O SONHO DO SARGENTO PIMENTA – por Danyel Guerra

  

John Lennon e Yoko Ono (Foto: AP)

 

“I dreamed about  you last night and I fell out the bed twice”

                                           Morrisey, citando Shelagh Delaney           

A noite passada, o Sargento Pimenta sonhou  com  Nara e caiu da cama duas vezes. A sério, podem crer. Alerto porém que esta Nara não é, esclareça-se, a cidade dourada que no século VIII foi içada a primeira capital do Japão. Embora ela, a cidade, se tenha, antes de tudo, singularizado pela zen serenidade de seus templos budistas e pelos parques povoados  de cervos prenhes de meiguice.

A Nara deste son(h)o precipitado no soalho é a sua inefável musa. Aos 54 anos, ela tem a idade de um dos discos mais oníricos e turbinados de toda a epopeia do rock. Quando, em janeiro de 1967, Nara nasceu no Recife, a cidade de Manuel Bandeira, os Beatles se preparavam para o trabalho de parto  de ‘Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band’. Três meses passados, os Fab Four abandonavam a gestação de quase meio ano nos estúdios Abbey Road e Regent Sound,  sobraçando os masters de um álbum psicodélico tout court. No dia seguinte ao lançamento  -26 de maio de 1967-, ficou patente que o quarteto não economizou  na pletora de uma inventiva que já em ‘Revolver’ (1966) disparara certeira, municiada  pela marijuana e pelo LSD (‘Lucy in the Sky with Diamonds’).

Vivia-se em euforia a idade em que os tempos estavam mudando, em que o sonho aparentava ser capaz de transmutar a realidade, em que uma ousada sociedade aberta ansiava ser mais que uma ilha, nutria a audácia de se tornar um continente.

No compacto*/prefácio de ‘Sgt. Pepper’s – ‘Strawberry Fields Forever’ -, John Lennon desafiava gerações inteiras a embrenharem-se na quimera:  “Let  me take you down/ Cause I’m going to strawberry fields/ nothing is real/ nothing to get hungabout’.

E o desvario criativo investido nesta ousadia não poderia ter sido mais desmedido, genial e incontrolável.  Buscando o zênite da fantasia, os Beatles pintaram, mal comparando, nas estrias deste LP, o teto da Capela Sistina do rock’n’roll.

A vertigem – embalada pela irreverência da swinging London– se assemelhou, por vezes, a excentricidade. Um exemplo: aquela nota de 20 mil hertz de frequência, captável  e audível apenas por ouvidos caninos, que encerra faixa ‘A Day in the Life”. Na verdade, é um tom tocado por um apito para chamar cachorros.

Junho de 1967.  O Sargento Pimenta assentava  praça nas lojas, gerando uma demanda  tão estrepitosa quanto o súbito ribombar de um trovão. No dia 25 desse mês, num concerto televisto por 200 milhões de pessoas, a banda do Cavern Club soltava a pomba da paz, cantando ‘All you need is love’.  Uns dias antes, entre 16 e 18, o Festival de Monterey (California) acolhera 50 mil militantes pacifistas, entre  eles Brian Jones, guitarra dos Rolling Stones, planando como uma borboleta. O summer of love  seria tórrido. Uma new age estava apenas começando.    

Em San Francisco, cidade aberta aos drop outs (‘She’s leaving home’), os hippies, flores ornando os longos cabelos, lançavam  em Haight Ashbury, os alicerces de sua Utopia. Convocados por Scott  Mckenzie, ao som de ‘San Francisco’, os flower childrens buscavam recriar a bucólica e apolínea Arcádia.

Celebrando em uníssono o World First Human Be-In, mais de 30 mil rebeldes se haviam reunido em janeiro, no Golden Gate Park, para 24 horas de rock ‘n’ roses e despojamento lisérgico. A apenas  alguns  milhares de quilómetros, a guerra escorria em lavas incandescentes do vulcão Vietname, açoitado, fragelado pelos Washington Bullets.

O sonho periclitava ante uma realidade de pesadelo. Após a viagem astral, a ressaca ensaiava entrar em cena. Ainda houve tempo para que, em Paris, no Mai 68, os filhos de Marx e da Koka Kola, apadrinhados por Jean-Luc Godard e Guy Debord, sendo realistas, exigissem o impossível. No ano seguinte, de 15 a 17 de agosto, na pátria Woodstock, o Homem pisava o planeta Terra pela vez primeira. Pilotando seu Jefferson Airplane, Grace Slick aterrisava, radiosa, em busca de ‘Somebody to Love’.

Umas semanas antes, a 5 de julho, num show no Hyde Park londrino, perante mais de 300 mil rockers, o stone  Mick Jagger soltara milhares de borboletas brancas em tributo a Brian Jones,  enquanto recitava um poema de Shelley.

Porém, no final desses vertiginosos sixties, John Lennon começava os anos 70, confessando ter caído da cama e acordado imerso em desilusão. Na faixa ‘God’ de ‘John Lennon/Plastic Ono Band’, seu primeiro álbum a solo, ele decretava: “the dream is over”. E a verdade é que não eram poucos os militantes do flower power  que recolhiam as bandeiras do protesto e, em breve, se aburguesavam, pactuando com o sistema e o satus quo. Nos anos seguintes, o vento passaria a soprar hostil à contracultura alternativa. A utopia enfrentava a ameaça de se limitar a ser um “não lugar” distópico.

Bem-aventuradamente, “onde existe o perigo, cresce o que salva”, assim profetizou Friedrich Hölderlin no poema ‘Patmos’. Em 1971,  a ‘Esperança  II’, como a de Gustav Klimt, polvilhada de reverberações botticellianas, voltaria a florir. Arabella Churchill, neta do célebre primeiro-ministro de Sua Majestade, cofundava o Festival de Glastonbury, onde Melanie Safka, a musa hippie, foi um dos destaques, cantando ‘Lover’s Lullaby’.

  “O Homem é um mendigo quando pensa e um deus quando sonha”

 Friedrich Hölderlin

Meio século passado sobre essas mirabolantes tropelias, só um otimista panglossiano nutriria a insensatez de afirmar que vivemos no melhor de todos os mundos possíveis. O diagnóstico dos problemas e a terapêutica para sua solução estão mais que equacionados e enunciados. Eu estaria chovendo no molhado se me dedicasse ao alarde de os proclamar no tempo e espaço desta singela crônica. Tanto mais que nenhuma almavivente aparenta estar motivada para perfilhar a terapia prescrita. Escasseia a vontade política.

Entretanto, apenas um pessimista patológico segregaria o exagero de sustentar que vivemos no pior de todos os mundos possíveis. Impõe-se estimular a clarividente consciência de que todos os tempos históricos vivem seu apocalipse e sua escatologia. E a ambas sobrevivem, remoçados e fortalecidos.

Assim, malgrado o karma que as gerações pregressas e atuais geraram e acumularam, o Sargento Pimenta, êmulo de Ulisses e de Julius Caesar, vai continuar caminhando contra o vento, sem lenço, sem documento,  como cantou, com alegria, alegria, o tropicalista Caê Velô.  Seus soldados, corpos fechados, mentes abertas, estão dispostos a enfrentar os obstáculos, solertes e intrépidos, estóicos e determinados.

Uma noite destas, o Sargento Pimenta vai sonhar com Nara e voltar a cair da cama duas vezes. Mas desta vez com ela. E os dois vão rock’n’rollar num tapete voador.…para que a Utopia se torne a realidade da ilha paradisíaca.

*Glossário:

Compacto –  single

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Danyel Guerra (aka Dannj Guerra) nasceu no Rio de Janeiro, Brasil. Com diploma, licenciatura, em História Universal da Infâmia, Guerra perfilha a opção preferencial pela escrita recreativa, assumindo oposição à “escrita criativa”.  
Publicou ‘Em Busca da Musa Clio’ (2004), ‘Amor, Città Aperta’ (2008), ‘O Céu sobre Berlin’ (2009), ‘Excitações Klimtorianas’ (2012), ‘O Apojo das Ninfas’ (2014), ‘Oito e Demy’(2015), ‘O Português do Cinemoda’(2015), ‘Os Homens da Minha Vida’ (2017) e ‘Corpo Estranho’(2021).

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