPIRITUAIS.

Muitas são as razões que tornam compreensível a organização e edição por Joaquim Domingues de Guerra Junqueiro Ensaios Espirituais – Notas à margem de uma filosofia, 2025. Graças à compilação de escritos inéditos do autor da Velhice do Padre Eterno – que datam de 1890-1904 – e textos afins – mas congeminações esboçadas que são simultaneamente anotações provisórias ou imperfeitas – embrionárias – de significação (in) consistente – permitem-nos hoje apreender melhor o seu percurso metafísico-espiritual e em que o sagrado (“tremendum”) e o divino ou a mística – a ágape – afiguram-se como temas centrais – subjacentes – da sua doutrina. Será possível compreender a sua obra – especulativa a ajuntar à poesia e até ao fim da vida – como o corolário “plenificante” de um processo intelectual e interior (autocontraditório) – do tipo subjectivo-existencial ou procedimental heterodoxo? Parece-nos, portanto, que o seu ultravoltaireanismo ou o vítor-hugismo na sua juventude não é menos importante que o franciscanismo final vazada numa cosmovisão “orante”. Não pretendemos discutir aqui as influências culturais – como ponto de passagem – o ser-em ou estar-em – que se revestiram de carácter episódico ou ocasional e que lhe serviram de modelo para o pensamento e para a acção. A ideologia do progressismo modernizante ou conservador – republicano – liberal-democrático – não pode ser dissociado do panfletarismo discursivo-poético – arbitrário – benéfico ou maléfico – muito corrente no seu tempo – à altura da história e da imediatidade revolucionária – plásticamente presente nos seus versos – sendo necessário ou desejável questionar nessa conexão os leitmotiv – mas, antes, chamar a atenção para o discurso filosófico – em seus próprios termos – na convicção da centralidade de uma fé religiosa ou filosófica – da ética ou de um universalismo moral judaico-cristão – insistindo, por exemplo, no amor do próximo e da natureza e, portanto, na continuidade de uma atenção ao amor divino e gravitação em torno de Emanuel (que traduzido significa “Deus connosco” Mt. 1:23). Como quer que se descreva o vértice da síntese junqueiriana privilegiada – poetizada – une-se, outrossim, a um pendor religioso e espiritual – até aos seus últimos redutos – converte-se estruturalmente num hino querigmático (categórico-soteriológico) ou num dizer ou numa escrita paraclética (ver a introdução de J. Pinharanda Gomes “A Oração Cristo-Cósmica de Guerra Junqueiro”, in Guerra Junqueiro, Oração ao Pão. Oração à Luz (Lello ed., 1997). Mas na poética de Guerra Junqueiro – tão digna de substância metafísica – convivem (explicitamente) as retóricas radicais e as ideias contrárias e contraditórias. Na predileção das compulsões estético-literárias fundacionais ou consubstanciais ao anti-clericalismo – temático-epocal – cristalizadas em alguns dos seus poemas maiores – e inerente às definições doutrinais e outras fórmulas conceptuais ao modo de Renan e de toda a literatura francesa do século XIX – na paternidade das revoluções e da propaganda – mostra-se curiosamente – e se fortalece – na sua fase final – enquanto auto-exibição do absoluto – a cristologia. Continuar a ler “O INVISÍVEL E O ABSOLUTO EM GUERRA JUNQUEIRO – por Alexandre Teixeira Mendes”