MUNDOS DAQUI E D´ALÉM (IV). O VASO PRECIOSO MUITO VALIOSO (II) – por Adelina Andrês

 

MUNDOS DAQUI E D´ALÉM (IV). O VASO PRECIOSO MUITO VALIOSO (II)
Conclusão

Naquela noite muito estrelada, a Lua acendera-se redonda toda…

Maria pressentia conhecia já sabia… José tentou esconder o desespero que o invadia demasiado todo, e logo logo depressa apressou o passo do burrito. Ao mesmo tempo fugaz e lancinantemente, aos seus olhos ofereciam-se num ápice dois ápices três ápices e num só e mesmo ápice todas as possibilidades de abrigo e aconchego que já não podiam esperar!! Nem um curtinho segundo!! Não podiam esperar nem um curtinho segundo!!… Nem sequer as reticências que nem deviam nem podiam aqui estar!! Mas ficam!

Naquele ápice que incluiu os outros todos, mas todos ao mesmo tempo que foi tão curto que nem interessa contar contabilizar, José vislumbrou um abrigozito de animais… Que bom que bom é mesmo bom!!!… Tem até uma manjedoura com palhinha que será berço do Menino! E animais burro vaca para acompanhar aconchegar – cabem cabemos todos aqui neste lugar…

Enquanto durava duro dura a luta de José de quem fala para ele só para não perturbar para não afligir desassossegar Maria menina já senhora redonda da Lua, e para o Mar não se assustar porque podia logo uma maré alta extravasar, Maria sabia e nada lá para fora dizia. Mas dizia dizia para dentro cá de dentro ao lindo vaso precioso muito valioso à Lua ao Mar ao Menino que esperassem que esperassem que faltava a meia noite chegar.

Maria sabia que Graça a pomba branca ia à meia noite chegar. Sabia que ela estava lá sempre no céu a olhar a velar a cuidar. Com as estrelas aquelas estrelas longe tão longe que não se veem que só dá para acreditar. E pronto.

E uma dessas estrelas andava agora sempre pertinho pelo ar a avisar. A avisar dos perigos que podiam correr ameaçar a Maria menina já senhora com o seu lindo precioso valioso vaso de conteúdo de nunca nunca perder se extraviar. Porque não deixa porque não quer porque não pode porque tem que salvar. Aquele Menino de vida lá dentro de reboliço brincalhão de vida de animação que brinca com a Lua e o Mar vem salvar. Salvar a vida da prisão da morte que não há. Não há prisão não há morte e ele vem para mostrar.

Por isso a estrela longínqua de lá de tão longe imenso que não dá para ver só para acreditar agora está cá para proteger avisar. Para avisar Maria Menina dos caminhos dos algozes carcereiros carrascos que os ainda há para que não perturbem não impeçam o Menino de cada vez mais deixar germinar. Primeiro a sementinha e agora a sementinha no Menino. E foi por isso que lá foram fugiram a calcorrear lá no burrito…

Porque Graça a pomba branca não parece mas está cá, e a estrela longínqua também cá está. E contam todas muitos segredos à Maria Menina do lindo vaso precioso muito valioso…

Outra noite há pouco tempo, a estrela contou à Maria Menina que lá em outras terras de muitas distâncias de percorrer, havia uns reis que sabiam que o Menino ia nascer – Graça a pomba branca e a estrela também falam com outras pessoas…!… – e que a estrela ia ter com eles para os orientar no caminho para chegar. Aquela estrela que só é longínqua invisível para quem não a vê – mesmo cá pertinho – ia mostrar o caminho aos reis que são três e são do oriente e são magos porque são mágicos porque conhecem se lembram das coisas da vida e de nascer renascer que, para muitos, são segredos. Para eles não. E lá foi a estrela lá foi ela a orientar.

Maria não receia não tem medo não se preocupa só se ocupa. Ocupa-se sem pré só com agora e com depois que é agora. Ocupa-se com o seu lindo vaso precioso muito valioso de conteúdo do Menino, da Lua e do Mar. Conversa com os três, e vai calada a conversar…

Ela sabe que saberá quando o Menino do seu lindo vaso se quiser soltar, com a Lua cheia toda redonda de luz e uma maré mais alta do Mar extravasar…

Por isso, quando José descobriu tão aliviado e contente aquele abrigozito de animais, Maria menina olhou não ficou aliviada mas também ficou contente muito muito muito contente…

Era é vai ser ali!!!… Pousada no alto do telhadinho e coroada pelo redondo círculo de luz da lua cheia lá e cá no céu e muito mais ainda pela luz da espiral que foi e é o seu caminho os seus caminhos, está Graça a pomba branca tão branca branquíssima. Levanta-se ergue as asas num voo rodopio a caber na luminosa espiral, e pousa de novo com asas abertas. É aqui! É agora! É para abrir…

E, num ímpeto numa explosão tranquila e forte de muitas tantas forças de natureza viva de vida que quer precisa por si ser, que está tempo tempo tanto tanto cada vez mais tanto à espera, abre-se o lindo vaso precioso muito valioso… e solta-se o seu conteúdo. Solta-se logo a Lua a mostrar cheia toda a sua luz que recebeu de dar e sobe sobe no ar até ao céu para mostrar e iluminar… Soltam-se as águas salgadas do Mar em marés muitas de encher e extravasar extravasar… e deslizam onduladas e brilhantes… sempre sempre…

E solta-se o Menino habituado de reboliço brincalhão de vida de animação contente de brincar e agora estupefacto da perda do aconchego do vaso da luz da Lua e das águas molhadas e mornas e salgadas do Mar… No ar! No ar! Está no ar e é preciso respirar…!! E quase instantaneamente mesmo logo na primeira inspiração de viver daquele Menino Vida, já mãe Maria senhora menina o abraça o segura o ampara o consola o aconchega juntinho ao seu corpo. E no ar o inunda molhado com as suas lágrimas salgadas da água habituada do Mar naquela explosão calma de alegria e de tanto sentir a fervilhar efervescente daquele amor que é todo o amor dos mundos todos e de todos os todos mais imensos ainda do que isso. Que é o amor da Graça pomba branca. Que é a vida. Que é o Natal.

Sempre a olhar para o céu para não perderem de vista a estrela longínqua que agora está cá pertinho e que os orienta e guia, os três Reis Magos do Oriente atravessam o deserto nos seus camelos. Esse deserto é uma praia plana imensa de areia branca e fina de Mar imenso a deslizar na areia a ir e a voltar e a ir e a voltar… e a espelhar nas suas águas de sal pouco onduladas quase quietas a só ondular devagarinho naquela ondulação daquele Mar… as luzes brilhantes a luzir tremeluzir das estrelas, a luz próxima e forte da sua estrela guia, e… a luz tranquila e redonda da Lua cheia!!??…

– Apressemo-nos! Depressa! Depressa! Voemos! O Menino nasceu!! – gritou um deles para anunciar avisar sem alarmar o que todos já tinham adivinhado compreendido: aquele Mar daquela praia de areia que era o deserto e aquela Lua cheia de luz de mostrar a espelhar vieram do lindo vaso valioso de Maria que já deixou soltou…

– O Menino nasceu!!

E os camelos, que sempre caminham sempre dignos de cabeças bem levantadas para o alto – mas isso é porque têm muita vontade de voar pelos céus só que os impedem não lhes permitem quase nunca nunca podem…!! – desta vez aproveitaram logo a deixa: alinharam-se atrás e a seguir à estrela de orientar guiar, e puseram-se logo logo a voar. Muito depressa voaram voaram voaram sobre a praia a terra o deserto e o mar, e em três instantes pararam o voo para chegar. Pararam, quando a estrela de guiar parou.

Aquele abrigozito pequeno antes deserto fervilha agora de festa forte grande de vida, luz e amor. Em cima, no telhado e mesmo por cima da entrada, mantém-se Graça a pomba branca de asas sempre abertas, a batê-las devagarinho de vez em vez em quando. Está envolta, e a casa e as pessoas da casa e os animais da casa também, na luz forte da espiral que é o caminho os caminhos do mundo de cima para baixo, e de baixo para cima. E espalha essa luz. Espalha espalha para todos os lados em todas as direções. A estrela guia que orienta que brilha forte já não se vê, porque se aproximou de Graça a pomba branca e se misturou naquela mesma luz da espiral…Mas sabemos que está lá!…

À volta da casa há pastores e rebanhos, e muita gente muita gente muita gente… Toda a gente toda toda está contagiada tão contagiada contagiadíssima de grande forte alegria feliz agraciada de viver. E há muitos anjos vozinhas que descem do céu… Ouve-se música linda de harmonia melodiosa a tocar…

Quando os três Reis Magos entram, extasiados de tanta magia de sentir e de tanta expetativa de ver e de sentir, deparam-se com este quadro: deitado na manjedoura sobre umas palhinhas está o Menino nu de coisas vestido de luz a irradiar a mãe Maria sentada ao lado a rir a chorar a agarrar a mão do Menino porque queria e não queria soltar, José vergado de pé aliviado contente e cansado a admirar, e uma vaca e um burrito prostrados um de cada lado a descansar a respirar a ofegar – para aquecer acalentar.

Perante tal cena tão humilde despojada pequena tão grande pujante de vida e de lição de mostrar aprender os Reis Magos, que eram ricos grandes e magos e que tinham vindo pelos céus no alto a voar, mas que compreendiam a natureza e a essência das coisas que são de verdade, atiraram-se caíram quase se colaram ao chão de terra daquela pobre cabana para respeitosamente venerar mostrar que sabiam conheciam reconheciam aquela magnitude grande daquela gente daquele lugar. E ofertaram àquele Menino dos mundos todos e da Verdade as coisas que traziam ouro, incenso e mirra para agradecer para reconhecer para simbolizar.

E é por isso que hoje nós fazemos presépios de reviver e festejamos em cada ano o aniversário do Menino o Natal: para agradecer para reconhecer para simbolizar. E para lembrar. Para lembrar que o Natal quer dizer vida a nascer e depois a crescer sempre a crescer e a nascer a renascer a cada vez outra vez… E, todos os dias e todas as noites, há sempre a Lua que se vê mais ou se vê menos ou às vezes não se vê, e também as estrelas no céu, e o Mar a espelhar a aproximar-se a juntar-se com essa Lua e essas estrelas sempre que a sua luz, ou distância, lho permitem. Maria menina já senhora continua sempre contente a brincar e a conversar muitas vezes com a Lua, com o Mar e com as estrelas. E com Graça a pomba branca. E gosta de encher o seu lindo vaso de espiral sempre precioso muito valioso com a água salgada do Mar, e faz nela espelhar a luz brilhante de receber e de dar da Lua, para a Lua vir também brincar e conversar. Quando isso acontece, têm sempre a companhia da amiga Graça a pomba branca, que anda sempre sempre longe e perto a voar a distribuir aquelas esferinhas bolinhas sementinhas para quem se quiser nascer renascer e crescer e cuidar de si e das outras coisas vidas lindas de viver.

 

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Adelina Maria Granado Andrês nasceu no norte do país e aí vive,  em vizinhança próxima com o mar de Gaia e pelo interior transmontano. É docente do ISCAP-P.Porto. Os seus interesses focam-se no pensamento e na obra de Agostinho da Silva e para além do ensaio, dedica-se a outros tipos de escrita, sendo autora de livros infantojuvenis, poesia e prosa poética.