REI E RAINHA DE UM CARNAVAL MICARETA por Danyel Guerra

Alain desenlaça, decidido, o amasso da frenética Romy. O que se passa, querido? Darling, o que passa daqui a uns segundos é o bus dos 33 minutos, não posso perdê-lo…! Ele ajusta, no orifício certo, a fivela prateada do cinto, selando a separação com um beijo fugaz nos lábios carmesins da garota. E sai disparado rua afora…senão vou tomar um chá de cadeira de meia-hora, completa aconchegando o cachecol black  & white ao pescoço e estugando a passada. E com apenas 33 segundos de atraso, um 33 se detém perante o solitário e ansioso passageiro.

Ele acomoda-se num banco da retaguarda. Nas imediações se senta um casal com seu menino, que não terá mais do que 3×3 anos. No mínimo pitoresco é o detalhe de, tanto o pai como o guri, exibirem brincos idênticos na orelha esquerda. Em compensação, a esposa e mãe tem as orelhas despojadas de qualquer adorno desse jaez.

Cena fotografada, retira do bolso de trás da jeans um exemplar de ‘lluminations/Une Saison en Enfer’, de Arthur Rimbaud. Presente de Romy nos seus 33 anos de idade. E folheia até à p.33. “Mes amis, je veux qu’elle soit reine!” brada um homem soberbo. “Je veux être reine!”,confirma aquiescente uma mulher orgulhosa. Ofuscado por tão vulgar “realeza”, ele fecha o book e se apercebe que no último banco viajam agora três passageiros tão joviais como buliçosos.

Dois rapazes de porte galante disputam a atenção – e os favores- de uma moça loura, de eslava aparência, vistosa, apetecível, maliciosa q.b., postada horacianamente ao meio. Do ponto de vista estético, sua mais notória evidência será a silhueta longilínea de uma slim girl anoréxica que veste manequim 33. As pernas, para lá de exageradamente aaallltas, são o pormaior que belisca a estupefata atenção do observador.

Além da atração pela mina, em comum os mancebos aparentam não ter mais nada. Um deles blasona ares de falastrão e bufão. O outro não dissimula estar possuído por uma languidez romântica, patologicamente ingênua. Não hesito em apostar que ambos se imaginam deitando e rolando com a inexpugnável favorita no esplendor da grama do jardim das delícias. De modo exclusivo, sem misturas, note-se. Ela, que depressa intui ser tão esperta quanto volúvel, esnoba as cantadas, grávida de sobranceira superioridade. Pudera. A seu lado, os meninos, calçando 33, têm a envergadura de raquíticos nanicos.

Um tanto enfadado pelas felações, perdão, pelas falações do triângulo, volta a folhear o retângulo e para na p. 133. Seu olhar ilumina o poema ‘Noite do Inferno’. “Engoli uma notável poção de veneno – três vezes seja bendita esta riquíssima ideia – as entranhas ardem-me.”

A travagem ríspida do bus desvia seus olhos desse ritual ardente e letal. Os três jovens descem na parada junto à ponte sobre o rio que vem de longe e Alain decide segui-los.

Sem demora, interpela o Arlequim, a Colombina e o Pierrot. Onde é que vocês vão assim fantasiados? Ora, vamos a um baile de Carnaval, responde um solícito Pierrot. Mas o Carnaval já se foi. Estamos em plena Quaresma. O relógio de vocês deve estar atrasado, contraria. Não, o seu é que deve andar adiantado, replica um veemente Arlequim. E enquanto atira uma mão cheia de confetes sobre o indiscreto, uma categórica Colombina decreta. É Carnaval sempre que um homem e uma mulher quiserem. Nem que seja no dia 30 de fevereiro. Divirta-se!

Segregado com os requintes de uma irônica insolência, o decreto da aaaallllltiva “pombinha” é entendido por Alain como um alarde de nonsense tão afeito às partidas e trotes dos folguedos momescos*. Ela só pode estar de gozação comigo, comenta, ao mesmo tempo que confirma ser dia 15, idos de março, consultando o relógio que encima o prédio do Banco de Forros e Aforros.

Ao longe, o sino da igreja matriz faz ressoar a chegada da primeira hora da madrugada. Cenário forrado de um espesso nevoeiro, a cidade, que o imigrante adotou há menos de um ano, não dorme, sentindo evolar-se no ar álgido um aroma muito peculiar. Caminhante solitário, em busca de um quente aconchego, Alain puxa até ao cimo o ziper do blusão negro e aproxima-se do quartel dos bombeiros voluntariosos. Inquieta-se ao escutar um clamorosa vozearia, captando a azáfama de dezenas, de centenas de pessoas que entram e saem, entram mais que saem. Tanta gente, será que pintou alguma emergência?, questiona.

Nãão, não, nada disso, é um evento de solidariedade a favor dos bombeiros. Estamos pedindo a contribuição da comunidade para a compra de um carro de combate aos fogos de artifício e desperdício do verão, esclarece um soldado da paz (desculpem o lugar comum!) que passa por ele. Muito bem, e quanto custa o ingresso? Apenas cinco extintores.

Alain concorda, paga e entra lépido no salão. Não consegue suster a ansiedade que o atravessa. Tem de extinguir, num átimo, aquela curiosidade tão apanágio dos trintões com resquícios de adolescência. Caramba, a festa está pegando fogo, sorte que estamos num quartel de bombeiros.

Essa ebulição lhe sugere uma vontade indômita de beber. Tenho de engolir uma notável poção de…., determina, aproximando-se do bar.

Sirva-me, por favor, 33 cl de cerveja. Mas não quero a lourinha estupidamente gelada, pede, encostado ao balcão. Cearense de Aracati, o barman entende o pedido e serve uma Super Bobocka, no capricho. Que muvuca, amizade! A sala está apinhada. Seria um baile de Carnaval se ele já não tivesse passado, entusiasma-se. Sim, companheiro, até é um baile carnavalesco, o baile da pinhata. Pinhata? Sim, sim, é parecido com os bailes da micareta lá do Brasil, compara o empregado, tisnado pelo sol de Canoa Quebrada.

“Quanto riso, oh quanta alegria…”, cantaria o Zé Kéti se aqui estivesse, usando sua Máscara Negra. Metros e metros de serpentina riscam, frenéticas, o firmamento do recinto. Gotas e gotas de confetes são lançadas nos corpos empolgados das folionas e dos foliões. As três da madrugada, quase nada, chega ofegante e o salão já joga gente pelo ladrão.

Junto ao bar, bebericando mais 33 cl de cerveja, Alain volta seu olhar para um par que dança agarradinho, como se estivesse colado com Araldit. O cavalheiro veste garboso a fantasia do justiceiro Zorro. A dama consegue que o donaire que exala dos seus gestos -prefiro designá-lo como malemolência-, não suavize, não enfraqueça, não anule, o carisma da impetuosa, intrépida, arrojada Kathy Kane, trajando uma fantasia colorida de rouge et noir. O negro do uniforme de super heroína harmoniza-se com os fulvos e longos cabelos em revolta ondulação.

Senhoras e senhores, atenção, aproxima-se a apoteose da festa, em que se revelará o rei e a rainha deste Carnaval beneficente. A voz metálica do locutor interrompe a música e anuncia o início da abertura da pinhata. São 33 os casais candidatos à coroa real. Alinhem-se à roda da pinha e comecem, na sua vez, a puxar as suas fitas, desafia.

Dezenas de fitas multicores tremulam, agitam-se, são esticadas em frenesi por sucessivos casais. Pendendo do teto, no meio do salão de baile, a pinha resiste impávida aos esticões. Chega, contudo, o momento em que o Zorro e a Batwoman puxam as fitas de cor magenta e a pinha começa a ceder e, por fim, capitula. Do seu prenhe bojo despencam de imediato, no soalho, dezenas e dezenas de frascos de lança-perfume. Sem demora, os brincalhões começam a vaporizar perfume uns sobre os outros, à imagem do sacristão que com um hissope salpica água benta sobre os fieis…

Temos rei, temos rainha, exulta histérico o locutor. Uma grande salva de palmas para o Sr. Francisco Beleza e para a Senhorita Cátia Toledo. Tenham um feliz reinado.

Não acredito, o rei é o Chico Beleza e a rainha é a Cat, não é possível, espanta-se  Alain. E durante a entronização os novos monarcas são ovacionados por um séquito de vassalos toldados pelas folias de Momo.

Helius ainda dorme a sono solto, em posição fetal, no dorso de um horizonte nimbado de geada, quando Alain abre cambaleante a porta do apê. Já passa das cinco da manhã, surpreende-se.

Sacudindo da cabeça as últimas gotas de confetes congelados, ele não demora a acionar o pickup, botando a rodar um 33 rpm da música ‘Manhã de Carnaval’, cantada pela Maysa.

Refastelado no divaneio, bebendo 33 cl de um chá das 5, ele volta a folhear o dileto  Rimbaud, iluminando a inexorável p. 33. Nem o Jean Arthur adivinharia que seriam coroados o Chico, dono da boîte ‘A Gata Assanhada’, o inferninho mais in..fernal da cidade, e a Cat, a pussycat mais cool do honorável estabelecimento de diversão. E na sua plebeia condição, o cafetão e a meretriz foram rei e rainha nessa noite, madrugada e manhã de um Carnaval micareta*. A insolente Colombina tem razão. É Carnaval sempre que um rei e uma rainha quiserem.

 

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*Glossário
Micareta– assim se designa no Brasil, o “Carnaval fora de época”. O nome é uma aportuguesação de Mi-carême (meia-Quaresma), uma festa carnavalesca, originária de França, realizada na quinta-feira da terceira semana da Quaresma.
Momesco– relativo às folias de Momo, o rei do Carnaval.

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Danyel Guerra (aka Danni Guerra) nasceu na cidade do Rio de Janeiro, Brasil. Tem uma licenciatura em História Universal da Infâmia pela FLUP. É jornalista nas horas (mal) pagas e autor literário nas horas com vagas.

Publicou os livros ‘Tomás Gonzaga-Em Busca da Musa Clio´’, ‘ Amor, Città Aperta’, ‘O Céu sobre Berlin’, ‘Excitações Klimtorianas’, ‘O Apojo das Ninfas’, ‘Oito e demy’, ‘Fernando de Barros-O Português do Cinemoda’ e ‘Os Homens da Minha Vida’.

 

Um comentário em “REI E RAINHA DE UM CARNAVAL MICARETA por Danyel Guerra”

  1. Um grande abraço de parabéns, caro Danyel, por mais um excelente texto que apreciai, deveras.

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