O “MERCADO” DA ESPIRITUALIDADE-por José Caldas

 

A espiritualidade está na moda. Para onde quer que nos viremos, uma oferta praticamente infinita de “mestres”, workshops, eventos, livros, encontros, cursos… acenam-nos com uma vida mais “espiritual” ou, pelo menos, mais feliz e mais leve. “Mestres”, em formatos praticamente infinitos, musculados, barbudos, sérios ou divertidos, inflamados ou seráficos, condescendentes ou implacáveis, prometem resolver os nossos problemas a troco de alguns euros. Workshops e eventos sobre temas inimagináveis, desde a leitura de auras até ao alinhamento dos chakras, passando pelas mais diversas terapias de cristais garantem eliminar ou, pelo menos moderar, as nossas dúvidas existenciais. Escolas de Ioga, orientadas por instrutores em poses acrobáticas e vestidos de branco imaculado prometem a libertação de todas as nossas tensões se conseguirmos poses espampanantes. Escolas ou grupos espirituais dedicam-se a interpretar, numa linguagem impenetrável e metafórica os segredos dos Vedas, dos Upanishads, do Corão, da Cabala…

Na esfera do show-business, muitas “celebridades” fazem da “espiritualidade” um instrumento de auto-promoção. Quem não recorda a adesão de Madonna, Britney Spears, Ashton Kutcher, Demi Moore, David Beckham, Guy Ritchie…aos estudos da Cabala (possivelmente, sem fazerem a menor ideia do que isso seja). Por todo o lado, verifica-se um aproveitamento, muitas vezes oportunista, de tradições espirituais do oriente que são rapidamente transformadas em caricaturas do original, onde os objectivos centrais de transformação interna são levianamente substituídos por rituais e cerimoniais pseudo-místicos, uma atmosfera lamechas de beijos e abraços teatrais, uma vocabulário cor-de-rosa e piegas (imediatamente abandonado à primeira contrariedade), um cortejo de vestuário exótico e extravagante, um espaço de convívio que engane o vazio do quotidiano, um lugar simpático para iniciar talvez uma relação romântica de ocasião, uma atracção sensual pelo carisma do “mestre”, a mera curiosidade diletante…, no fundo, o culto da forma em todo o seu esplendor tão típico dos tempos modernos.

É, na verdade, extraordinário o número de “mestres” que hoje se oferecem ao público. Alguns assim se intitulam mal terminam a frequência de um “curso” de reiki ou qualquer outra área do “saber espiritual”. Recebendo (quando recebem!) informação teórica (quantas vezes de uma pobreza e ingenuidade risíveis e bacocas) sobre temas que não dominam minimamente, crêem-se habilitados a transmitir o que não sabem e, claro está, a “formar” outros. Com um “diploma” na mão (que muitas vezes não vale o preço do papel em que está inscrito), começam a oferecer os seus “serviços” a preços exorbitantes que revelam bem a dignidade do seu carácter e a pobreza do seu pretenso “saber”; outros, após terem folheado uns livros ou frequentado alguns workshops sobre este ou aquele tema, arvoram-se um “saber” banal e superficial que, claro, se faz imediatamente cobrar pela sua transmissão; outros ainda, exibindo títulos pomposos de natureza “psico-espiritual”, procuram, numa linguagem entre a psicologia barata e o misticismo cor-de-rosa, encontrar o seu nicho de mercado. E, claro, nem sequer incluímos nesta listagem, o aldrabão profissional que, em quaisquer escrúpulos, se dedica a explorar a fragilidade ou ingenuidade do próximo ou o ingénuo simpático que crê bastar um bom coração para ser capaz de aconselhar e orientar a vida de terceiros. E nós, desencantados e desiludidos com o vazio ou o peso da nossa existência corremos muitas vezes atrás deles como mariposas em torno da luz. Frequentemente (quase sempre) saímos de lá ainda mais frustrados e desorientados porque nos apercebemos que, para lá das aparências vistosas ou extravagantes e das frases bonitas ou pomposas, reina um vazio e uma frivolidade ainda mais profundas do que aquelas que afligem a nossa vida – cegos que conduzem cegos sem se aperceberem da própria cegueira.

Pessoas de todos níveis etários e culturais frequentam estes lugares. Na verdade, o desencanto e a frustração do quotidiano não escolhem idades nem classes sociais. A carga afectiva e a brutalidade de certas existências pesa como chumbo, dói profundamente, e conduz as suas muitas vítimas a procurar algum conforto em espaços que lhe pareçam “espirituais”. É uma reacção profundamente humana que não merece certamente qualquer reparo ou censura. O problema reside na frustração das suas expectativas. Ao buscarem de forma acrítica certas respostas para os seus problemas sem qualquer consciência prévia do que é realmente importante para as suas vidas, correm o sério risco de se sentirem profundamente enganadas. E essa frustração apenas servirá para intensificar ainda mais a sua angústia e o seu desencanto numa espiral ascendente que poderá terminar na depressão, na alienação e até no suicídio.

Mas, apesar da clara desonestidade, ignorância ou leviandade de muitos destes “mestres” e movimentos “espirituais”, o número de pessoas que os procuram não pára de crescer. Porquê? Na verdade, vivemos tempos históricos absolutamente paradoxais. As sociedades mais ricas, poderosas e abundantes que algum dia habitaram o planeta produzem legiões de cidadãos entediados, frustrados, zangados com a vida e consigo mesmos.

Apesar de rodeados por um número aparentemente infinito de produtos tecnológicos, de benefícios sociais, de ofertas de educação e saúde, de disponibilidades financeiras inimagináveis há duas gerações atrás, ainda assim, o tédio, o enfado e o vazio interior parecem colar-se-lhes como uma segunda pele. Por mais que tentem libertar-se, fazendo férias, mudando de carro ou de cônjuge, comprando o último modelo tecnológico, adquirindo toneladas de vestuário inútil, mergulhando nos mundos da música e das artes ou, num registo menos simpático, destruindo-se alegremente em orgias de álcool ou droga, ainda assim, o vazio e a frustração permanecem, tanto mais intensos e desesperantes quanto mais inúteis os esforços para deles se libertarem. E são justamente esses estados de alma que impelem as pessoas para a busca de soluções rápidas e leves para os seus problemas. É esta ansiedade ou desespero crescentes de um número cada vez maior de seres humanos que cria uma clientela aparentemente interminável para o actual mercado da “espiritualidade”. Os “vendedores de ilusões” são também, frequentemente, eles próprios, pessoas perdidas. Mas, por ignorância, ingenuidade ou desonestidade decidem estar na posse de conhecimentos que permitirão aos outros libertarem-se dos seus problemas e angústias. De início, muitas vezes, as coisas parecem resultar. Seja através do seu carisma, do seu pretenso ascendente “espiritual”, do uso de uma linguagem esotérica ou cor-de-rosa, de formas extravagantes de vestir ou de se comportar, da manipulação hábil de imagens e sons ou simplesmente pela confiança e fragilidade psicológica dos seus “clientes”, estes “mestres” conseguem gerar nos seus “discípulos” um certo estado de entusiasmo ou mesmo fervor nos seus métodos ou resultados.

Mas, passado esse momento inicial de exaltação, a vida tem o aborrecido hábito de repetir constantemente aquelas situações que importunam, ferem ou arrasam física e psicologicamente. Nesses momentos, a magia desaparece e tudo regressa ao que era dantes. Um desânimo, uma frustração ainda mais profunda que incitam a procurar ainda mais acriticamente um novo “mestre”, talvez mais simpático ou convincente. Sempre houve, em todas as épocas, falsos profetas e oportunistas dispostos a lucrar com a miséria alheia. Mas nunca em tão grande número e com uma “clientela” tão vasta. Apesar de vivermos na sociedade da informação, nunca tantas pessoas estiveram tão desinformadas ao mesmo tempo. Ao contrário do que afirmam certos “especialistas”, a abundância de informação não garante nem a sua qualidade nem a sua honestidade. Hoje, uma combinação poderosa de meios técnicos, vaidade pessoal e falta de escrúpulos permite manipular com facilidade as carências psicológicas dos seres humanos. Jogando com o enorme poder sugestivo das cores, sons, slogans e imagens facilmente se consegue orientá-las para escolhas e opções profundamente erradas ou frívolas. Esse é o perigo do momento actual. Que muitas pessoas, carentes ou bem-intencionadas, sejam manipuladas para percursos falsamente espirituais, no sentido de aumentar a conta bancária ou lisonjear o ego megalómano de gente lunática, vaidosa ou pouco séria.

É necessário que as pessoas resistam a entregar-se nas mãos do primeiro “mestre”, escola ou movimento que, eventualmente, surjam na sua vida, por muito sedutores ou inspiradores que possam parecer. É preciso avaliar se os ditos “mestres” vivem de acordo com o que pregam, e os “ensinamentos” fazem sentido e assentam numa lógica coerente, se o que se cobra pela sua prática é um valor razoável e não excessivo, se o “mestre” domina realmente o tema ou se limita a debitar banalidades num tom pretensamente sábio ou místico, se a ausência de resultados é sempre justificada com a falta de prática do aluno…enfim, é importante que, mesmo que nos encontremos em situações física ou psicologicamente difíceis, nunca baixemos as nossas defesas racionais nem o espírito de observação, sem cair, naturalmente, em estados de desconfiança e suspeição patológicos que não conduzem também a lado nenhum.

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José Caldas é licenciado em Línguas e Literaturas Modernas pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto e professor efectivo da Escola Secundária de Alexandre Herculano, no Porto, desde 1989.
É membro da Sociedade Teosófica de Portugal desde 1983.

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