COISAS DO (I)MUNDO. UM GRITO UM CLARÃO ESTA ESTRIDÊNCIA – Por Adelina Andrês

O Grito, by E. Munch (detalhe)

Grito!!! Declaro!!: eu quero um clarão nestas tenebruras do imundo mundo
Para limpar
Para ser um mundo não imundo
de Viver!!
VIVER quer dizer que é preciso clarear!
Clarear é dizer do coração
do umbigo não – por pouco ser para não ser!
Falar falarziiinho
desse umbigoziiinho para viverziiinho de certo errado jeitinho
pequeno
muito pequeno
pequenininho – que não é de criança pequena
Que É
Grande!
é outra coisa coisiiinha bajular bajulandiiinho.
Não! Não!! Não quero digo zangada. Não!! de zanga forte muito escuro
escuríssimo
e noite densa pesada sem estrelas a iluminar – não é a linda noite estrelada
que Van Gogh viu no escuro a brilhar intensamente a sentiu a existir
e a eternizar a pintou.
Tolos! Tolos!: “quem parte e reparte e não fica com a melhor parte…” é fala de tolos umbigos.
Umbigos de verdade não são esses
São aqueles centros lindos de corpos de dar trocar alimentar e bem partilhar
de mães terras crianças mundos limpos
a nunca precisar de limpar!
Em terra de cegos quem tem um olho é rei” – e vai cegar todos. Pode?! Ter poder de gostar de mandar o que é isso??!! Tolos tolos!!!
Jesus zangou-se no templo
com as vendas todas
vendas de vender negócios raseiros rasteiros negocioziiinhos
Levantou arrancou do chão as bancas de vender
das vendas
para tentar arrancar as vendas dos cegos
dos tolos
gente imunda
para limpar limpar esses imundos para serem!
Para serem mundos que é o que são!!
As pessoas são mundos
não são imundos
estão imundos!
É preciso limpar transparecer limpar corpos limpar tudo limpar olhos
Ver mundos!!…
Jesus zangou-se
ou quis mostrar zanga!? linguagem imunda
para os imundos do mundo olharem ouvirem entenderem
porque só se entende a mesma linguagem mostrada falada
E é preciso às vezes falar outra aquela língua imunda suja
com crostas de sangue seco parado peganhento que cola que se pega
do que se matou que se derramou
e a seguir secou.
Pena. Pena! Não leve, mas muita pesada pena
que sangue é vida limpa corrente a sempre correr a vivificar fazer viver
Sangue limpo a percorrer os íntimos lindos livres corpos mundos
de Viver.
Imundos para limpar não sabem não lembram?… Não entendem?!…
É a língua do imundo
imunda língua a gritar estrondar para parecer.
Tantos (i)mundos corpos parados presos a gritar para parecer!!
Triste triste coisa que só parece viver.
Tanto tanto escondido apertado parado vendado
a querer vendar só para não ver.
Para impedir para não deixar outros limpar.
Para não deixar mundos aparecer.
Para impedir a vida de ser!!
É preciso gritar para não deixar para se fazer entender?!!…
Gandhi calou calou
e depois gritou para viver.
Para viver calou calou e gritou e sacrificou se sacrificou…
Eu não quero mais menos precisar gritar calar e sacrificar.
Quero vassouras detergentes carpex para limpar.
Limpar sem aspirar
aspiradores de inalar o sujo não!! Para não deixar o sujo entrar a conspurcar.
Quero arrancar crostas sujas paradas velhas! Velhas!
Velhas não são antigas…
As antigas de verdade são lindas
São as antigas de tempos idos que vieram antes
e invisíveis agora e sempre estão estarão sempre aqui.
Venham tempos da não história
Venham apareçam se desvendem se revelem se mostrem mundos
os mundos limpos
corpos mundos não maculados da não história
Venham todos os mundos deste mundo não contado não gritado não ouvido
Venham contar essas essa história
Venham todos ou alguns desde que sejam mundos contar!
Contem as histórias a história que não ensinam nesta escola
Venham outras escolas sem escola contar estas outras histórias da árvore das coisas da vida antes de arrancar a maçã para guardar para si para não dar aos outros “quem parte e reparte e não fica com a melhor parte ou é burro ou não tem arte”?!!…
Um burro é uma coisa mundo vida linda
e por estar neste aqu(i)mundo
se contagia imundo
porque está sujo porque é animal domesticado não livre.
É bom ser burro não imundo ser mundo!!
E arte é coisa linda porque é criar ser criador é criação
por isso é bom ter arte Arte
não arte daquela que não é Arte
mas é artifício manha perfídia
sem ser de serpente
Porque serpente é ser mundo!!
Quando a Eva ou quem quer que a quis colheu a maçã
começou aí a história contada
porque roubou retirou privou de todos a maçã.
A maçã fruto proibido é o mundo roubado colhido depravado
Privado
só para poucos muito poucochinhos
só para um e dois e três…
Os outros mundos todos ficaram proibidos ficaram sem maçã
ficaram imundos
e a Eva e o Adão também ficaram.
Porque partiram e repartiram e acreditaram que ficaram com tudo com a melhor parte
mas ficaram como os outros a quem privaram
Ficaram igual.
Todos mal mal.
Todos rotos corrompidos sujos por dentro e por fora!…
Mas um bocado um bocadinho muito lá dentro
limpos
porque muito muito lá dentro
bem guardado lá nos fundos fundos fundos
continua a haver há sempre mundos mundos mundos.
E a serpente nua enrolada
com a cabeça para cima
para o alto
com dois olhos de brilhar
de olhar
mais alto
muito muito muitíssimo mais mais alto
que a altura da árvore da vida do mundo da maçã,
e que estava lá,
não sabemos bem como disse como falou como fez
– se disse gritou imundo, ou se calou apenas mundo.
E isso porque a história contada gritada por todos
para todos os (i)mundos
é a história única escrita legitimada ouvida reproduzida ensinada.
E todos quase todos dizem pensam creem não duvidam
até matam queimam esfacelam e esfolam quem duvide
e portanto por tanto por tão pouco mesquinho de medo incessante miudinho
ninguém duvida ninguém diz.
Mas esta é só a história depois do mundo,
do (i)mundo sujo por isso condenado
condenados os mundos depois imundos Eva e Adão
“parirás os teus filhos com dor” e
“comerás o pão com o suor do teu rosto”.
Passaram então estes antes plenos mundos
a depois tristes imundos
condenados a sofrer a fazer sofrer e a sofrer mais por isso.
Porque ficaram todos com crostas de sujo imundo
que cobriram taparam vedaram e vendaram um olho. A todos.
E como quem tem um olho só pode ser rei ter esse poder de mandar
se os outros todos forem todos cegos todos todos
logo alguns poucos se gastaram se esgotaram e desonrosamente se finaram
a tentar cegar os outros muitos.
E a história escrita nos livros contada e ensinada em tudo e na escola
mostra como tem sido sempre assim neste (i)mundo, até hoje:
uns poucos que têm um olho que querem ser reis de mandar
lutam lutam com muitas todas as armas todas as forças
para cegar o olho dos outros muitos todos.
E incessantemente se batem em angustiante sempre vigilante desespero
tanto afã tanta infatigável incansável ingloriosa canseira
para os outros muitos todos não lhes cegarem o olho único deles
se não não poderão estar reis de mandar.
Neste (i)mundo a história conta ensina estes e outros falsos feitos heróicos
e até o alimento (im)porta para a vida
se for duro duro sofrido muito penosamente conseguido “com o suor do rosto”
E o humano corpo quase todo (i)mundo
que devia todo todo ser mundo
se elogia se venera e se enaltece porque é “muito tão trabalhador”
que quer dizer
sofrido sofrido pesado pisado sacrificado mortificado dorido.
Quando outra porta se abre
para outra vida humana munda um mundo entrar neste (i)mundo,
logo se inicia o sofrimento enganado acreditado venerado “parirás com dor”
A mulher grita dor! Dor!! Dor!!!…
contorcida alto forte insuportável insuperável demorado demorado lancinante
e fica dias dias longos longos a sofrer a suportar a padecer.
A criança munda entra a não reconhecer a (des)conhecer o mundo
a conhecer o (i)mundo
e a (des)aprender a vida de verdade de fruir usufruir se deleitar e criar.
Quando for grande
só até ao umbigo de medir contar contabilizar contabilizarziiinho
aquele umbiguinho de viverziiinho de certo errado jeitinho
que não é o umbigo de Vida de verdadeiramente Viver
este de unir ligar alimentar e creScER.
Quando for assim grande tão anã tão pequenina
irá final(mente) em verdade (i)merecidamente descansar
a enterrar a incinerar a sair partir pessoa inteira ir embora
E outros a assistir a ficar
a chorar porque ainda imundos porque ainda a penar
E todos a dizer a esforçar e a acreditar louvar:
foi um bom trabalhador de suar suar suar!!
Tão certa tão pouco acertada certeza tão errada erradíssima neste (i)mundo
e tanto tanto muito muito
a lamentar
no caminho meta da Vida
cegamente a acreditar a fazer acreditar numa outra enganada poderosa
meta pequenina
possuir toda a maçã
que é a melhor parte
e com lutas manhas artifícios
proibir aos outros
nunca partilhar
porque é o fruto proibido legitimamente anunciado
e tão reconhecidamente acreditada nunca duvidada a inevitabilidade de parirás os teus filhos com dor e trabalharás com o suor do teu rosto o pão que o diabo amassou.
Isso é o que a história conta. Diz que é o início.
E é o início do (i)mundo…
Antes não seria assim…!!?…
E quem conhece a história do antes toda, porque a-final estava lá, é a serpente!!…
Qualquer dia, um destes dias, ela vai contar…

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Adelina Maria Granado Andrês nasceu no norte do país e aí vive,  em vizinhança próxima com o mar de Gaia e pelo interior transmontano. É docente do ISCAP-P.Porto. Os seus interesses focam-se no pensamento e na obra de Agostinho da Silva e para além do ensaio, dedica-se a outros tipos de escrita, sendo autora de livros infantojuvenis, poesia e prosa poética.