A CAUSA PROFUNDA DA POLARIZAÇÃO- por Francisco Traverso Fuchs

Um dos efeitos da polarização política é a depreciação mútua.

 

Não há explicação simples para a polarização política e ideológica que consome a vida de tanta gente, no Brasil e lá fora. Vários são os fatores geralmente apontados como causas desse fenômeno: o crescimento do populismo, seja ele de esquerda ou de direita; a clausura das bolhas nas redes sociais e na mídia, incentivada por algoritmos que visam o engajamento e não o diálogo; o declínio da confiança nas instituições, inclusive educacionais, a partir da percepção de que foram capturadas por interesses alheios às suas finalidades.

No plano afetivo, a polarização se traduz no ódio recíproco e na depreciação mútua, ou seja, na divisão da sociedade em campos opostos e aparentemente irreconciliáveis: ela faz com que correntes políticas adversárias sejam vistas não como grupos legítimos de pessoas que professam opiniões diversas das nossas, mas como ameaças existenciais. A convicção de superioridade moral no interior de cada grupo e o temor face ao outro não são sem consequências: eles nos aproximam cada vez mais de um cenário em que a temida ameaça existencial deixa de ser um perigo meramente imaginário; alimentado de lado a lado pela arrogância e pelo medo, o monstro que acreditávamos esconder-se debaixo da cama toma forma e se torna real. Assim, a consequência mais perigosa da polarização é o progressivo acirramento, em cada grupo, de uma tendência ao extermínio do grupo oposto, seja em termos noéticos (censura), seja em termos literais (linchamento, guerra civil).

Minha hipótese é a de que existe, além dos motivos já citados, uma razão profunda para a polarização, uma espécie de condição de possibilidade sem a qual o cenário descrito acima não poderia prosperar. Trata-se de um problema essencialmente cognitivo: em vez de nos esforçarmos para enxergar o outro tal qual ele é, nós o vemos refletido no espelho dos nossos próprios sentimentos e convicções. A rigor, a única coisa que enxergamos é nosso próprio espelho; não enxergamos aquilo que há em comum entre “nós” e “eles”, e muito menos o outro nele mesmo.

Quem conhece o pensamento de Spinoza reconhecerá, no quadro esboçado acima, os três gêneros de conhecimento que o filósofo distinguia. Nós nos limitamos a sentir (e ressentir) os efeitos que o outro suscita em nós, sem jamais investigar por que ele nos causa esses efeitos e sem jamais dar-lhe ouvidos. Incapazes de entender, limitamo-nos a moralizar; e é precisamente por isso que o outro, na perspectiva da polarização, é sempre um monstro moral.

Isso não significa que não existam ideologias moralmente monstruosas. Não deveria ser tão difícil assim reconhecê-las: elas pregam o extermínio de povos inteiros, de países inteiros, ou de grupos inteiros no interior de uma população qualquer, e praticam ativamente o silenciamento de seus adversários. Tampouco significa que não existam culturas imperialistas, explicitamente etnocidas, que só vicejam submetendo as demais culturas até erradicá-las e substitui-las inteiramente; no limite, aliás, o expansionismo colonialista pertence de direito, senão de fato, ao horizonte de todas as culturas; e assim como é impossível mudar a cor de um muro sem pintá-lo de outra cor, nós colonizamos até mesmo quando pretendemos “decolonizar”.

Por fim, nada disso significa que não existam monstros morais, ou que muitos deles não tenham uma especial predileção pela vida pública; significa apenas que, para chegar a identificá-los (inclusive no interior dos grupos com os quais simpatizamos), precisaremos raciocinar em vez de regurgitar sentimentos mal digeridos; e que, para impedi-los de ir tão longe quanto gostariam, precisaremos inventar e fazer funcionar instituições capazes de impor limites ao seu poder.

A tarefa é árdua. Tal como na tradição zen, não seria suficiente “limpar o espelho”; a única alternativa é fazer um esforço contínuo para enxergar diretamente a realidade (em vez de enxergar apenas nosso próprio espelho onde a vemos refletida). Somente então o debate, o autêntico embate de ideias, poderá ter início.

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Francisco Traverso Fuchs formou-se em História pela UFF, é mestre em Filosofia pela UFRJ e atua como pesquisador independente. Em setembro de 2025 lançou o site ponto cinza, onde tem um blogue e está começando a reunir sua produção.