ALGUMAS NOTAS SOBRE POESIA – por Celso Gomes

Certa feita, tomando um café no Odeon na Cinelândia, comprei um opúsculo de um poeta que passou vendendo seus livros artesanais. Em casa, li o pequeno caderno de poemas: um amontoado de versos malfeitos e sem sentido, mas bastante sinceros.

Aliás, é preciso acrescentar que todo poema medíocre é extremamente sincero e que toda grande poesia possui um fundo irredutível de falsificação, de mentiras, de astúcia. Faltava ao autor saber que poesia não é ornamentar a palavra, mas subtrair dela, de espremer dela, o seu maior silêncio. Ao final do livro, perguntei-me: porque falar tanto de si mesmo se nada foi perguntado? Depois, fiquei pensando acerca dos motivos que levam um sujeito a escrever versos, publicá-los e sair pelas ruas a vendê-los. Obviamente, não cheguei a nenhuma conclusão, apenas a algumas reflexões:

(I)

Paul Valery ensina que “os interesses do escritor e do leitor jamais são os mesmos e se ocasionalmente chegam a coincidir, trata-se de mero acaso.”

(II)

Os poetas mais novos creem que ser jovem é automaticamente ter talento e que o passado está morto e enterrado. No entanto, o passado não está necessariamente morto. Tampouco, deve ser demolido.

(III)

A memória é condição da poesia.

(IV)

Atualmente, os poetas conservadores manejam as palavras com mais cuidado que os engajados, pois são contestados, ou melhor, desafiados pela realidade, pelos acontecimentos e precisam, para aplacar a angústia que os consome, do refúgio da linguagem. Enquanto isso, os entusiastas das últimas gerações, com exceções é claro, recorrem às palavras com indiferença, tendo em vista que se acreditam portadores de uma chave que abre a porta do futuro, terminando por produzir obras sem o cinzel. Em suma, os mais novos, desprezam a linguagem; enquanto os conservadores retiram desse limo sua vingança contra a realidade que não os satisfaz.

(V)

Na verdade, tanto os últimos como os primeiros deveriam ter ciência que a linguagem jamais se deixa dominar, jamais se deixa submeter aos caprichos do poeta.

(VI)

A apuração de um estilo é o legado que o luxo dá ao fracasso.

(VII)

Donald “Don” Robert Perry Marquis, poeta e humorista estadunidense, disse em certa ocasião que escrever um livro de poemas é atirar uma rosa no “Grand Canyon” e ficar esperando pelo eco.

(VIII)

Que eco esperam os poetas que publicam seus versos em meios eletrônicos, ou em opúsculos como o que eu havia comprado, se toda ação concreta envolve dispêndio de energia e tempo, que poderia ser gasto de outra maneira?

(IX)

Sabemos que entre viver e escrever existe um hiato, que é preciso escolher entre viver e escrever, pois enquanto se escreve nada acontece. Nesse sentido, porque os poetas fizeram essa escolha, abrindo mão de momentos que poderiam ser mais bem aproveitados?

(X)

Há cerca de 2.000 leitores de poesia no Brasil – dizia Otto Lara Resende. Por esse motivo, o meio editorial brasileiro sacrificou a poesia em favor do lixo despejado nas livrarias: zumbis, vampiros e anjos; autoajuda; romances estrangeiros de qualidade duvidosa; etc. Todavia, contraditoriamente, o povo brasileiro ama seus poetas. A culpa é dos poetas pela parca quantidade de leitores?

Talvez.

Alguns são herméticos demais, lacônicos, outros rebuscados, outros ainda, concisos ao extremo.

O laconismo deve se resignar ao silêncio, se não se deseja cair no obscurantismo, ou melhor, na obscuridade, na profundidade falsamente enigmática; e toda concisão tende ao silêncio. Então, não é melhor silenciar de vez?

(XI)

Alguns poetas precisam entender que poesia requer inspiração, sensibilidade, mas não é só isso. Poesia é trabalho. Dizia Cora Coralina que o trabalho é fonte permanente da poesia. É lugar comum afirmar que arte é 99 % de transpiração e 1 % de inspiração.

(XII)

O grande poeta não é aquele que acerta, mas o que erra, aquele que busca.

(XIII)

Todavia, o grande poeta não deixa nada para improvisação ou para inspiração. Ele vigia as palavras, pesa-as. Ele jamais esquece que a linguagem é a única realidade.

(XIV)

O grande poeta é aquele que tenta, que não cumpre regras e cânones, que aposta no erro, que envereda por muitos caminhos, que falha, mas que sua para enfrentar o motivo de seu sofrimento, pois todo escritor sofre de algo que com a escrita ele enfrenta. Atormentado por uma memória prodigiosa, ele é incapaz de esquecer e essa incapacidade o torna imaginativo e doentio, levando-o, muitas vezes, a descer aos abismos dos remorsos, de construir seu espírito sobre essa tênue e sombria amurada. No entanto, suas falhas e erros servem para que outros escritores não percorram o mesmo caminho.

Ps. Godard é um exemplo de grande poeta, mas, por favor, jovens cineastas, não repisem seus passos.

(XV)

A literatura de um grande poeta, ensina Proust, é um instrumento ótico que nos ajuda a ver o mundo de uma forma que, sem ela, talvez não víssemos por nós mesmos.

(XVI)

Um grande poeta é um escritor triste e sua voz possui força para impor o silêncio, para semear tempestades e a qualidade de uma literatura se mede pela quantidade de miséria que forja em seus leitores.

(XVII)

No seu desejo de solidão, o grande poeta, como por exemplo, Gullar, “invade as ventas no limite do veneno”.

(XVIII)

É preciso entender que Drummond fala de um mundo sem deus; sobre o Ser; de um universo vazio de intenções, que não nos prometeu nada; de um cosmo frio e indiferente ao drama humano, quando diz: “Ah, chega de lamento e versos ditos / ao ouvido de alguém sem rosto e sem justiça, / ao ouvido do muro, / ao liso ouvido gotejante / de uma piscina que não sabe o tempo, e fia / seu tapete de água, distraída.”

(XIX)

Em nossa solidão cósmica, somos como o Universo reflete sobre si mesmo. Por isso somos raros e nenhum poema dará conta desse fato tão triste. No entanto, é preciso tentar, trilhar o Real que, em grande parte, está invisível aos nossos olhos.

(XX)

Quando se busca os grandes temas, o grande poema pode surgir necessariamente.

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Celso Gomes Silva é formado em Direito pela UFRJ; pós-graduado em Filosofia pelo Instituto de Filosofia e Teologia do Mosteiro de São Bento.  Nas décadas de 1970 e de 1980, participou de grupos de poetas alternativos, tais como o Núcleo Henfil de Cultura e poetas da UERJ. Em 2001, publicou o livro de contos infanto-juvenis O Lobisomem de Mantena; em 2002, uma pequena novela denominada Trilhas Urbana, ambientada no Rio de Janeiro na década de 1980; em 2007 Brusca Poesia; em 2017 o romance A gruta de Calipso; em 2024 publicou o livro Antipoesia e em 2025 o livro Retrato do Artista.