LA SENYORETA D’AVINYÓ – por Danyel Guerra

“Miró sentia a mão direita/demasiado sábia/
           e que de saber tanto/já não podia inventar nada”

 João Cabral de Melo  Neto

Barcelona frui e usufrui de uma ensolarada tarde de primavera  antecipada, em época do reinado de D. Carnestoltes*. Deambulando pelo capitoso Ensanche da cidade condal, Dirceu atravessa a Plaza de España e avista no Parc de Joan Miró, impante nos seus 22 metros de firme ereção, a escultura ‘Dona i Ocelli’.

A escassa distância do El Condón – foi assim que a priápica escultura se viu batizada pelo vulgo–, depara com uma inesperada performance. Uma jovem, abandonada a pétrea postura de mulher estátua, abre uma gaiola de onde se escapa, lépido, um passarinho. Gesto contínuo, ela arranca o hijab que lhe cobre, na totalidade, os cabelos cor de breu. 

Entre o surpreso e o enternecido, Di aproxima-se da chica e recorda-lhe que Leonardo da Vinci tinha o saudável hábito de comprar pássaros engaiolados para os livrar do cativeiro. Montserrat, nascida em Sitges, exuberando uma cútis rosácea, de solta cabeleira negra e expressão aquilina no olhar, é sincera. Luzindo um sorriso espontâneo nos lábios rubis, a estudante de Pintura confessa desconhecer o nobre ato do polímata toscano. Essa natural ignorância reveste o sortilégio de suscitar um clima de instantânea cordialidade no diálogo.    

É a sua primeira visita a Barcelona?, pergunta obviamente. Sim, é a minha estreia na cidade de Miró. A menina do pássaro liberado da prisão indaga, então, se ele conhece, na colina de Montjuic, a Fundació Joan Miró. Elevação que evoca como o mítico Mons Jovicus (Monte de Júpiter). Ainda não, mas quero conhecer, responde. Em Montjuïc  só visitei o Estádio Olímpico Luis Companys e o Poble Espanyol.

Mas não pode deixar de entrar no ninho de Joan, com a sua Fuente de Mercurio.  Mercurio, o deus mensageiro dos romanos? Não, a mensagem é outra. Venha comigo, serei sua graciosa cicerone.

Monty se revela uma guia competente e rigorosa, embora  não acompanhe o visitante até ao fim da deambulação. Alegando estar atrasada, se despede dele, grácil como uma náiade, precisamente junto a Fuente, concebida por Alexander Calder.

Tenho de me preparar para um compromisso, alega. Estou entendendo….um compromisso afetivo, afetuoso, certamente. Não, antes fosse. Compromisso profissional. Trabalho no bar Avignon, ao Carrer d’Avinyó. Se quiser, apareça por lá para tomar uma copa, desafia.

Esse Avignon é uma referência a cidade dos Papas em França?, questiona, um intrigado Dirceu. Você já ouviu falar de ‘Les Demoiselles de Avignon’ do Picasso, indaga Monty. Sim, já as avistei, a vol d’oiseau, ironiza. Bem, você não é obrigado a saber, mas nessa tela, Avignon é uma corruptela de Avinyó…

E Monty esvoaça célere, porta afora, dotada do aplomb das crineias helênicas.  Nem  dispõe de tempo para continuar a historiar, revelando, por exemplo, ter sido ‘O Bordel Filosófico’, o primeiro nome da obra pioneira do Cubismo, assim batizada  pelo poeta e crítico de arte Guillaume Apollinaire. Sim, esse mesmo, o autor de ‘Les Onze Mille Verges’.

Satisfazendo a mais curial das curiosidades, sempre revelarei que Dirceu não vai tomar a sugerida copa no Avignon. Embora o mereça, ele não foi ainda bafejado com o dom da ubiquidade. Nesta noite, tem passagem reservada num bus para Valencia, cidade onde o espera, sublinhe-se, um compromisso também profissional.

Recostado na poltrona do autopullman, redfones* assestados nos ouvidos, escutando a diva Victoria de Los Angeles cantando ‘La Paloma’, de Iradier,  Dirceu sente-se sacudido pelo mais agulhante dos arrependimentos. E assume uma pequena derrota. Caramba, bem que podia ter ficado com o endereço, o número de telefone da Monty. Agora, é tarde…

Quando a ansiedade arde, atiçada pelo fascínio de uma esfíngica figura, nunca é tarde. Para o viajante, a cicerone nem tem nada de guapa. Contudo, reconhece que sua dubiedade o encanta.  Na capital levantina, Di não vai adentrar no bojo da baleia ancorada na Ciutat de les Arts i les Ciències, riscada por Santiago Calatrava. E não porque receie ser engolido, como o Jonas bíblico, pelo cetáceo edifício. Quando o apelo da aventura galante não se Cala, nada nem ninguém o Trava. Despachado  o compromisso, o viajante cancela o roteiro de visitas, deglute apressado uma paella e pega o primeiro ônibus em direção a capital catalana, despedindo-se da Cidade da Areia dos ocupantes sarracenos, onde já se pressentem os preparativos para as apoteóticas Les Falles.

À chegada, sol no poente, sprinta para o Barri Gòtic, à Ciutat Vella, entregue a uma empolgação frenética por estarmos na véspera da Terça-feira Gorda. Sua meta é o Carrer d’Avinyó, em pleno Red Light District, onde luzem as pitorescas casas de barrets. Junto ao Casino Mercantil, o Bolsin, insta um mosso d’esquadra. Não, não conheço,e quase lhe posso garantir que nunca houve um bar com esse nome nesta zona.

A perseverança é virtude apanágio dos que acreditam, animados do robusto estoicismo do encantamnto. Dirceu não desiste e insiste na demanda. Nas imediações do nº 44, tem à sua mercê uma praticante do venéreo, perdão, venerável ofício. Quiçá uma sucedânea das zorrinhas da Ca la Mercè, putativas musas das demoiselles do “frio e egocêntrico” –na avaliação de Luís Buñuel-, malaguenho, cliente frequente da conspícua casa.

Bar Avignon?  Isso deve ficar para os lados da França, arrisca, cordial, a loura zorra, vestida a preceito de cor taronja*, sem assomo de convicção, denotando impreciso senso geográfico. Serpentinando entre os foliões, Didi prossegue a busca, entrando debalde nos bares com que depara, na expectativa de ver a fisionomia de Monty estampada nas faces alguma das garçonetes.    

No dia seguinte, coração derretido de ânsias e instâncias, Di dirige-se ao Parc Joan Miró. Pode ser que ela lá esteja, hirta e estática, admite. Porém, a única mulher-estátua que vislumbra é uma ruiva que, pertinaz, planta bananeira*. Sentindo-se dotado com as asas de um condor andino, ele voaria para o Montjuich e invadiria o ninho de Miró, regressando a ‘Mercury  Fountain’, se não fosse feriado de Carnestoltes.  

Garota, você é muito sapequinha*. Me passou um trote*, me pregou uma partida de Carnaval e eu cai direitinho, a gozação foi tão refinada que até inventou um bar com o espúrio nome Avignon, reitera o designer gráfico, ao mirar pela última vez o mural que Miró incrustou na fachada do terminal 2 do aeroporto El Prat. Se conseguir ser tão crédula como o passageiro, a aeronave que está prestes a decolar, também cairá direitinha, despencando desamparada das nuvens plúmbeas até ao solo. 

Uma profusão de nuvens desfilará no horizonte dos dias de Dirceu até esta tarde invernosa de novembro,  em que, no aconchego da sua casa, ele folheia diletante um livro de História da Arte Moderna. Abrindo o capítulo do Cubismo na Pintura, de imediato, a estupefação o submete, no torvelinho de um agudo estranhamento. Na ilustração da tela picassiana, la demoiselle postada mais à esquerda se mostra muito parecida com Montserrat, descontado o viés do traço caricatural da figura.

Parecida é apelido, meu caro. Visualizando essa imagem, fico com a certeza de que a Monty é uma fotocópia, uma duplicação, uma reprodução 3D, uma sósia, um clone, uma gêmea idêntica dessa senhorita. Se não for ela própria. Ainda que isenta das intervenções estilísticas do Picasso, que geometrificaram a morfologia da personagem , em especial o rostro.

Dirceu fica mesmo acreditando que essa xiqueta*, fugida, a exemplo do pássaro libertado, do quadro-gaiola, incorporou em Monty ou, pura e simplesmente, se materializou, na manifestação de um ato paranormal, por efeito do ectoplasma exsudado das entranhas de um medium.

E tão crédulo está da veracidade dessa epifania esotérica que pondera fazer uma visita a Nova Iorque, com o único objetivo de apreciar in loco no MoMa, a célebre tela. Desde que essa aventura não coincida com o tempo do reinado de MoMo. Ele acredita que uma nova teofania vai acontecer, que a arte do reencontro com a Senyoreta d’Avinyó será uma realidade tão palpável como apalpável.

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*Glossário:
Carnestoltes – Carnaval
Taranja – Laranja
Planta bananeira– Faz o pino
Sapequinha – Menina travessa
Trote – Brincadeira, partida
Xiqueta – Moça, menina

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Danyel Guerra (aka Danni Guerra) nasceu na cidade do Rio de Janeiro, Brasil. Tem uma licenciatura em História Universal da Infâmia pela FLUP. É jornalista nas horas (mal) pagas e autor literário nas horas com vagas.
Publicou os livros ‘Tomás Gonzaga-Em Busca da Musa Clio´’, ‘ Amor, Città Aperta’, ‘O Céu sobre Berlin’, ‘Excitações Klimtorianas’, ‘O Apojo das Ninfas’, ‘Oito e demy’, ‘Fernando de Barros-O Português do Cinemoda’ e ‘Os Homens da Minha Vida’.

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