EDITORIAL – ONDE ESTÁ A SABEDORIA? – por Artur Manso

                                         

Escuta e serás sábio. O começo da sabedoria é o silêncio.
Pitágoras

Eu não procuro saber as respostas,
procuro compreender as perguntas.

Confúcio 

Na tradição judaico-cristã os Livros Sapienciais são sete: Jó, Salmos, Provérbios, Eclesiastes, Cântico dos Cânticos, Sabedoria e Eclesiástico. Uns são de maior extensão, outros de menor. Uns são mais introspetivos e centrados no sujeito, outros abertos à comunidade. São livros de ajuda a si mesmo, melhor dito pertencem ao grupo de leituras e meditações que os gurus atuais da autoajuda, os poucos que realmente conhecem a tradição, com milhões de likes e seguidores, reproduzem nos seus catecismos de forma ardilosa, sem citar as fontes. Não as ignoram é certo, e as suas obras seriam bem mais pobres no seu desconhecimento. Os livros sapienciais, não se encontram apenas nas religiões, eles percorrem todas as tradições e culturas, e a mentalidade ocidental, desde sempre relativizou os seus conteúdos e respetivos ensinamentos, porque na verdade poucos eram os que sabiam ler e a mensagem chegava sempre deturpada de acordo com os interesses de quem exercia o poder: as Igrejas e os Estados. Assim, de acesso a muito poucos, iam repousando sem serem abertos não só os livros sagrados, mas os de toda a tradição: Bhagavad-Guitá, Vedas, Sócrates/Platão, Séneca, Marco Aurélio, Confúcio, Buda, Jesus, Agostinho de Hipona, Bernardo de Claraval, Francisco de Assis, Ramakrishna, Ghandi e alguns outros, não muitos, que a verdadeira Sabedoria é um privilégio de raros.

Em uma crónica do Pe João Basto no jornal Observador, li que “O cristianismo não promete o desaparecimento da imperfeição, mas a possibilidade de ela ter um sentido” e é na consciência dessa tarefa que os livros sapienciais refletem a condição humana no seu conjunto, vida, morte, crescimento, deveres para consigo, para com os outros e atenção especial e central na vida religiosa, esta última por eu pensar, mesmo sendo crente, que é um acrescento e uma finalidade e não uma particularidade da sabedoria de cada um, e ainda por entender que o caminho da sabedoria se inicia no mais simples e progride, aos poucos, até ao mais complexo, ilustrarei esta reflexão, como sempre aconselho a alguém interessado em qualquer assunto, no livro mais pequeno de todos estes, o Eclesiastes, seguindo o que aí se diz, na valorização do sensível: “Jovem, regozija te na tua mocidade e alegra te na flor da idade. Vai aonde o coração te leva e os olhos te atraem” (Ec. 11: 9).

Este texto começa com um alerta que serve para o atual e esmagador universo da blogosfera, os posteiros e as posteiras, a/os likeira/os: “Vaidade das vaidades, tudo é vaidade. Que proveito tira o homem de todo o trabalho com que se afadiga debaixo do sol? Uma geração passa, outra lhe sucede, enquanto a terra permanece para sempre” (Ec., 1: 1-4). E se as gerações antigas pouco proveito tiravam, que dizer das novas que vivem afadigados com o dia de amanhã, sem comer, sem dormir, sem se divertir, sem descansar… para que não faltem likes e aumente o número de seguidores. Mas quem verdadeiramente escuta frases desgarradas ao sabor dos corpos modelados pelo exercício físico e pela indústria estética? É melhor isso que nada, mesmo que isso seja quase nada, porque “o que foi, será, o que sucedeu, sucederá: nada há de novo debaixo do sol!” (Ec. 1: 9), mesmo que como Heraclito afirmava “a água não passa duas vezes no mesmo rio”, tudo está em constante mudança que é o prenuncio de um mesmo começo.Como se indica neste livro “muita sabedoria, muito desgosto; aumentando o saber aumenta-se o sofrer” (Ec. 1: 18). Algo que pode ser complementado, pela positiva, com Séneca (4 a.C.-65) nas famosas Cartas a Lucílio quando aconselha: “Pensa bem, portanto, no que te digo: o resultado da sabedoria é a obtenção de uma alegria inalterável. A alma do sábio é semelhante à do mundo supralunar: uma perpétua serenidade. Aqui tens mais um motivo para desejares a sabedoria: alcançar um estado a que nunca falta a alegria. Uma alegria assim só pode provir da consciência das próprias virtudes: apenas o homem forte, o homem justo, o homem moderado pode ter alegria”. E quem verdadeiramente a procura só precisa de estar atento porque ela “senta-se à porta da casa, num assento que domina a cidade” (Prov, 9: 14). Não é necessário procurar a sabedoria, porque ela está junto de cada um, na disposição de cada qual para entender que “Tudo tem o seu tempo, o momento oportuno” (Ec. 3: 1). Em contexto existencial, nada há que acrescente ou diminua porque ”o que foi já havia sido; o que será já foi”  (Ec. 3: 5).

Como referia Sócrates “a vida que não é examinada não vale a pena ser vivida”. Esteja ou não o destino marcado, a obrigação de cada um é encontrar o seu lugar no fluxo do tempo, daquele tempo que é o seu e naquela existência que lhe pertence. Até agora não se encontrou maneira de preencher o lugar único de cada um, o mistério de cada existente. Nem dos seres humanos e restantes seres sencientes, nem das montanhas, dos regatos, dos rios, dos montes e dos vales, do tempo agreste e do suave azul das águas do mar que refletem, ao por do sol e ao nascer da lua, a paleta de cores que iluminam a perfeição, porque “o único bem do homem é alegrar-se e passar bem na vida” (Ec. 3: 12).

A procura da felicidade é obrigação de todos, mas ela apenas se deixa alcançar pelos simples e tudo no mundo é uma construção complexa num percurso ziguezagueante contrariando o próprio espírito da criação. Por escolha livre e determinada dos seres racionais que, aparentemente, não sendo responsáveis pelo seu nascimento, podem e devem construir um percurso único, aprazível a si e aos outros. No entanto, essa liberdade, por parte dos humanos, é vista mais como um obstáculo do que como uma fonte de progresso: “Deus fez o homem reto, e este procura complicações sem conta” (Ec. 7: 29). Talvez este seja o seu destino e só por ele se alcance o fim da humanidade.

Os ensinamentos sapienciais são claros quanto à responsabilidade individual de cada um na sua relação com aquilo que o rodeia, no meio onde aparece e nos lugares onde é educado. Ser jovem é estar a caminho, mas esse percurso não é sinónimo de satisfação plena. Ter e Ser são duas vias opostas, sim, mas que não prescindem uma da outra. São complementares, não adversárias. Ter o essencial, aquilo que basta, para o dia a dia que cuida de si mesmo, na preocupação de compreender o nosso lugar no universo: ser consigo na sua relação com os outros e com a natureza.

Confúcio meio milénio antes de Cristo definia assim a verdadeira sabedoria: “O que sabemos, saber que o sabemos. Aquilo que não sabemos, saber que não o sabemos” e o líder budista Dalai Lama, também menciona: “Só existem dois dias no ano que nada pode ser feito. Um chama-se ontem e o outro chama-se amanhã, portanto hoje é o dia certo para amar, acreditar, fazer e principalmente viver.” O budismo considera a sabedoria como fundamental para nos libertarmos do sofrimento e alcançar a felicidade porque ela é reveladora do sentido da realidade considerada no seu todo.

Aristóteles também referia que a sabedoria implicava uma mistura de conhecimento, ação e virtude. Ou seja, um olhar do ser humano sobre a totalidade da sua existência centrado no seu quotidiano e aberto às suas aspirações de Ser mais. Não nos esqueçamos que Aristóteles imprime nas primeiras páginas da Metafísica, ser a visão o sentido supremo porque com ela se observa a natureza, os deuses e toda a humanidade. Numa das suas máximas deixa grafado: “O ignorante afirma, o sábio duvida, o sensato reflete”. É importante referir que qualquer discurso sobre a sabedoria, daqueles que são feitos e pronunciados com rigor, ela não aparece como algo dado em definitivo: quem a procura aproxima-se dela, consciente que nunca a poderá possuir na sua totalidade.

Marco Aurélio (121-180) imperador e sábio estoico, tendo a oportunidade, como muito poucos de deixar ao povo que guiava, lições de sabedoria, acreditava que com esta se construiria a liberdade e nos poderíamos livrar da escravidão, em contacto íntimo com a  natureza para descobrir a unidade da multiplicidade, mantendo a autonomia e o poder pessoal que exige que a natureza humana esteja entranhada na natureza das coisas que nos circundam: “que outra coisa devemos  fazer além de aproveitar  a vida para com ela entretecer uma cadeia de bens, sem deixar entre os elos o mais pequeno intervalo?”

A dificuldade de nos tornarmos sábios tem a ver com o facto de sermos educados para racionalizar a vida, olhar para aquilo que nos rodeia pelo ponto de vista pragmático tentando alterar o complexo e confundir o simples. Temos sempre a tentação de seguir as leis da lógica, raramente estamos dispostos, como nos desafia Ionesco em A lição (1951) a decompor para compor de novo. No desconhecimento das pequenas coisas, aquelas que guardam o que mais interessa, nada nos será possível compreender porque continuaremos a viver como se o centro da existência estivesse realmente em nós. Somos servos, não somos senhores, o que conseguimos, o que acumulamos, o que decidimos, é transitório, resistirá à nossa passagem porque nada nos é possível fazer para ficarmos por cá eternamente. Não somos do sempre, somos do agora: da brevidade de um tempo que permanecendo nos desgasta e nos decompõe. São assertivas as palavras de Fernando Pessoa em A Morte Chega Cedo:

            A morte chega cedo,
            Pois breve é toda vida
            O instante é o arremedo
            De uma coisa perdida.

            O amor foi começado,
            O ideal não acabou,
            E quem tenha alcançado
            Não sabe o que alcançou.

            E tudo isto a morte
            Risca por não estar certo
            No caderno da sorte
            Que Deus deixou aberto.

Talvez tenha havido um jardim encantado, onde jorrava leite e mel. Talvez habitar de novo nesse jardim corresponda à busca intermitente de todos os existentes. Um jardim descrito de forma luminosa, mas que jamais algum dos nossos iguais o pôde habitar. É um desígnio dos mais exigentes chegar lá, mas será uma loucura impossível de todos que já tentaram e de quem continuar essa demanda.  Nesse reconhecimento, em jeito de resumo e em ligação com o inicio do livro do Eclesiastes, deixo os versos finais de um dos últimos poemas de António Franco Alexandre que designa (domínio público):

            […]
            Ah também tu és vaidoso, meu querido.
            Também tu queres vestir-te
            de rimas e kalamanknes leibserdaak
            e ver o mato rasgado
            numa cave transcendente.
            De terra em terra foste deixando as asas.
            Não mintas mais: só conheceste imagens.

Diz o poeta e eu, humildemente, repito. A missão de cada um em particular e de toda a humanidade em geral, é esforçar-se no caminho da sabedoria enquanto houver luz, tal como referem as palavras emotivas que Jesus dirigiu aos discípulos antes da última ceia:

 ainda por um pouco de tempo está a luz convosco, caminhai enquanto   tendes luz, para que não vos surpreendam as trevas; quem caminha  nas  trevas não sabe para onde vai. Enquanto tendes luz, crede na luz, para que sejais filhos da luz (Ev. João, 12: 35-6).

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Artur Manso, É diretor adjunto da Revista Athena.pt. Nasceu nos idos de 1964, pelo outono, ao cair das folhas, na aldeia transmontana de Izeda. Professor universitário que ao longo do tempo se tem dedicado à aprendizagem e ao ensino de pequenas coisas sob o signo da estética e da ética, do lugar que nos cabe no mundo e de como a beleza nos pode tranquilizar.