POEMAS DE – Gisela G. Ramos Rosa

Newsfeed-Rhyming-Couplet by Corina Botton

“Comment interroger ce qui nous échappe aussitôt?”
 Bernard Noel

A António Ramos Rosa

Toda a presença vence os limites do corpo
tudo está por dentro, por detrás de quem olha.
Minucioso trabalho o da construção do poema foi o
que me transmitiste, lâmpada que se acende ao ritmo
do corpo das mãos como asas num vislumbre
que queima. Lá onde estás, não me perguntes se
escrevo e se me invento.
Resido para alguns no fim dos teus dedos como
se quisesse arrancar penas aos textos que
teceste. Embora me pergunte se choram em mim
os teus apelos ou se são réplicas de um feitiço
o que me deixaste, concebi um ninho de poemas
dentro de mim – Ítaca talvez seja o nome onde
teço o que sei para regressar e desteço lentamente
tudo o que aprendi para chegar enfim ao corpo inicial.

em A pedra e o corpo, (Poética edições, 2018)

♣♣♣

Abro as mãos e encontro as linhas
o espelho que me liga às tuas mãos.
Unimos os gestos ao ritmo de corpos
dobrados pelo silêncio que se interpõe
ao ruído do mundo.
O meu gesto e o teu abrem o mundo
com as mãos.

em O livro das mãos,
(Coisas de Ler edições, 2017)

♣♣♣

Y a Mí buscarme has en ti.
Santa Teresa de Ávila, in Seta de Fogo

Escrevo para sarar a asa ferida da origem
e num movimento de dança liberar o impulso
da imagem incompleta com afecto

venho a esta casa reconhecer o fogo onde

construo voos serenos que trago na percepção
dentro do espaço, um espelho de íntima sombra
na claridade de um instante

e porque à memória não devo o sacrilégio
do fogo roubado, encontro a flor inesperada
da montanha no momento em que tudo se toca

ainda que na outra asa surja a cumplicidade
dos pássaros embriagados pelo fogo da rota
as mãos abrem e sagram o invólucro branco
que me guarda.

em O livro das mãos,
(Coisas de Ler edições, 2017)

♦♦♦

 

Gisela Gracias Ramos Rosa – Poeta portuguesa nascida em Moçambique, autora de cinco livros, entre os quais “O livro das mãos”, ao qual foi atribuído o Prémio Glória de Sant’Anna 2018 (prémio ganho pela segunda vez, a primeira em 2014 com o livro “Tradução das manhãs”).
Foi ainda nomeada na lista de semifinalistas do Prémio Oceanos 2018.
O seu mais recente livro tem o título A pedra e o corpo (2018).

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