O ULTIMO SORRISO DE BEATRIZ- POR GISELDA LEIRNER

© Noronha da Costa

O ÚLTIMO SORRISO DE BEATRIZ

Meu primeiro dia de aula. O anfiteatro estava cheio. Era um pequeno espaço ocupado por cadeiras móveis e  ruidosas. Um palco ocupava grande parte da sala dividida em dois grupos por uma passarela que alcançava a porta de entrada e saída. Os alunos inquietos, procuravam se acomodar, prestando pouca atenção ás palavras do Diretor.

Só se fez silêncio quando uma jovem começou a caminhar pela passarela. Seus passos eram leves, deslizava  na  primeira demonstração de como uma atriz deve se mover. O vestido  de seda transparente ondulava em seu corpo  com as estampas que pareciam cobras lilases movimentando-se dos seios até os pés descalços, como se caminhasse sobre estrelas.

O mutismo na sala era  grande, de respiração contida.  O aspecto era o de uma aparição.

Nenhum dos requebros de quadris ou caretas que costumávamos ver nos desfiles de moda ao qual assistíamos as vezes na televisão,  onde as mulheres eram bonecas desconjuntadas andando ao ritmo de algum mando superior que as transformava em manequins.

Neste momento algo acontecia de indefinível. Um delicado sorriso de olhos nos acompanhava. Do alto um faixo de luz rósea a seguia. Não a conhecíamos, só sabíamos seu nome. Beatriz.

Ao sair da aula, atordoado ainda, encontrei-me repentinamente só.

Tinha vindo de táxi e  não prestara atenção ao caminho pelo qual viera, nem me recordava  o nome da rua. A escola estava fechada, as luzes apagadas, só pude ver a única coisa da qual ainda me lembrava. “Studio 44, Cursos de Teatro”. Comecei a andar sem saber para onde ia, e quanto mais caminhava, mais sentia o horror de me encontrar perdido. As ruelas transformadas em  imundos  becos sem calçada, engoliam-me em sua  lama e lixo. Por toda parte  casebres construídos  em  pedaços de madeira batida a pregos, sustentavam  telhados de lataria ruidosa  pela chuva que começava a respingar. Não havia ninguém, nem criança nem cachorro. Corri para onde  pareceu vislumbrar-se uma avenida.

Era realmente uma avenida, porém deserta. Fiquei parado em um ponto de ônibus e como não via  nenhum ,  estando já quase escuro, comecei a andar pela avenida a cima. Andava rapidamente, meus pés doíam.

De repente vi um táxi parar numa das transversais, e sai correndo em sua direção. O motorista saiu do carro de onde desceu uma mulher, e em vez de ser ela a pagar, foi ele que lhe entregou  umas notas, e  entrando no carro sem atender aos meus apelos, deu partida rapidamente.

Cheguei até à mulher que, pelo desalinho das roupas e da maquiagem borrada deduzi ser uma prostituta. Perguntei  o nome da rua em que estávamos e ela apontou para um alto muro que percorria a avenida de onde eu tinha vindo aos brados. Era o começo de um cemitério que, imenso, disse-me, iria terminar no começo de um outro cemitério que, este sim, eu conhecia.

Era tão longo o caminho de um cemitério ao outro que  senti-me desanimado. Não deixei de andar, sempre procurando ver se passava um táxi ou ônibus. Só carros em alta velocidade com os faróis acesos. Já era noite, e a chuva se transformara em garoa.

Arrastava os pés que me matavam de dor e sentia um peso no peito que ia me apertando à medida que a  avenida ia subindo.

Parei para descansar por alguns minutos, sentei-me no chão, encostando-me no paredão do cemitério que parecia nunca acabar.

Pensei em meu quarto de estudante como se fosse o Paraíso. Lá onde teria que chegar.  Era só o que queria. Chegar em casa, e poder pensar em Beatriz, deitado, agasalhado sob as cobertas.

Tiritava de frio e medo quando comecei a perceber carros de polícia que se dirigiam pela avenida acima, luzes vermelhas piscando.

Eram seguidos por maior número de carros de bombeiros, desta vez mais ansiosos, com suas gritantes sirenes. No céu uma revoada de barulhentos helicópteros acompanhava todo este movimento. Algo passava, e na rua  sem gente, só os reflexos vermelhos e agudos  pipocavam no chão molhado.

Ouvi ao longe um ruído como bombas de S. João. Não era época para bombas juninas, nem trovões, pois a chuva já amainara. Não conseguia pensar em nada além de minha dor no corpo e na vontade de estar em casa. Voltei a caminhar. Não sei quanto tempo, até que cheguei ao cemitério conhecido . Este, imenso, eu conhecia bem, com suas barracas de plantas e flores. Estavam fechadas.  Chegando ao enorme portão de entrada,  pude ver as árvores lá dentro que nesta época do ano estavam cobertas de roxo e rosa.

Continuei andando, já menos preocupado apesar do barulho das sirenes e do silêncio humano povoado pelas almas silenciosas.

Vi ao longe, pregado na  parede do cemitério, um papel  iluminado pelo reflexo de um dos poucos lampiões de rua. Corri até ele como se fosse ali encontrar algo que me tivesse sido confiado. Só a mim. Era uma carta:

Meu querido, pavio e luzeiro de todas as artes. Você se foi, mas eu continuo  esperando. Sempre. Você morreu numa sexta feira, decimo filho de uma pobre mãe. Sempre em exílio não importa onde estivesse, te acompanhei. Teu trabalho foi  lei, e a  independência  teu destino,  apesar de todas as imposições da vida. Te conheci menino, mais velho  que eu. Os olhos escuros iluminados pela luz de uma vela, você cobrava entradas para um espetáculo no fundo do sombrio quintal vizinho a minha casa.

Para o espetáculo íamos de coração e emoção suspensos em expectativa,  sentávamos no chão, e aguardávamos ao escurecer o desenrolar das cenas mágicas que veríamos através das janelas recortadas de um castelo de papelão

O que dizer das paixões,  crimes, das falsidades e cortesias, das intrigas tão bem armadas. Nunca mais vi outras historias tão ricas em detalhes como estas que sonhei em frente a um pedaço de papelão e cola,  um menino de olhos escuros e uma vela na mão.

Meu menino, você  não pediu nada, nada esperou, e tudo aceitou. De você recebi a Revelação. Por isso não morreu. Eu estou aqui esperando por nosso reencontro.

Beatriz

Depois de ler e reler a carta,  queria  guardá-la para mim, mas não tive coragem.

Achei que era minha e continuo achando. Na verdade não precisava mais dela, pois meu coração tornara-se leve , e no caminho para casa não sentia mais dor nem aflição Só restou o verso de um soneto que me acompanhou até meu quarto, e que  debaixo dos cobertores continuei a sussurrar até adormecer.

não há tão fiel paixão
que ilesa o tempo atravesse;
só aquele amor permanece
que de si próprio é a razão.

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Giselda Leirner (São Paulo, SP, 1928). Desenhista, pintora, gravadora e escritora. Estuda pintura e desenho com Yolanda Mohaly (1909-1978), de 1942 a 1945. Em 1946, assiste a cursos e oficinas em The Art Students League [Liga dos Estudantes de Arte], em Nova York. No Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (Masp), em 1948, participa do ateliê de gravura, com a orientação de Poty Lazzarotto (1924-1998). Em 1958, tem aulas de pintura com Di Cavalcanti (1897-1976) e faz sua primeira exposição individual de desenhos e gravuras na Galeria Ambiente, em São Paulo. No ano seguinte, mostra suas pinturas na Galeria de Arte das Folhas, na mesma cidade. Retorna a Nova York, estuda artes gráficas na Parsons School of Design de 1964 a 1965. Viaja para Paris, onde frequenta o curso de sociologia da arte do sociólogo Pierre Francastel (1905-1970), em 1968. Ganha o prêmio de melhor desenhista de 1977 da Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA). Participa da 2ª e 3ª Bienal Internacional de São Paulo, da exposição Tradição e Ruptura, na Fundação Bienal, do 3º, 9º e 12º Panorama da Arte Atual Brasileira, no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM/SP), e expõe também no exterior. A Pinacoteca do Estado de São Paulo (Pesp) faz uma retrospectiva do trabalho de Giselda, em 1994. Dois anos depois, o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM/RJ), mostra trabalhos produzidos a partir de 1980.

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