MULHERES NAS RUAS DO PORTO (III)- por César Santos Silva

Ana Plácido (Rua de)

Início – Monte de Campanhã (Rua do)
Fim – Cul de Sac
Freguesia de: Campanhã
Designação desde – 2006

Uma pequena artéria, que na nossa opinião, não honra a memória de Ana Plácido, já que se encontra “perdida”, na freguesia de Campanhã, que como se sabe não fazia parte das itinerâncias da talentosa companheira de Camilo Castelo Branco.

Ana Plácido

Ana Augusta Plácido (1831-1895) era filha de António José Plácido Braga e de Ana Augusta Vieira, nasceu no Porto, na Praça Nova, actual Praça da Liberdade, no dia 27 de Setembro de 1831.

Filha da burguesia portuense, ainda que a sua família vivesse com algumas dificuldades, Ana Plácido estaria condenada a uma existência banal e vulgar, se não se tivesse cruzado com  Camilo Castelo Branco.

Ana era uma mulher culta, mundana, com prosa elegante, dada às questões do espírito e era a musa de uma série de candidatos a românticos, muito ao gosto da época.

Mas esta mulher vai tornar-se alvo da chacota popular, motivo da ira de uma burguesia que se regia por códigos  morais conservadores, onde a hipocrisia era estimulada através do velho código de públicas virtudes, eivadas de vícios privados.

Tudo isto porque Ana Plácido se vai revoltar  contra a moral puritana do seu tempo ao deixar-se levar pelo coração, trocando o marido, Pinheiro Alves, pelo fogoso e genial Camilo Castelo Branco.

Ana e a família viviam uma existência de média burguesia na Rua do Almada, nº 28.

Perante a lenta decadência económica da família, Ana é aconselhada a casar com o pacato comerciante, que tal como ela, era morador na Rua do Almada, no Porto.

Em 1850, com 19 anos de idade, Ana Plácido casa com Manuel Pinheiro Alves, “Brasileiro“ de torna viagem, possuidor de uma fortuna considerável.

Visto a diferença de idade entre ambos ser de 24 anos, é de considerar que o casamento fosse de conveniência, o que à época era muito comum….

Em 1852, seu pai, António Plácido Braga morre no desastre do vapor “ Porto”,  junto à Foz do Douro.

Camilo e Ana conheceram-se em meados de 1855 e logo a paixão se instalou nas almas daquelas duas criaturas, que se vão tornar amantes e fazer parte dos escândalos da cidade, uma vez que a ligação adúltera era do domínio público.

Manuel Pinheiro Alves é instigado pelos seus pares comerciantes a denunciar às autoridades o adultério da mulher, o que acabou por suceder. Ambos os amantes foram  presos na Cadeia da Relação, sendo-lhes levantado um processo-crime, ao abrigo do artigo nº  401, que penalizava situações semelhantes, com pena de degredo para a adúltera, e de prisão para o adúltero.

Depois de peripécias várias e com a conivência do pai do escritor Eça de Queiroz, que era juiz na Comarca do Porto, o casal vai ser absolvido, aquando do julgamento que aconteceu na então Travessa da Fábrica, actual Praça de Filipa de Lencastre.

Ana Plácido, quando foi presa, começou a colaborar com os jornais da época, e para eles escreveu artigos. Os leitores dos periódicos como “ O Nacional”, “ O Futuro”, entre outros, são testemunhas da veia literária de Ana Plácido.

Muitas vezes tinha que esconder o seu nome atrás de iniciais, para dissimular o facto de ser mulher e ser quem era…

Entretanto, Pinheiro Alves faleceu e o casal foi viver para S. Miguel de Ceide, para uma quinta, pertença do falecido e que tinha ido parar às mãos do filho do casal, Manuel Plácido Alves.

 As últimas revelações apontam que Manuel Plácido Alves não era filho nem de Manuel Pinheiro Alves nem de Camilo, mas sim de uma relação que Ana Plácido teve com um seu antigo namorado, António Ferreira Quiques, que entretanto tinha ido para o Brasil e regressado  a Portugal em Agosto de 1857.

Ana e Camilo irão ter dois filhos, Jorge Camilo Castelo Branco, nascido em  1863 e Nuno Plácido Castelo Branco, nascido em 1864.

Ambos  tiveram uma existência trágica, povoada de loucuras e taras, que agravaram os  problemas de Camilo…

Ana Plácido, apesar de viver à sombra do génio de Seide, publica Luz Coada por Ferros, contos e memórias que Ana Plácido vai dedicar a Maria Amália Plácido, uma das suas três irmãs.

Uma delas, Antónia Cândida, vai casar com António Bernardo Ferreira, filho da famosa Antónia Adelaide Ferreira, a Ferreirinha da Régua…

Publicou um romance inacabado, Regina, na Gazeta Literária e em 1871 edita o romance Herança de Lágrimas.

Foi tradutora de inúmeros livros para a famosa editora Chardron, antecessora da Lello & Irmãos.

Ana Plácido e Camilo só irão casar em 1888, e por muita pressão de amigos do casal, concluindo o enlace numa casa da Rua de Santa Catarina no Porto.

Os últimos anos vão ser penosos, muitas consumições, Camilo a escrever a um ritmo frenético para poder sustentar a família e em 1890 Camilo suicida-se, depois de ter sido informado que a sua cegueira era irreversível.

Ana Plácido vem a falecer em 1895, com 65 anos, extinguindo-se assim uma vida toda ela marcada pela profunda paixão pelo  génio de Seide e que modificou totalmente a existência de uma mulher que marcou o seu tempo pela irreverência e desassombro.

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César Santos Silva. Bacharel em História. Formador, professor de História do Porto, Portugal e Contemporânea do Mundo em várias Universidades Seniores, tais como Sindicato Professores da Zona Norte, Fundação Inatel entre outras.

Investigador de temas relacionados com a História do Porto e a História do Mundo,colaborador pontual dos “ Serões da Bonjoia”, conferencista habitual da Biblioteca Municipal Almeida Garrett, Fundação Inatel, Palacete Visconde Balsemão. Autor de vários livros dedicados à cidade do Porto.

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