ANTERO DE QUENTAL EM VILA DO CONDE – por Cecília Barreira

Casa de Antero de Quental, em Vila do Conde, actual Centro de Estudos Anterianos. Foto obtida do site da CMVC.

«Uma classe nunca pode ser um apóstolo: é simplesmente um elemento, uma força, cujo acto é determinado pela energia inicial. O que dará a democracia? Quem poderá di-lo. É o escópulo onde até hoje têm naufragado todas as sociedades.»

         Carta a Fernando Leal, 8 de Fevereiro de 1888.

A importância de se ter reunido toda a correspondência de Antero de Quental com proveniência de Vila do Conde não constitui apenas um esforço de reordenação que muito vem facilitar a tarefa de pesquisa aos historiadores da cultura portuguesa oitocentista: é também uma oportunidade de se assistir ao desenrolar das dúvidas, da descrença, do pessimismo anterianos ao longo de dez anos (1881 a 1891), os últimos da sua não muito vasta existência.

Um progressivo alheamento da vida pública, um desinteresse, uma desilusão funda e cerrada que o parlamentarismo rotativista da Regeneração lhe sugestionava, estiveram na origem do «exílio» de Antero em Vila do Conde, no qual reencontraria, nos longos passeios à beira-mar, aquela paz de espírito, aquela serenidade que a proximidade das lides políticas não lhe transmitiam.

As cartas deste período são especialmente elucidativas do eremitismo do autor: não que Antero se esquivasse à militância cívica indiferente à sorte do País, estranhamente absorvido pelas actividades do espírito. Sofria, e sofria profundissimamente com a inabilidade e a sofreguidão de poder demonstrados pela classe política lusa. Mas, a descrença leva-o a recusar por várias vezes (e citamos apenas um dos exemplos mais significativos) a participação na Liga Patriótica do Norte após os insucessos do Ultimatum inglês de 1890. E se acaba por condescender, presidindo aos trabalhos da Liga, é ainda no rasto das afirmações que proferira numa carta ao Conde de Resende, um dos organizadores:

«Sou dos que pensam que o tratado é muito desfavorável para Portugal, mas quer-me parecer que, no actual estado interno e externo das coisas, nunca poderia ser muito melhor, fizesse-o quem o fizesse. O que é, em todo o caso, positivo é que ele há-de ser aprovado pelas câmaras e que a questão deixou, pelas nossas grandes desculpas, de ser uma questão nacional, para se transformar numa questão política. Nestes termos, os meetings que se fizeram tomarão fatalmente um carácter faccioso de oposição, e ninguém, dentro ou fora do País, os considerará como pura expressão do sentimento nacional.» (1)

E terminava nestes termos:

“Por este motivo, não tomarei parte em manifestações, quaisquer que elas sejam, relativas a esse facto, considerando-me na minha completa impotência para alterar o curso necessário da decadência de Portugal, como perfeitamente irresponsável.» (2)

“Curso necessário da decadência de Portugal», dizia Antero. Onde o entusiástico e confiante revolucionário das Odes Modernas? Questionamos mais: que conduziu Antero a renunciar em si próprio o autor das Odes? Não avaliamos mal nem sequer exageramos. Oiçamos a palavra de Antero a Tommaso Cannizzaro, que traduzimos do francês:     .

«Visto que tendes ainda vontade de ler qualquer coisa da minha autoria, mando-vos as Odes Modernas. Duvido que lhe agradem muito. Para mim, este livro deixou, desde há muito tempo, de me agradar. Esta poesia de combate, revolucionária e declamatória, parece-me agora um género falso. A minha única desculpa é que eu tinha 23 anos quando publiquei este livro, era absolutamente sincero e nele depositei toda a fé e paixão que embriagavam então a minha juventude e alguma parte (a melhor) da geração à qual pertencia.» (3)

Em contrapartida, o budismo e certas teorias espiritualistas ocupavam-lhe com alguma persistência os interesses, os lazeres. É desta época que se publicam na Revista de Portugal, dirigida por Eça de Queiroz, as «Tendências gerais de filosofia na segunda metade do século XIX», onde se mostra permeável às novas filosofias que poderiam, em revolta contra o cientifismo positivista, forjar um novo espiritualismo. Na correspondência refere várias vezes a teoria do inconsciente de Hartmann. E fala em dissolução, em período apocalíptico: uma era de Renascença substituir-se-ia à era de dissolvência moral e intelectual que lhe era contemporânea. Antero reafirmava: o pessimismo não poderia nunca constituir um caminho. E continuava a deambular entre o cepticismo mais fundo, numa veia depressiva que nunca o abandonaria, e a esperança num mundo melhor, liberto das peias da opressão e da mediocridade.

Num homem deposita fielmente as esperanças, os anseios, as certezas a fim de libertar Portugal, a fim de, pelo menos, o aliviar dos males mais insanáveis e ameaçadores. Um homem defende contra os ataques vibrantes de que era alvo por diversas forças partidárias: trata-se de Oliveira Martins, um dos maiores amigos, uma das lendas que em si próprio alimentou para nunca (felizmente aliás) lhe assistir ao insucesso governativo, já nos anos noventa do século.

Um homem que representava, aos seus olhos, o que de melhor a sua geração produzira e acalentara. Na iminência da sua entrada para o partido progressista, em 1885, Antero defende-o em absoluto. Em carta a Sebastião da Costa Botelho, dizia:

«Mando-te esses números ‘Província’ para veres o carácter imponente que teve a manifestação do Porto e o tom a que 0. Martins tem sabido levantar o Progressismo, que tão desafinado andava. Verás também que ele não renegou, nem se desdiz. A bandeira que desfralda é a do Socialismo, como até aqui.» (4) Um outro receio lhe turvava o espírito: a proclamação da República a qual, no seu entendimento, não só não remediaria os grandes males nacionais, mas; acarretaria a desordem e a crise social. Mas será que Antero era monárquico?

Não é tanto a forma de regime que o preocupa, mas a maneira como se exerceria a liderança política, na honestidade e lisura dos métodos, na lealdade de intenções. Ainda o Socialismo, enquanto sistema ideal, sai reforçado na opinião de Antero. Um socialismo quase moral, ascético, purificador.

A correspondência de Antero em Vila do Conde é um rico manancial de análise para os leitores que se interessam pelo século XIX português. Mas também um modo de se acompanhar os derradeiros anos da vida de Antero, de o seguirmos nas suas esperanças, desesperanças e quebrantos.

 

                                                                                                                    ©Lourdes Ximenes

NOTAS
(1) Antero de Quental, Carta ao Conde de Resende, datada de 1880, in Cartas de Vila do Conde, de Antero de Quental , com introdução, organização e notas de Ana Maria de Almeida Martins, Porto, Lello & Irmão, pp. 324/325.
(2) lbldem, op. cit., p. 326.

(3) Antero de Quental, «Carta a Tommaso Cannizzaro», datada de 6 de Agosto de 1883, op. cit., p.74.

(4) Antero de Quental, «Carta a Sebastião d' Arruda da Costa Botelho», datada de I de Agosto de 1885, op. cit., p. 124.

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Cecília Barreira nasceu em Lisboa, licenciou se em História na Faculdade de Letras de Lisboa e entrou como assistente estagiária na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, nos anos 80.  Em 1991 defendeu doutoramento na FCSH e em 1999 agregou se em Cultura Portuguesa Contemporânea. É autora de muitos ensaios  sobre figuras do pensamento contemporâneo. Escreve poesia como hobby. Pertence ao CHAM-Centro de Humanidades como Investigadora Integrada.

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