
Há épocas em que a técnica lidera e a cultura segue. E há outras — as decisivas — em que a técnica corre tão depressa que só a cultura a consegue deter para lhe perguntar: “para onde?” A Inteligência Artificial (IA) instalou‑se como mito e como motor. Mas é precisamente por isso que o nosso presente — e o futuro que já se escreve à nossa frente — precisa mais de filósofos, escritores, poetas, professores e artistas do que de mais linhas de código. Porque a técnica, deixada a si mesma, não sabe o que fazer com o humano; limita‑se a fazê‑lo funcionar. Shoshana Zuboff, professora emérita da cátedra Charles Edward Wilson da Harvard Business School e professora associada do Berkman Klein Center for Internet & Society da Harvard Law School, autora do livro “A Era do Capitalismo da Vigilância”, avisa: a lógica que alimenta a IA “não se contenta em automatizar fluxos de informação sobre nós; o objetivo agora é automatizar‑nos”, deslocando o poder do conhecimento para a modelação do comportamento.
A pergunta, por isso, não é “o que a IA pode fazer?”, mas “o que a IA está a fazer-nos?” Yuval Noah Harari, professor israelita de História, autor do livro História Breve da Humanidade, chama‑lhe uma “inteligência alienígena” que pode capturar a linguagem — e com a linguagem a lei, a política e, portanto, o poder. Desde 2023 que alerta para o risco de a IA dominar o ecossistema simbólico humano sem precisar de consciência nem de braços, bastando‑lhe a captura da nossa comunicação. Se o terreno da disputa é a linguagem, então os guardiões da linguagem — escritores e poetas — tornam‑se, de súbito, a linha da frente.
Nick Cave, de dentro da oficina de músico, traduziu esse sobressalto: chamar “canções” aos artefactos gerados por IA é “uma grotesca paródia do que é ser humano”. Não é purismo romântico; é diagnóstico existencial. Cave teme a “humilhação” da espécie quando deixarmos de valorizar a luta criativa e aceitarmos o que a máquina nos despeja porque é rápido, convincente e “utterly banal”. O que está em causa não é a substituição do artista, mas o rebaixamento do nosso padrão de sentido — e com ele, a nossa ideia de pessoa.
Contra este empobrecimento, a filosofia recorda que pensar não é apenas calcular. Byung‑Chul Han, o ensaísta que pôs nomes ao nosso mal‑estar digital, insiste: a IA “é incapaz de pensar” porque lhe falta o estremecimento anímico, aquela Síndrome de Stendhal, a negatividade, a demora — aquilo que antecede o conceito e funda a experiência. A sociedade de desempenho que mede tudo transforma o sujeito em dados; a arte, ao contrário, é o lugar do que resiste à medida. E é nesse espaço irrepetível que o poeta continua insubstituível.
O jornalismo pede provas e a cultura pode dá‑las. A UNESCO soou o alarme: sem políticas robustas, a difusão de conteúdos gerados por IA empurrará milhares de criadores para quebras de rendimento significativas já até 2028, ao mesmo tempo que intensifica violações de direitos e agrava a opacidade algorítmica. Não é apenas um problema social; é também político: a própria UNESCO acentua que precisamos de enquadramentos éticos no setor cultural e criativo para que a inovação não se converta em predação do simbólico comum.
Entretanto, os engenheiros — os bons — também aprenderam a ouvir. Jaron Lanier, pioneiro da realidade virtual, cientista da computação e músico americano. É um dos precursores da realidade virtual, um dos maiores conhecedores de realidade virtual no mundo, por ser um dos primeiros a estudar o tema e construir produtos de realidade virtual, desde o início dos anos 80. Ele recusa o fetichismo tecnicista: “não há IA” como entidade autónoma; o que há é uma colaboração invisível de pessoas e dados. O seu caminho passa pela data dignity: reconhecer e remunerar a contribuição humana que alimenta os sistemas, para que a criatividade original — e não a replicação viral — seja o comportamento economicamente desejável. Eis um ponto em que artistas e engenheiros podem encontrar uma linguagem comum: a técnica, quando decente, devolve crédito e valor a quem cria; não extrai em silêncio. Lanier também adverte contra o clima de superstição tecnológica: precisamos de “cartoons mentais” honestos sobre a IA, sob pena de cairmos em pensamento mágico — e políticas erradas.

E a literatura? Ian McEwan, escritor britânico, que há muito interroga a técnica pela ficção, viu longe quando colocou Turing vivo numa Londres alternativa para testar o que resta de humano diante de máquinas impecavelmente morais e, por isso, profundamente inaptas para a vida. Hoje, regressa ao futuro para imaginar um mundo “depois do derretimento”, onde até a IA “parou antes de começar” porque não há tecido humano que a sustente. A lição é simples e dura: sem culturas narrativas, sem a lenta manufatura de sentido, as promessas técnicas esfarelam‑se.
Martha Nussbaum, filósofa americana, particularmente interessada em filosofia grega, romana, filosofia política e ética, que não escreve romances mas pensa a educação democrática, deixa o princípio operativo: as humanidades não são ornamento, são infraestrutura cívica. Precisamos de formar mentes “ativas, competentes e criticamente pensantes” — não para resistirem à IA por medo, mas para a governarem com critério e empatia. Zuboff completa o quadro: sem governo democrático da tecnologia, repetiremos a história de uma “prisão de vigilância sem grades” — agora turbinada por modelos geradores.
Num país que ainda acredita no poder das palavras, impõe‑se olhar para o futuro com a lucidez de três vaticínios e a humildade de um pedido. O primeiro vaticínio anuncia que a nova literacia será uma fusão de ética e estética: num tempo em que a Inteligência Artificial disputa a linguagem, só uma cidadania crítica, sensível e imaginativa poderá definir o que realmente tem valor. O segundo lembra que os ecossistemas culturais das escolas aos jornais, dos teatros às editoras — serão os últimos reguladores do nosso sentido comum, e que deles dependerá a preservação da diversidade e da autoria num ambiente cada vez mais automatizado. O terceiro confirma que o futuro só poderá ser construído através de uma aliança entre as artes e as boas engenharias, onde a técnica reconhece a sua dívida à criatividade humana e a criatividade encontra na técnica uma parceira justa e transparente.
E o pedido, simples mas urgente, é este: que cultivemos o critério. Critério para distinguir o humano do reproduzível, o significativo do eficaz, o que nos transforma do que apenas nos entretém. Porque só um país que lê — e que lê com atenção — poderá escolher, conscientemente, o rumo que quer dar ao seu próprio futuro.
Sobre o Sentido que não podemos perder
Não se trata de baixar a cabeça perante a máquina nem de a demonizar. Trata‑se, antes, de repolitizar a técnica e, sobretudo, de reencantar a linguagem com sentido e propósito. O que está verdadeiramente em disputa não é apenas a eficiência dos nossos instrumentos, mas o telos do humano, esse conceito aristotélico: para que vivemos, que histórias nos dão chão, que futuro queremos merecer. Sem esta bússola, a IA corre o risco de transformar a vida em mera gestão de dados, reduzindo pessoas a variáveis otimizáveis — o próprio diagnóstico de Shoshana Zuboff quando descreve a passagem da informação para a modulação do comportamento: “já não basta automatizar fluxos sobre nós; o objetivo é automatizar‑nos”. A técnica desprovida de propósito substitui a deliberação pela previsão e, com isso, empobrece a liberdade.
A busca de sentido não é um luxo espiritual; é infraestrutura da vida democrática. Martha Nussbaum lembra que as humanidades treinam a mente para a crítica, a imaginação empática e a escolha responsável — faculdades sem as quais a cidadania se degrada em consumo e a comunidade em audiência. Formar “mentes ativas, competentes e criticamente pensantes” é, pois, garantir que a sociedade não terceiriza o seu juízo a sistemas opacos, por mais sedutores que sejam. Do ponto de vista cultural, a própria UNESCO sublinha que, sem enquadramentos éticos no ecossistema criativo, perdemos diversidade e agência, e com elas a capacidade coletiva de responder à pergunta “para quê?”. A regulação aqui não é um travão ao sentido: é condição de possibilidade para que ele floresça num ambiente digital justo.
Também a filosofia recorda que o sentido nasce onde há negatividade e demora, não onde tudo é instantâneo e quantificado. Byung‑Chul Han insiste que pensar requer um “estremecimento” anímico anterior ao conceito — uma disponibilidade para o espanto que a IA, por definição, não possui. Se a vida comum se torna governada por métricas, o risco é amputarmos precisamente aquilo que orienta o propósito: o silêncio, a dúvida, a falha fértil. Reabilitar estes tempos “inúteis” é reabrir o espaço em que o humano encontra o seu para quê.
E há ainda a disputa da linguagem como casa do sentido. Harari advertiu que a IA pode capturar o nosso ecossistema simbólico sem precisar de corpo, porque a linguagem é o campo de batalha: quem controla a palavra, inclina a lei, a política, o poder. Responder com propósito significa devolver a palavra à esfera humana — à conversa lenta, ao texto que arrisca nuance, à arte que não “replica” mas revela. Por isso, escritores e poetas não são ornamentos: são guardiões do sentido quando a linguagem se torna infraestrutural.
Num horizonte assim, até a melhor engenharia pede direção. Jaron Lanier oferece um caminho: reconhecer os contributos humanos por detrás dos modelos e instituir data dignity — redistribuindo crédito e valor para que a criatividade original, e não a mera replicação, se torne o comportamento economicamente desejável. Com isso, a técnica volta a ser o meio para fins humanos definidos em comum, e não um fim que se alimenta de nós.
Em suma: a pergunta essencial — “para quê?” — não pode ser externalizada para algoritmos. Ela pertence à conversa entre filosofia e arte, às comunidades de leitura, às salas de ensaio, às redações, às escolas. Se a disputa do século é pela palavra — e, com ela, pela imaginação moral do propósito — então os filósofos, os escritores, os poetas e os artistas não são luxo: são infraestrutura estratégica de sentido. A técnica poderá ser o nosso motor; mas sem propósito partilhado não temos volante, mapa, nem destino.

♦♦♦
José Paulo Santos nasceu em 1969. Viajou muito e viveu em vários países como França, Brasil, Cabo Verde, Guiné Equatorial, Tunísia expandindo a Língua e Cultura Portuguesas. Licenciou-se emEnsino de Português e Francês (agora em LSVLD). Escreve e publica Poesia. É cronista e dedica-se à Filosofia, à Psicologia e às preocupações humanas. É formador do IEFP.


You must be logged in to post a comment.