A POESIA DE Tito Leite

 

 

 

 

 

 

 

 

 

CONFLITOS

Eu habitava comigo
como se a sonoridade do meu nome
fosse um origami
na aurora de cedro.

Eu me perdera de mim
como se a queda
fosse de mármore
e no bem que ganhara
perdesse a direção.

A curva.
O baque,
o presságio
de uma ilusão.

Era de granizo
a procela que feriu
e depois partiu.

Era poético
o corpo que suportou
e depois metaforizou.

Era um sabre
no bolso a vontade
de qualquer estrada
que desaponte
as evidências,
como se na letargia
dos céticos, pudesse
acordar sem acreditar
na fealdade
dos porões bestiais

TRANSITÓRIO

1

No imo
da Avenida
Paulista
o sulfato

da solidão,
uma quimera
nos pega
pelas mãos.

Corremos
loucos
em busca
de uma coroa
de louros.

Pódio
deteriorado
e sem
medalha
de ouro.

Ausência
de eternidade
nos olhos
curtos de cada
passante.

2

STRAVINSKY

A vida, ainda que hercúlea,
é estreita: não há iluminuras
sem o extermínio de uma estrela.

Em cada ode, o poeta canta
uma morte: como quem recria
uma semente de alegria
no recreio dos segregados.

Rosa primavera sacrificada.
Queremos o insonhável:
a sagração do juízo inicial.

 

AZUL INAUGURAL

O óbvio tem folhas
de chumbo — o vento
me respira como faca.

Na pimenteira do novo
me queimo
por dentro.

Quero na boca
o óleo árido
das palavras
que não sangraram.

As rosas solitárias
do ocaso em busca
do odor do sol.

O meu vazio traduzido
em pássaros
póstumos.

Descobrir as rodas
do invento é a maçã
do Éden para
os poetas.

HOMO INCURVATUS

Retorno de um sonho com a nona sinfonia na cabeça.
O peso da manhã coloca uma lápide
[no esplendor das estrelas.
É um crepúsculo o mistério que me encerra.
Fibras de aço deliram as entranhas dos deuses.
Falsete (inglório) de um banquete no escuro —
a harpa e o pássaro — amolo o absurdo.
No caniço, uma liberdade titânica:
a dúvida completa os cardumes do fogo.
Poderes em contingência metálica —
[o Estado é um cão bipolar
sua termodinâmica encurva minha alma.
A voz de uma criança uma oitava mais alta:
extático, derrubo o muro da separação.
Com andarilhos, aprendi a arrancar pedras de temporais
pilho ventos de um campo de girassóis
corto serpentes na imensidão do vácuo.
Descalço algemas — para a pátria sou cético.
Em essência a fumaça do incenso é o perfume de Deus
o deserto — solidão das pétalas —
grafa minhas digitais na loteria da viagem.

♦♦♦

Tito Leite (Cícero Leilton) nasceu em Aurora/CE (1980). É autor do livro de poemas Digitais do Caos (Selo edith, 2016). É poeta e monge, mestre em Filosofia pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. É curador da revista gueto. Tem poemas publicados em revistas impressas e digitais.

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