PEQUENOS CONTOS DE JAIME VAZ BRASIL

© Yang Cao, sem título

A Arte de Conquistar o Mundo

O exército do país A invadiu o país B. Morreram muitas pessoas nos dois lados. O país A, apesar de enfraquecido com as baixas, venceu. Mesmo debilitado, percebeu que amedrontara o país C, e isso o impeliu a invadi-lo. Outras mortes, mas a coragem já superava qualquer dificuldade. Pôs abaixo o país D. Mal terminaram a comemoração regada a vinho, tomaram posse do país E. Até que um dia, seus poucos soldados não contiveram o exército de meia dúzia de esfomeados do país Y que, a exemplo de J. Pinto Fernandes, não estava na história, mas aproveitou a situação e tomou posse com paus, pedras e pelegaços.

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Infidelidade

Derrubou a porta com um machado recém-adquirido, junto com outros instrumentos cirúrgicos. Depois, golpeou a esposa na cabeça, no pescoço e cinco vezes no ventre. Gritava toma aqui no ventre livre, toma puta desgraçada, goza aqui no ferro, goza aqui. Só parou quando a força abandonou o braço. Aí, sentou pra esperar a polícia. O machado sobre o colo. As facas e outros apetrechos nem chegou a usar. O corpo dela ficou num estado tal que até os caras do IML se horrorizaram. A caminho da delegacia, ele repetindo: legítima defesa, legítima defesa.

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            Educação Continuada

Não me faz passar vergonha. Já disse que não te trago mais no super. Já disse que não. Em casa tu vai ver. Não adianta chorar. Pára com isso, guri. Ah, mas tu me paga. Pára com isso, já te disse. Não vou te dar e pronto. Que coisa mais irritante, não é não, não dá pra entender? Levanta daí. Tu ainda não me viste braba. Não adianta espernear. Tá todo mundo olhando, pára com isso. Desta vez não adianta, não vai levar. Levanta duma vez. Vamos ligeiro com isso, chega de cena. Cala essa boca. Pode ir parando. Já te disse que não e não vou repetir, que coisa mais impossível, isso. Tá bem, leva. Mas só dessa vez.

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            A Invenção da Literatura

Sempre escreveu torto em linhas retas. Criou a primeira dissidência literária do Senhor. Fez escola. Os seguidores fizeram uma igrejinha em homenagem a ele, o torto. Depois, grupos rivais fizeram outra dissidência e com isso outra igrejinha. E outra e outra e mais outra e assim em todos os tempos e em todos os lugares. Hoje nem lembram ou nem citam o nome do torto que iniciou tudo. Escola gerando escola. Tanto foi que a literatura virou essa coisa do demônio.

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O Bilhete

Na cama, o corpo dele estirado. Duro, mais morto do que se pudesse calcular. Ao lado, o vidro de comprimidos quase vazio, com a tampa aberta. Na mesinha de cabeceira, o bilhete: “Desculpa, amor. Não foi culpa sua”.

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A Mão

Tanta raiva, mas tanta, e por tanto tempo, que era até previsível… O soco com toda a força, a força represada em anos e anos. Olhou para a cara da mãe e disparou a mola do braço. O punho foi com toda a gana. A mão desviou na hora e se quebrou toda na parede. A mãe, chorando, levou o filho por hospital. No táxi, o filho deitou a cabeça no colo dela. Os dois acarinharam aquela mão absurda.

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Banho

Quando fui tomar banho, a calcinha da mana tava pendurada no box. Foi que foi, mas não me agüentei: esfreguei na cara, lambi bem no ponto, esfreguei na língua, na boca, aquilo foi indo, nunca meu pau ficou tão duro assim. Com a esquerda esfregando a calcinha na boca e com a direita tocando uma muito a valer, uma muito intensa naquela chuva morna que me caía por cima. Depois que saí do banho, ela reclamou não sei de quê. Daí eu me descontrolei e disse um monte de palavrão pra ela. Se ninguém entendeu aquilo tudo, muito menos eu.

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O Gigante

Quando teu pai chegar, tu vai ver o que é bom. Nunca fiquei sabendo o que era bom, no caso. Só lembro que, a cada vez que ouvia as ameaças, o pai ficava vinte centímetros mais alto. Bem depois, na adultez, quando tentei conversar, eu seguia pequeno e ele já estava com oito metros de altura e não me ouvia. Só se eu falasse muito alto. Era tarde.

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Tia

Estradinha de terra entre uma fazenda e outra. Eu e a tia indo pro churrasco. Só nós dois no carro. Ela, casada com um irmão do pai, era uma velha de trinta, acho eu. Ela disse: quinze anos e dirige melhor que muito homem que eu conheço! Eu, tímido que dava pena, dei um risinho quase invisível. E segui: olho na estrada, braço é braço. Ela: como o futebol ta te fazendo bem… olha essas pernas! Eu, firme no volante, querendo impressionar. Ela: mas como tu vai rápido, lindo! Deve conhecer cada curva dessa estrada. Olha aquela sombra de eucaliptos ali, que coisa mais linda! Eu fiz força e consegui dizer: é mesmo! Ela: esse churrasco do teu avô deve demorar pra sair, nem precisa ir tão ligeiro… Eu não entendi nada, na época. Lembrando disso, hoje só digo: puta merda.

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O Segredo do Patricarca

Janeiro de uma seca bárbara. Os campos todos rachados, lavouras arruinadas, gado que era só osso. No leito de morte, o patriarca adiava o momento de partir até que todos estivessem juntos, para ouvir dele mesmo. Em dois dias, todos chegaram. Era chegada a hora da revelação. Sempre houve muito boato no povoado sobre os patacões de ouro do velho. Época de revoluções, não era raro enterrarem panelas grandes, com moedas até a borda. No caso dele, sempre diziam que ele tinha muitas dessas panelas enterradas. Decerto era isso que o patriarca queria contar na presença de todos os filhos, para evitar que algum mais ligeiro abocanhasse o ouro. Todos ali, em silêncio, e o velho começou a falar. Mas o patriarca gostava de contar tudo com detalhes e minúcias. E aí, tantos prolegômenos na história que o diabo do patriarca morreu antes de contar o tal segredo salvador. Que enterro seco, aquele. Nenhuma lágrima.

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Infernos

O casamento andava aos pedaços. Ele, um bruto e cachaceiro. Ela, doente dos nervos e mãe de quatro filhos. Logo que nasceu o terceiro, ela teve umas complicações na cabeça e não se endireitou mais. Um dia subiu na árvore dos enforcados o mais alto que conseguiu. E se atirou de ponta a cabeça. Ficou tetraplégica. No hospital, o marido engravidou-a. Esta não é uma história de ficção, o que é o pior de tudo.

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Quando o Futuro Chegar, Passou

Aos noventa anos, o velho Gonçalo exibia aos mais próximos um extrato bancário, repetindo as privações todas para conseguir aquele montante, o sacrifício que fez para juntar a dinheirama que não era pouca. A história era sempre a mesma: depois do jantar, ele dizia: quero mostrar uma coisa para vocês. Buscava o tal extrato no esconderijo e soltava a falação. Terminava o discurso dizendo que estava guardando o dinheiro para gastar no futuro. E nós pensávamos: bicho que foge ou nunca chega, esse futuro. E ele guardava de novo o extrato, como quisesse atrasar esse tal de futuro.

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O Último Desejo de Eugênio Alencastro

Quando Eugênio Moreira Alencastro morreu, depois de definhar lentamente, acharam um bilhete com seu último desejo: não queria ser enterrado. Pedia para ser exposto em um poste de esquina, na praça principal, pendurado pelas orelhas. Vereadores questionaram a legalidade do pedido, quando o Coronel Vicente de Paiva Guimarães interrompeu:

– Era meu amigo. Vai ser como ele quis.

O bilhete continha um adendo: o velho Eugênio queria também um pelotão de carabineiros ao redor do poste, para alvejar os abutres e outros rapinantes que porventura viessem a comer-lhe a carne. E assim se fez. Durante vários dias, os soldados vigiaram o corpo. Dois urubus foram assassinados.

As pessoas do lugar dividiam-se quanto às opiniões a respeito do último desejo de Eugênio Alencastro. A princípio, olhavam-no de revés, como se curiosidade fosse pecado. Depois, já transitavam por ali com naturalidade e, apesar do mau cheiro, chegavam a conversar perto dele.

Certo dia, um dos soldados cansou daquilo e acabou dando um tiro no morto.

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Momentos Depois

Depois que enterraram o comendador, a multidão foi se esparramando entre os túmulos até desaparecer portão afora, mal escondendo a pressa logo ao entrar nos carros. Até porque caía uma chuvinha miúda e enjoada. O político que fez discurso na tampa do caixão aproveitou o clichê para dizer que até Deus estava chorando a morte daquele homem insubstituível. Depois que saiu todos os humanos sensíveis e chorosos, o cachorro do comendador se deitou sobre a lápide e ali ficou, sem pressa nenhuma, com o olhar se esticando pro nada e o focinho no chão. Para sempre.

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A Caixa das Verdades

Ele dizia que comprou de um velho sábio, a tal caixa das verdades. Parece que pagou os olhos da cara. Mostrava a caixa e o conteúdo aos amigos, depois de esgrimar discursos e dialéticas com quem quer que ousasse. Abria a caixa ritualisticamente, e deitava o verbo. No início, pela novidade, a casa vivia repleta. Não demorou para que ninguém mais aparecesse. Viveram sozinhos. Ele, a caixa e o conteúdo. No final dos tempos, conseguir vender a tal caixa, fazendo-se passar por um velho sábio.

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Jaime Vaz Brasil – Poeta gaúcho, com 7 livros públicados e vários prêmios, dentre os quais: Açorianos, Felipe d’Oliveira e Casa de Las Americas (finalista). Atua também como compositor, tendo vários poemas musicados e interpretados por vários parceiros, dentre os quais Ricardo Freire, Flávio Brasil, Zé Alexandre Gomes, Nilton Júnior, Vitor Ramil e Pery Souza.

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