EU ESTIVE AQUI. E O QUE FIZ DA MINHA PASSAGEM? – por José Paulo Santos

 

[2026, José Paulo Santos | poema inédito]

…………Il restera de toi…

…………Il restera de toi ce que tu as donné
…………Au lieu de le garder dans des coffres rouillés
…………Il restera de moi, de mon jardin secret
…………Une fleur oubliée qui ne s’est pas fanée

…………Au soleil de l’Amour, ne resteront que nos mains vides
…………pour cueillir les détours de nos étoiles et de nos rides

…………Il restera de toi ce que tu as chanté
…………A celui qui passait sur son chemin désert
…………Il restera de moi une brise du soir
…………Un refrain dans le noir jusqu’au bout de l’hiver

…………Il restera de toi ce que tu m’as offert
…………Entre tes bras ouverts un matin de soleil
…………Il restera de moi tout ce que j’ai perdu
…………Ce que j’ai attendu plus loin que mes réveils

…………Il restera de toi une larme tombée
…………Un sourire germé sur les yeux de ton cœur
…………Il restera de moi ce que tu m’as donné
…………Et que j’ai partagé aux mendiants du bonheur

Michel Scouarnec

Há uma pergunta que a morte nos faz antes de chegar. Não a ouvimos assim que nascemos, nem quando somos jovens, porque a juventude vive como se o tempo fosse uma matéria inesgotável. A pergunta começa a ganhar nitidez quando perdemos pessoas, quando algumas cadeiras ficam vazias à mesa, quando reconhecemos numa fotografia um rosto que já não podemos chamar pelo nome, quando percebemos que também nós começámos a entrar na memória dos outros. É uma pergunta simples e imensa: quando eu já não estiver aqui, o que ficará de mim?

Michel Scouarnec escreveu, em 1980, o poema Il restera de toi, de que faz parte o verso que tantas vezes regressa à nossa consciência: «Il restera de toi ce que tu as donné». “Ficará de ti aquilo que deste”. Michel Scouarnec (nascido em 1934) é um sacerdote católico, autor, compositor e escritor francês. Foi ordenado sacerdote da Diocese de Quimper, no departamento de Finistère, em 1959. Exerceu as funções de professor de Liturgia e de diretor da rádio da Diocese de Quimper.

O poema, nem a citação recorrente, não é de Simone Weil, embora lhe seja frequentemente atribuída e a sua filosofia dialogue de forma muito próxima com esta ideia de atenção, despojamento e responsabilidade perante o outro. No poema, aquilo que damos não desaparece connosco: permanece numa flor que não murchou, numa canção oferecida a quem atravessava um caminho deserto, num sorriso, numa lágrima, num gesto recebido e depois partilhado com outros. A vida aparece, assim, não como um lugar onde acumulamos, mas como uma passagem através da qual alguma coisa de nós pode continuar a circular.

É uma ideia que muda profundamente a maneira de olhar para uma existência. Durante grande parte da vida, somos educados para perguntar o que queremos ter, alcançar, conquistar, guardar. Aprendemos a medir o sucesso pelo património, pelo reconhecimento, pela carreira, pelos lugares que ocupámos, pelas coisas que conseguimos reunir à nossa volta. Porém, chega um momento em que percebemos que quase tudo isso pertence ao tempo. As casas mudam de habitantes, os livros mudam de mãos, os cargos desaparecem, as fotografias envelhecem e até o nosso rosto, que julgávamos tão familiar, começa a ser devolvido lentamente à matéria de onde viemos.

Então a pergunta muda. Já não é tanto o que consegui possuir?, mas o que consegui oferecer?

O filósofo Michel de Montaigne compreendeu que uma vida digna de ser pensada começa pelo exercício de olhar para si próprio com honestidade. Ao abrir os Ensaios, escreveu: «Je suis moy-mesme la matière de mon livre», isto é, «eu próprio sou a matéria do meu livro». Não se apresentava como uma obra acabada, nem como alguém que tivesse encontrado uma fórmula definitiva para a existência. Fazia da própria vida matéria de observação, experiência e pensamento. Os seus defeitos, as suas contradições, os seus hábitos e as suas dúvidas também pertenciam ao livro.

Além de muitas outras, esta é uma das maiores lições de Montaigne: uma pessoa não é apenas aquilo que foi; é também aquilo que ainda está a aprender a ser. E esta diferença é decisiva, porque nos impede de transformar o passado numa sentença. Podemos reconhecer aquilo que fomos sem ficar condenados a repeti-lo. Podemos olhar para trás e encontrar erros, egoísmos, impaciências, omissões, palavras que feriram, silêncios que deveriam ter sido interrompidos, e transformar esse reconhecimento numa forma nova de presença. A consciência não apaga o passado, mas pode mudar a maneira como continuamos a partir dele.

É por isso que esta reflexão sobre o que ficará de nós não deve ser uma meditação sobre a morte. Ou não deve ser apenas isso. É uma meditação sobre o presente. A morte transforma a nossa vida em memória; o presente oferece-nos ainda a possibilidade extraordinária de transformar a memória que deixaremos.

Ainda estamos a tempo de acrescentar qualquer coisa à nossa própria história. Ainda podemos procurar alguém de quem nos afastámos, pedir perdão por uma palavra injusta, agradecer aquilo que durante anos demos como adquirido, escutar sem interromper, reconhecer uma dívida, abraçar quem amamos, dizer uma verdade que adiámos, abandonar uma indiferença que já não queremos transportar. Ainda podemos ensinar o que aprendemos, partilhar aquilo que recebemos, cuidar de alguém que precisa de nós. A existência continua aberta enquanto houver tempo para uma metamorfose.

E é aqui que Bento de Espinosa nos ilumina. Na Ética, ao definir a alegria, escreve que ela é a passagem do ser humano «de uma menor para uma maior perfeição». A alegria não é, para ele, um estado superficial de euforia, mas uma transformação: um incremento da nossa potência de existir e agir.

Esta ideia permite-nos olhar para as relações humanas de uma maneira particularmente exigente. Há encontros que nos diminuem e encontros que nos tornam maiores. Há pessoas diante das quais começamos a duvidar de nós próprios e outras que, sem nos lisonjearem, nos devolvem coragem. Há quem nos ensine a viver com medo e quem nos ensine, simplesmente pela sua maneira de estar, que a vida ainda pode ser habitada com confiança.

E atravessa-nos uma questão: o que fazemos nós aos outros quando entramos nas suas vidas?

Esta pergunta deveria acompanhar-nos mais vezes. Não apenas quando somos pais, professores, companheiros ou amigos, mas sempre que atravessamos o caminho de alguém. Deixamos marcas mesmo quando não temos consciência disso. Uma frase dita numa sala de aula pode acompanhar um aluno durante décadas. Uma conversa aparentemente banal pode chegar a uma pessoa num dia em que ela estava prestes a desistir. Uma mão pousada no ombro pode dizer aquilo que nenhuma explicação consegue dizer. Um gesto de respeito pode devolver dignidade a alguém que passou demasiado tempo a sentir-se invisível.

A vida é feita destas consequências que não conseguimos contabilizar, nem criar estatísticas.

E é por isso que o verso de Scouarnec se torna tão poderoso. Ficará de nós aquilo que demos, mas também aquilo que demos foi capaz de gerar nos outros. Uma pessoa pode morrer e continuar a existir na maneira como alguém ensina, cuida, escreve, educa, ama ou olha para o mundo. Não permanecemos apenas nas memórias que deixamos; permanecemos nas transformações que provocámos.

Há uma espécie de humildade profunda nisso. Não somos proprietários daquilo que oferecemos. Quando ensinamos alguma coisa, ela deixa de nos pertencer. Quando damos confiança a alguém, não podemos determinar o que essa confiança fará. Quando amamos verdadeiramente, não podemos exigir que o amor permaneça preso às nossas mãos. Quando escrevemos, entregamos as palavras a leitores que lhes darão sentidos que nunca imaginámos. Quando educamos, aceitamos que aqueles que educámos irão muito além de nós.

Dar é aceitar perder o controlo sobre aquilo que demos. Esta é a diferença entre a generosidade e a posse. A posse quer conservar; a dádiva aceita que alguma coisa continue sem nós.

O poema diz ainda que ficará de nós aquilo que cantámos «àquele que passava pelo seu caminho deserto». É uma das imagens mais bonitas do texto, porque recorda que a humanidade não se faz apenas de grandes gestos. Há momentos em que ajudar alguém significa simplesmente cantar, metaforicamente, no lugar certo: oferecer uma palavra quando tudo parecia silêncio, levar uma pequena claridade a uma pessoa cansada, permanecer ao lado de quem atravessa uma noite que não conseguimos atravessar por ela.

Não precisamos de salvar o mundo inteiro. Precisamos é de não passar indiferentes diante de quem está ao nosso alcance. É uma missão mais modesta e, por isso mesmo, mais séria.

Todos nós, num determinado momento, somos esse caminhante do poema. Todos atravessamos desertos. Todos conhecemos dias em que precisamos que alguém nos recorde que ainda existe uma manhã. Todos fomos, ou seremos, os mendigos de felicidade a que Scouarnec se refere no final do poema: aqueles que recebem alguma coisa de alguém e que, depois, podem decidir se a guardam para si ou se a transformam numa nova dádiva.

É aqui que a nossa história pessoal se cruza com a história dos outros. Aquilo que recebemos dos que vieram antes de nós não termina em nós. Recebemos uma língua, uma memória, uma educação, uma cultura, uma maneira de olhar o mundo, gestos de amor e também feridas que procuramos não transmitir. Somos herdeiros de incontáveis vidas que já desapareceram. Muitas das pessoas que fizeram de nós aquilo que somos não poderão assistir ao resultado daquilo que nos deram.

A nossa resposta mais bonita à sua ausência é continuar. Não repetir tudo o que recebemos, mas transformar aquilo que recebemos em alguma coisa capaz de servir outros. A ternura que alguém teve connosco pode chegar a uma pessoa que nunca conheceu essa ternura. O conhecimento que um professor nos ofereceu pode atravessar-nos até uma nova geração. A coragem de alguém pode tornar-se a nossa coragem e, através de nós, tornar-se a coragem de outro. É assim que a humanidade se prolonga: não pela conservação intacta do passado, mas pela sua transformação.

A verdadeira herança de uma pessoa não é aquilo que deixa numa conta bancária ou dentro de uma casa. Há uma herança muito mais silenciosa, feita daquilo que ensinou sem saber que estava a ensinar, da maneira como tratou os frágeis, das perguntas que deixou, das portas que abriu, da confiança que ofereceu, das pessoas que ajudou a levantar-se.

Quando penso na minha própria morte, como cada um de nós inevitavelmente acaba por pensar, imagino uma espécie de memória póstuma em que já não poderei explicar-me. Alguém olhará para trás e perguntará: «Quem foi ele? O que fez da sua passagem por este mundo?» E, nesse momento, não haverá possibilidade de acrescentar uma nota de rodapé, corrigir uma injustiça, explicar uma ausência ou pedir desculpa por aquilo que ficou por reparar. A morte retira-nos a possibilidade de editar a nossa narrativa.

Mas essa pergunta, precisamente porque a morte ainda não chegou, é uma pergunta do presente.

Ainda podemos mudar a resposta.

Esta é a parte mais luminosa de tudo isto. Não somos apenas o resultado do que nos aconteceu. Somos também a possibilidade do que fazemos com aquilo que nos aconteceu. Podemos transformar uma perda em maior capacidade de cuidar. Podemos transformar um erro em consciência. Podemos transformar uma ferida em compreensão. Podemos transformar o conhecimento em serviço. Podemos transformar o medo em prudência sem permitir que ele nos governe. Podemos transformar a experiência em generosidade.

A metamorfose humana não consiste em apagar quem fomos. Consiste em dar um novo destino àquilo que fomos.

É por isso que a pergunta «o que ficará de mim?» não deve ser adiada para o fim da vida. Deve acompanhar-nos enquanto ainda podemos agir. Enquanto ainda temos pessoas diante de nós. Enquanto ainda podemos mudar uma relação. Enquanto ainda podemos escrever uma página diferente. Enquanto ainda podemos oferecer aquilo que, um dia, gostaríamos que alguém dissesse que recebemos de nós.

E isto é simples: haverá um dia em que seremos apenas memória.

Alguém encontrará o nosso nome. Alguém abrirá uma fotografia. Alguém ouvirá uma canção que nos acompanhou. Alguém poderá recordar uma frase nossa, uma aula, uma viagem, uma gargalhada, uma discussão, um abraço. E, no meio dessa memória imperfeita, talvez surja uma frase simples, quase sem importância para quem a pronunciar:

«Ele esteve aqui.»

E tudo dependerá do que vier depois. Esteve aqui e acumulou. Esteve aqui e feriu. Esteve aqui e passou sem reparar.

Ou esteve aqui e, apesar das suas falhas, deixou alguma coisa que ajudou outros a viver.

É essa a parte da nossa história que ainda podemos escrever.

Não precisamos de ser extraordinários, nem super-heróis. Precisamos de ser responsáveis pela pequena parcela de mundo que toca as nossas mãos. Precisamos de perceber que cada pessoa que encontramos é uma oportunidade de acrescentar ou retirar humanidade ao mundo. Precisamos de olhar para a nossa vida não apenas como aquilo que nos acontece, mas como aquilo que fazemos acontecer nos outros.

No fundo, é esta a grande cumplicidade que o poema nos propõe: somos passageiros, mas não somos irrelevantes. A nossa passagem é breve, mas não é neutra. Entramos nas vidas uns dos outros, deixamos sinais, recebemos sinais, transformamo-nos mutuamente. E, enquanto estamos vivos, podemos escolher que espécie de rasto queremos deixar.

Por isso, não quero esperar pela última página para perguntar quem fui. Quero fazer a pergunta agora.

Eu estive aqui. E o que fiz da minha passagem? O que dei? O que curei? O que ensinei? Quem ajudei a levantar-se? Que parte de mim continuará viva noutra pessoa? Como amei?

A resposta ainda não está escrita. E essa é talvez, ainda, a mais bonita notícia que a vida nos pode dar.

Ainda estamos aqui.

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 José Paulo Santos nasceu em 1969. Viajou muito e viveu em vários países como França, Brasil, Cabo Verde, Guiné Equatorial, Tunísia expandindo a Língua e Cultura Portuguesas. Licenciou-se emEnsino de Português e Francês (agora em LSVLD). Escreve e publica Poesia. É cronista e dedica-se à Filosofia, à Psicologia e às preocupações humanas. É formador do IEFP.