FAKE NEWS – por Fernando Martinho Guimarães

 

Imaginemos a cena: um pastor, chamado Giges, pastoreia o rebanho. Abre-se uma fenda na terra e, vislumbrando alguma coisa ao fundo do buraco, o pastor decide descer. É um cadáver, completamente nu que, numa mão, tem um anel – Giges decide ficar com o anel.

Continuemos a imaginar: estamos agora na assembleia convocada pelo rei em que os pastores lhe prestam contas do estado dos seus rebanhos. Inadvertidamente, Giges roda o anel no sentido da palma da mão e fica invisível. Roda o anel no sentido contrário e fica visível. É uma arma formidável a que só a muito custo seríamos capazes de resistir – Giges, protegido pelo manto da invisibilidade, seduz a rainha, mata o rei e toma o poder. A tese desta história contada por uma das personagens de um livro de Platão é simples: ninguém é justo por vontade própria, mas por obrigação.

A vida moderna trouxe uma realidade nova em que a vida virtual se sobrepõe à vida que chamamos real – a internet e as redes sociais. Nela, as notícias são construídas e transmitidas à velocidade de um click.

Por outro lado, as redes sociais são o lugar por excelência do achismo. Todos achamos que temos alguma coisa a dizer sobre qualquer coisa ou coisa alguma, incluindo, já se sabe, este vosso amigo que agora está dizendo estas coisas.

No mundo em que vivemos e que achamos real, guardamos um dia para as mentiras (1 de Abril). E isso é socialmente aceitável. No mundo das redes sociais todos os dias são das mentiras e, estranhamente, não são poucos os que consideram isso aceitável. Sendo um mundo virtual, acreditamos que as regras que se aplicam nas interacções sociais não se aplicam na Internet.

Vem isto a propósito das tristemente famosas fakenews, das notícias falsas. É que são já três os acontecimentos sócio-políticos de dimensão global em que a produção e divulgação das fakenews podem ter sido decisivas para o resultado final: a eleição de Donald Trump, o Brexit e a eleição de Jair Bolsonaro no Brasil.

A coberto do anonimato, com anel ou sem anel, proliferam no mundo virtual estratégias de manipulação da opinião pública baseadas na mentira e no logro.

De maneira que se torna imperativo encontrar remédios para, se não anular, pelo menos minimizar os efeitos nefastos das fakenews. O facebook, o twitter e outras tecnológicas prometem tomar medidas mas, para dar seguimento ao ambiente pastorício do início desta conversa, parece-me o mesmo que pedir ao lobo que guarde o rebanho. A Alemanha obriga já as redes sociais a retirarem páginas de notícias falsas e de conteúdos de ódio em 24 horas. As sanções, em caso de incumprimento, podem ir até aos 50 milhões de euros.

Uma outra solução possível é “chutar” a responsabilidade da aprendizagem das regras de cidadania virtual para a escola. Os professores que se amanhem. Se resultar, só o saberemos daqui a uns anos. Se não resultar, ficamos a saber quem são os culpados. E com isso fica a nossa consciência de hoje apaziguada face aos problemas de consciência de amanhã.

De maneira que, não havendo solução imediata e de sucesso garantido, sobra-nos suster o indicador no clickbait (fazer o gesto) e verificar se aquilo que queremos partilhar está de acordo com os factos ou é uma falsidade.

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Fernando Martinho Guimarães (1960) Nascido transmontano (Alijó, Vila Real),  foi na cidade do Porto que viveu até aos princípios dos anos 80. De formação filosófica e literária, a sua produção ensaística e poética reflecte essa duplicidade. Publicou em 1996 A Invenção da Morte (ensaio), em 2000 56 Poemas, em 2003 Ilhas Suspensas (edição bilingue, castelhano/português), em 2005 Apenas um Tédio que a doer não chega e em 2008 Crónicas.