DE BEM COM A (SUA) MÚSICA – por Danyel Guerra

NOTA PRÉVIA

Há décadas que a vida artística de Ângela Ro Ro pairava no perigeu, cada vez mais afastada do apogeu dos anos 80 e 90. Uma década atrás, ela ainda tentava superar a a fase de quarto minguante, buscando o usufruto de um novilúnio. Todavia, este mês de setembro, sua lua se precipitou na escuridão do eclipse total. No passado dia 8, a menina rebelde da MPB não resistiu a uma infecção pulmonar. Em eclipse perpétuo não ficará, todavia, o precioso reportório registrado ao longo de 46 anos de carreira. Esse patrimônio cultural da música brasileira
prosseguirá brilhando num perene plenilúnio. Ro Ro continuará aprontando, causando escândalo para alegria, alegria de milhões de fãs.

Angela Ro Ro

 

O sândalo perfuma o machado que o golpeia
                                                  Buda.

 

“Agora, finalmente, estou feliz da vida.” Vai para uma dúzia de anos disquei um nº de fone e do outro lado do fio escutei o afável alô de uma aloprada menina do Rio. Acendendo na fala um halo verde esperança, a mina trauteou Feliz da Vida. .“Pra que fugir de ser feliz da vida” Nesse ensejo, uma lua nova parecia estar despontando no seu firmamento artístico. O regresso ao plenilúnio dos anos 70 e 80 não seria uma ideia extravagante. O esplêndido talento de intérprete continuava vigoroso. Talento que sempre soube se aliar à exímia pulsão inventiva da compositora. Desde os alvores, esse binômio se mostrou ágil na proposta de uma praxis capaz de harmonizar numa fusão melódica a MPB com as simpatias e empatias pelo jazz e pelo blues.

Uma garantia Ângela Ro Ro fez questão de comunicar de forma categórica:“vou seguir em frente, continuando a ser um “peso pesado” da MPB”. Além de conservar afinada a peculiar voz, a cantora de Agito e Uso alegava manter a língua afiada, afeita a debochar de tudo e de todos, inclusive dela mesma.

Entretanto, a ilação mais alvissareira deste papo transoceânico foi esta. A intérprete de Meu benzinho queria manter-se fiel, enquanto performer, à vocação despertada ainda adolescente, escutando Maysa, Jacques Brel, Ella Fitzgerald e Elis Regina, à medida que aprimorava o toque nas teclas de um piano. 

Aprontar eu apronto…”

A cidadã Ângela Maria Diniz Gonsalves nasceu sagitariana vislumbrando o morro Dois Irmãos, cinco meses após o traumático Maracanaço.. Passados mais de  60 anos, qualquer que seja o desempenho futuro desta carioca insubmissa, ficará para sempre acesa a luz de uma verdade insofismável. Ela é uma das mais notáveis  porta-vozes  que a Música Popular Brasileira  viu alçar-se  no último meio século.

Para atestar a excelência dos dotes canoros da cantautora de Came  e case suficiente será referir que a revista Rolling Stone a considerou uma das grandes vozes do Brasil.

Filha da contracultura dos anos 60 , esta rebelde garota de Ipanema pousou nos palcos como o anjo torto do poeta tropicalista Torquato Neto, propenso a desafinar o coros dos contentes, armado de uma  picante ironia e de um sardônico sarcasmo. “Aprontar eu apronto. Coisa de criança, falar alto, contar piada, mexer com as pessoas, tomar porre. Mas fazer mal, só se for a mim mesma.”, garantiu no nossa falação telefônica.

Esse modo desassombrado, estabanado até, de ser e de estar de bem e de mau com a vida, na certa lhe custou azedos dissabores. A briga feia que encerrou seu caso romântico com Zizi Possi, alimentou a voracidade, por vezes sórdida, das parangonas sensacionalistas. Todavia, a cantora de Eu Desatino foi feliz no revide, através do álbum Escândalo (1981), cuja capa em formato de jornal, ostenta o título com letreiro de manchete. Para a satisfação ser completa, recebeu de presente o Escândalo, da lavra de Caê Velô, outro adorável agente provocador.

Gota de sangue com Bethânia

Outro entrevero a que os media tablóides concederam amplo espaço foi o bate-boca com Maria Bethânia, fecho com chave de lata de um oculto, mas sempre desmentido, caso desamoroso. Relação que, no estrito domínio da arte musical foi tingida com a tinta de uma reverente, porém, ambígua rivalidade. “Bethânia gravou antes minha Gota de Sangue. Era uma condição dela que fosse inédita. Logo depois saiu meu disco com essa música. Levei vantagem, porque alguém tocou melhor na minha versão.”, recorda com gotículas de acerba ironia.

Homossexual assumida, ícone lésbico do milieu musical, Ange nunca demonstrou azedume, quando os jornalistas indagavam, com malícia, “quem é a atual dona do seu coração?” ou “que número você calça?”. Reconhece ser uma pessoa “muito exposta, muito nua. Isso incomoda, isso perturba numa sociedade que não contempla o direito à diferença, que patrulha impiedosamente quem destoa do coro dos “virtuosos”, “civilizados”, “educadinhos”, “bem comportados”.

“Não sou do tipo de gente que fica medindo o que vai falar, o que vai dizer, o que vai ficar mal, o que não é de bom tom. Ser transparente incomoda. Eu não guardo rancor. Pra mim ‘tá tudo ótimo, faço o show, as pessoas vêm ver, ganho o meu dinheirinho e fica tudo em cima”.

Esta permanente predisposição para as lúcidas controvérsias só conheceu um intervalo na época do seu regresso de Londres, decorria o ano de 1974. “Voltei por causa do visto que não me davam. Eu já estava trabalhando clandestina há muito tempo. Eles vigiam todo o mundo, sabem a cor da cueca do seu pai aqui no Brasil. Cheguei tão londrina, ‘tava tão careta, falava baixinho, era comportadíssima, mamãe ficou encantada: “O que fizeram com ela, que maravilha, está tão educadinha…”, conta gargalhando divertida.

Transa com Velô

Três anos antes, Ângela tinha partido para a London, London, a fim de se juntar ao pessoal da Tropicália, exilado na Inglaterra. Foi Glauber Rocha quem a enturmou à patota.  “Encontrei Caê, Gil, Gal, [Jards] Macalé. Eu trazia sempre uma sacolinha  cheia daquelas coisinhas, flautinhas, gaitinhas, segura-bagana. Aí o Caetano me ouviu tocando gaita e me convidou para a faixa, Nostalgia, do disco Transa (1972).

Na volta ao Patropi, a londrina assumiu a decisão de transar numa boa a vida de artista musical, liberta de compromissos rígidos, de horários fixos. Ro Ro adorava cirandar de um lado para o outro numa errância estilo hippie. Contudo, a vertigem lisérgica do flower power parecia ter-se dissipado. A pátria amada estava submetida à repressão armada de uma ditadura militar censora e castradora.

De 1974 a 1978, Ângela aparecia, de vez em quando, numa peça ou num concerto. Varando as noites até à ressaca do dia seguinte, ela limitava-se a boêmias prestações como crooner amadora em bares e esparsas integrações em projetos de rock e blues. “Todavia, em 1978, eu já ‘tava pronta para  ralar a sério e compilar um pouco o meu trabalho. E acabou dando certo em 79, ano em que editei o disco nº1”.

Querer fortuna é querer demais

E continua dando. Embora os seus discos não sejam implacáveis campeões de vendas, a irrequieta cantautora se pode gabar da antológica contribuição para o acervo fonográfico brasileiro.

“Mesmo que tivesse feito concessões horrorosas não teria enricado. Mas, a vida me sorri. Com tanta sorte acho que querer fortuna é querer de mais”, filosofa.

Em 1990, a vida sorriu-lhe de novo sob a forma de um Prémio Sharp de Músia. Cobaias de Deus — composta em parceria com Cazuza para o seu (dele) duplo álbum Burguesia — foi a vencedora na categoria de Melhor Música Pop/Rock.

Amor, Meu Grande Amor, Tola Foi Você, Meu Mal É a Birita, Fogueira, Gota de Sangue, Agito e Uso, Simples Carinho, Mares de Espanha, Só nos Resta Viver são apenas algumas das incríveis jnvenções desta MPB woman, que tem em Prova de Amor um dos registros mais festejados.

Prova de Amor não é o meu disco preferido. É um disco bom, honesto, bem feito, bonito, porém… o que eu mais gosto é Simples Carinho. Este é o mais feliz desde a capa até a escolha do reportório.”. Assegura.

A predominância que a songwriter tem afirmado no seu percurso, não impede que algumas das suas melhores prestações tenham  se declarado em versões de  autorias alheias como Demais de Tom Jobim, Bárbara e Joana a Francesa de Chico Buarque  ou Fica Comigo Esta Noite, de Adelino Moreira.

Por falar em Moreira, há muito tempo que você não faz pingar na “terrinha” dele  as gotas plenas de hemácias de seu revolto sangue latino. Na resposta, a diva garante querer voltar a atuar nas latitudes lusitanas. “Em 1981, fui convidada do Carlos Cruz no programa Duplex. Me apresentei em Lisboa e nos ‘Algarves’. ”

Até pode acontecer que do roteiro dessa desejada digressão já façam parte as versões jazzísticas que se acolhem no seu caderno de projetos.

“A vontade que eu tenho é de fazer um trabalho maravilhoso, revisitando o jazz das décadas de 20, 30 e 40, com Cole Porter, George & Ira Gershwin, Duke Ellington. Garanto que as pessoas não sairiam ilesas deste show. Seria um acercamento à minha grande paixão, as big bands de Gene Krupa, Count Basie, Glenn Miller ou Dizzy Gillespie”, antecipa.

Só lhe resta sobreviver

 Doze anos depois desta entrevista, pacífico será reconhecer que além de não ter  alcançado um novo plenilúnio, sua lua está na fase quarto minguante, ameaçando mesmo um eclipse total. Esse “trabalho maravilhoso” do disco/show conceitual resta estagnado no bloco-notas. Desde 2013, apenas editou um álbum de originais, Selvagem (2017).  Nesse período, o único fato artisticamente memorável foi sua participação, em novembro de 2023, na celebração dos 50 anos do álbum Transa.

E 2025 tem-se mostrado, em demasia, severo, mesmo impiedoso, com a enfant  terrible da MPB. Um annus horribilis. Ange deparou-se com um drástico agravamento do já crônico défice financeiro. Declarou falência e voltou a suplicar publicamente por doações dos fãs. A intérprete de Compasso sofre atualmente os efeitos do descompasso da precária saúde. Após a queda na pindaíba, seguiu-se urgente hospitalização. Uma infecção pulmonar colocou a vida em perigo iminente.

Tem ela dramáticos motivos para planger: “a vida foi bela, agora só me resta sobreviver”. Vibremos para que lhe sobre energia vital para cantar o samba-canção de Paulo Vanzolini, sacuda a poeira e dê a volta por cima.

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Danyel Guerra (aka Dannj Guerra) nasceu no Rio de Janeiro, Brasil. Tem uma licenciatura em História pela FLUP. E tem-se dedicado ao estudo da História do Cinema. Após ter lecionado História no Ensino Secundário, transitou para o Jornalismo, trabalhando como repórter e redator efetivo (Carteira Profissional nº 803) nos diários Notícias da Tarde, Jornal de Notícias e Correio da Manhã. É o colaborador mais regular da Revista Athena.