VENTOZELO – por Januário Esteves

Ventozelo

Era nas noites de trovoadas, quando o relâmpago
Ao sul se descarregava no esqueleto das árvores
E em transe percutíamos a glande do mistério
Vinham os animais despojar a crença do nosso sacrifício
E logo reflectíamos a posse da atmosfera circundante
De intemporal solenidade, de prosaico pragmatismo
Convertendo as relações em dependências familiares
Na consanguinidade dos gestos e das partilhas
Mordidas na mesma carne que nos sustenta
Cultivando a emancipação dos costumes
À luz da morte que nos iluminou.

♣♣♣

Noite e abandono

Ao desleixo da hora
Cão sem dono
No ventre da demora
O desejo abraça
A escarpa fugidia
E o sonho enlaça
A febre do dia
É outro querer
E julgar o tormento
Por jus de obedecer
Ao que vem de dentro.

♣♣♣

12 ª Hora

Esta é a hora do inútil
Em que vale mais estar quieto
E inventar sobre o fútil
A forma de estar discreto
Muita coisa vem à dúzia
Após os números lançados
Surge primária a azia
Jogada na vantagem dos dados
Os números sucedidos
Como infinito caleidoscópio
Dão às palavras enaltecidas
O sortilégio do horoscópio
Lamentosas pregações
Em eco pelo espaço
Vêm de antanho, aberrações
Sibilando o cansaço.

♣♣♣

1ª Hora

Às tantas da madrugada
Vislumbrei-me a mim mesmo
Caído na paisagem molhada
Levado pelo ensimesmo
Às cegas na procura
Do ser transcendente
Vi o princípio da loucura
Da verdade ser carente
Lá pairei alumiado
Pelas feras intestinas
A solidão de assombrado
No lusco-fusco das cortinas
Hora loquaz de timbre
De múltiplas figuras acesas
Nossos genes em vislumbre
Entre diáfanas lucenas.

♦♦♦

Januário Esteves usa o pseudónimo “Januanto”. Nasceu em Coruche, Portugal (1960).   Escreve poesia desde os 16 anos. Em 1987 publicou no Jornal de Letras e participou ao longo dos anos em algumas publicações colectivas. Publicou na revista brasileira Musa Rara, na revista americana EIGHTEENSEVENTY .POETRY.BLOG., na Revista Brasileira LiteraLivre, na revista romena Poesis, na revista australiana Otoliths, na revista americana BlazeVox, na revista americana Harbinger Asylum, na revista americana Ducor Review, na revista indiana Taj Mahal.

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