PEQUENOS CONTOS -II de Jaime Vaz Brasil

Guilherme Tell e Eu

Meu primo ganhou de natal um arco-e-flecha. Treinávamos pontaria em latas, galinhas e árvores. Fizemos torneios. Ele era mais velho que eu, treinava mais e vencia sempre. Aí me convenceu a colocar uma maçã na cabeça. Se eu pudesse, contava como é sentir aquele zunido da flecha vindo, aquele friagem que amolece a gente e o barulho dos ossos da cara se rebentando enquanto a flecha entra: é tudo muito rápido.

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Meu Primeiro Fórmula Um

A mãe pediu que eu cuidasse do mano, ela ia sair. Ele ainda bebê de carrinho e eu sempre quis ser piloto de fórmula um. Os móveis atrapalhavam muito o meu desempenho. Tanto foi que experimentei empurrar o meu carro escada abaixo. Até hoje juro que foi acidente.

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Tartarugas ao Mar

Éramos iguais. No tamanho, na pele e na trajetória adivinhada. Morávamos em uma elipse branca, que se inaugurou fechada e não se sabe como. Estava escrito que irromperíamos cedo ou tarde, e do casulo ao mundo seriam alguns passos. Corríamos todas para a mesma direção. Palcos de areia para o verão das fortes. Aves do rasante, fortes. Darwin move o ângulo dos bicos. Nem sequer dar adeus ao casulo era possível. Se conseguíssemos ultrapassar esse espaço, ganharíamos o mar e um bônus vital de trezentos anos. Voltaríamos lá, no mesmo ponto, e faríamos outras elipses brancas. Deixaríamos o colo das ondas sem pressa, no retorno. Mas por enquanto, não há tempo. Nem sequer para olhar as apegadas na areia, enquanto não chegam os apagadores de espuma.

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Véspera de Aniversário

Livros, discos, duas fotos. Tudo na grande mala, quando ergueu os olhos e a viu chegando. “Pensou bem nisso?” Ele não respondeu. Fechou com vagar a mala. Foi até o banheiro, tentou olhar-se no espelho. Ela parou perto dele. O silêncio entre eles, um piano a martelar no vazio. Ele mija com displicência indecisa. Apanha a escova de dentes e volta ao quarto. Por uma frestinha, enfia a escova na mala. “Tchau”, disse. Ela, em seguida: “Pensou bem nisso?”. Ele não respondeu e fechou devagar a porta definitiva. Quase medindo os passos, sai à calçada arrastando a mala enorme, maior que ele. Tudo isso justo um dia antes da festinha de oito anos.

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A Construção do Muro

Está no jardim, esticando as vistas ao redor. Desprotegido, como se a calçada se continuasse no terreno dele. Constrói uma cerca de madeira e pinta de branco. Admira sua pequena obra. “Para que eles não entrem”, pensa. Poucos anos depois, manda derrubarem a cerca e põe outra, de tela. E assim fica o pátio, até que acha prudente plantar arbustos que se enredarão na tela. “Para que eles não entrem”, pensa. Mais um tempo e ele manda arrancar tudo e construir logo um muro de tijolos. Outros anos se passam até que chama os pedreiros e manda aumentarem a altura. “Para que eles não entrem”, pensa. Por fim, indaga-se sobre a proteção efetiva do muro. E vai ele mesmo à construção de um muro ainda mais alto e reforçado por dentro. “Para que eu não saia”.

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O Baralho de Todas as Manhãs

Todas as manhãs, um envelope por baixo da porta, com uma carta de baralho dentro. Primeiro o às, em seguida o dois, depois o três. Assim foi: terminado o primeiro naipe, vieram os outros. Ouro, paus, copa. No começo, os envelopes eram brancos. Depois, cinza. No final, escuros. No começo, achou engraçado e não deu bola. Depois, já não disfarçava a preocupação. Veio o dez, o valete, a dama. Faltava o rei espadas. Naquela manhã, logo ao acordar, foi direto à porta. Não havia envelope. Olhou para o chão e tentou sorrir. Deixou-se ali um tempo, e acabou por abrir a porta. Lá estava o rei, bem vestido e com uma espada reluzente ao sol da manhã: “Eu sabia que me esperavas”. Dito isso, partiu para o abate.

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Edipus Urbanus

I. O velho Oráclito profetizou: nem pra jogar bola, esse guri. E ainda vai te ferrar. O pai amarrou os pés do menino junto à uma sinaleira. Cresceu sem sair do lugar, juntando moedas e cheirando cola. Os pés inchavam, e moscas faziam a geografia dos calcanhares. Aquiles ali, rindo compadecido. Do pai e da mãe, nunca mais soube. E o tempo se deixou assim.

II. Cansado de âncora, Dinho do Morro partiu pra briga. Promovido de pivete a elemento, a polícia da pátria não poupava o lombo do manco. Até que, mais articulado, decifrando enigmas e meandros, ajeitou-se. Passou a lidar com pó, comprou arma melhor e carro grande.

III. Num semáforo, dois carros se chocam. De um, desce o mal-encarado Dinhão do Morro, que hoje atende por nome mais sonoro e pomposo, mas não aprendeu a disfarçar a renguice nem a miopia que vem se acentuando com o tempo. Do outro, desce um senhor grisalho e quieto.

IV . Os curiosos de plantão assistiram três abelhas se cravando em vermelho nas carnes do velho. E o carro de Dinhão do Morro arrancando com o rádio tocando música a tudo que dá.

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O Velho Isaac Stanislawsky Nunca Mais Voltou ao Bar

“A memória é um parto ao contrário”, disse o velho. No bar, todos silenciaram. Era sempre assim, quando Isaac iniciava o discurso da noite. Isaac abriu a carteira de couro, tirou um recorte dobrado em quatro: a foto promocional do filme “A Lista de Schindler”. O dedo grave de Isaac na didática do tempo acompanhando a fala: “Vocês não sabem o que foi aquilo. Nem sequer imaginam. Gente queimando. Osso virando poeira, poeira virando vento, vento ventando vazio, e o vazio é como um grito no vácuo da Lua. Meu peito é oco.”

No bar, um silêncio de mármore. Todos estáticos. Isaac bebeu mais três goles de um golpe e fez uma careta. Depois, mandou os amigos a puta que pariu e foi dormir. Já era tarde.

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Sapatos Martelando a Pedra

Abre o envelope e tenta um sorriso. Bate o papel no dorso da mão enquanto vai até a Zero Hora. Preenche um formulário. Dali, vai até a Rádio Gaúcha e faz o mesmo. Pega um táxi, desce em frente a uma floricultura. Em casa, engraxa os sapatos. Toma um banho, lava bem o rosto e espreme dois cravos que moram no seu nariz em estado de usucapião. Tenta dormir. Abre  a agenda de telefones, passa os olhos nela e fecha em seguida. Depois de algum tempo, adormece.

O despertador grita que são cinco e meia. Prepara o café da manhã, lê o jornal. Põe o melhor terno, a gravata, ri para os sapatos brilhantes.  Chama outro táxi. Conversa o parece que vai chover hoje de praxe. Paga a corrida, agradece com um sorriso. Logo adiante, a sala já conta com algumas pessoas sentadas contra a parede. Pede para um funcionário do lugar um banquinho. Entregam para ele um bem pequeno, com veludo cor-de-vinho forrando o tampo. Enquanto vai ao centro da peça, os sapatos ficam martelando o silêncio num compasso matemático. Põe o pé esquerdo no banquinho. Ergue a perna direita, em câmera-lenta e num gesto teatral. Acomodado no caixão, fecha os olhos e cruza as mãos sobre o peito.

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Jaime Vaz Brasil – Poeta gaúcho, com 7 livros públicados e vários prêmios, dentre os quais: Açorianos, Felipe d’Oliveira e Casa de Las Americas (finalista). Atua também como compositor, tendo vários poemas musicados e interpretados por vários parceiros, dentre os quais Ricardo Freire, Flávio Brasil, Zé Alexandre Gomes, Nilton Júnior, Vitor Ramil e Pery Souza.

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