TRÊS POEMAS DE Marília Miranda Lopes

Terça-feira: Mercúrio

Este tempo invernoso omite
claridades nos teus olhos vivos:
palavras que rebentam nas bolhas
que raiam dos anéis das íris.
Não precisas, pois, de suster
a respiração nesse augúrio:
a mensagem vem de Mercúrio,
segue já na corrente, a ver
as margens e o mar ao longe:
aguarelas ternas que flambam
o verbo calado, em suspenso,
sem vontade de se debruçar
da tua boca que consente
salitre nos lábios e bruma
do dia em que fomos navio
e vela, e mastro, e terra una.

♣♣♣

Quarta-feira: Kairós*

Chove abruptamente: Kairós.
Além, Lisboa que deixo em transe,
como se a perdesse de vista,
e alguém dissesse “que descanse.”
Revolvo-lhe os cabelos brancos,
luzes revoltas em abismo
do antigo tempo que a refez
erguer-se dos escombros, do sismo.
Despeço-me, já embarcada,
dos murmúrios todos do cais,
onde atracou um  amor breve.
Hoje, levantou vela quem o teve:
vento que subitamente apita
ali, já distante, no mar,
onde nenhum coração grita,
enquanto houver paz e um Lugar.

*Em grego: καιρός, “o momento oportuno”, “certo” ou “supremo”.

♣♣♣

Domingo: DiEM25

Regressei à calma, às montanhas,
num dia ameno e florido.
Tinham-me as promessas ordenado:
tomar o diem, o comprimido,
viver na tranquila pertença,
rezar aos deuses as minhas dúvidas;
pagar ao estado a minha tença,
amar-te sem as crises mais súbitas,
como se fosse sempre domingo,
tempo de descanso e avesso
às longas filas da semana,
às histerias que não meço.
Ninguém sabe de si, se corre
atrás do que não vale nada.
Sou, por isso, alguém que já morre
a contemplar o Sol na estrada.
Distraio-me com versos na carteira:
segurança, certeza, protecção?
Quem me dera ser mais certeira
e ter por fim um simples chão.
O continente exige luta
ou vai desintegrar-se, diz
Varoufakis, no Manifesto.
No ocidente da velha Europa,
finjo que não sei e não molesto.

Foto de Elizabeth Gadd

♦♦♦

Marília Miranda Lopes é autora de obra repartida pela poesia e pelo teatro. Escreveu, entre outros textos publicados em revistas e antologias portuguesas e estrangeiras, “Geometria” (Poesia, 1998), “Framboesas” (Teatro, 1996), “Templo” (Colecção Tellus, nº10, 2003), “Duendouro – Era uma vez um rio…” (Afrontamento, 2007), “Castas” (Q de Vian Cadernos, Galiza, 2012) e “Victorianas” (Labirinto de Letras, 2015). É professora de Português do Ensino Secundário.

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