POEMAS e FOTOS de Maria Gomes

© Maria Gomes

Esta cidade existe num desejo que se encadeia
sobre a síntese dos lábios.
Nela mergulham o som exacto, a manhã,
o arco da noite navegante,
a luz sem fim.

Meu amado,
esta cidade existe nos joelhos do sol,
na pele dos pássaros,
num poema.
É sangue e transparência e pó, e mar salgado.

♣♣♣

Tenho os olhos no mar, não apagarei, nunca,
a memória destas águas
que me acrescentam devagar a um silencioso sinal.

Como se chamasses por mim, aonde as aves gritam,
tenho os olhos no mar, e uma cidade de neve
para o amor.

♣♣♣

Quando vejo o mar, há uma várzea que secretamente se descobre,
que dança e morre nesta luz
traço ou nuvem trigo ou lua
doce e triste
quando vejo o mar, há uma música como um vale de silêncio
e lágrimas.

©Maria Gomes

♣♣♣

Existes na solar caligrafia dos pássaros,
na manhã que surge do apelo dos lugares mortais,
grito, prodígio, esplendor
parto ou sombra,
nua travessia onde o corpo é um cristal de fogo
inenarrável.
E fluis pela luz.
Nasces para o azul que, em mim, ficou escrito.

♣♣♣

Grito – sou o sol que nasceu na provação dos dias
no corredor nú das calemas.

Junto ao espelho não ouso um céu.

♣♣♣

Agora escrevo na ciente voz que plana para além do medo,
no silêncio legente onde a morte nos devassa o sangue
e o veste de aflições
e o derrama
num caudal de flor, veludo e alma.

Maria Gomes nasceu em Benguela, República de Angola, em 1958. Foi professora de artes visuais e trabalhou em contabilidade após a independência daquele país. Vive em Coimbra. Tem poemas publicados no Jornal de Angola, nas antologias de Poesia 1 e 2 ” Escritas” sob a edição do poeta José Félix, em outras revistas de literatura na web, e na revista de Poesia de Tradução Di Versos nº 8 de Edições Sempre-em-Pé. Participou no poema ” O Estado do Mundo”, poema criado no ciber espaço, no âmbito de Coimbra, Capital Nacional da Cultura 2003, a editar brevemente em livro, e participou na II e III Bienal de Poesia em Silves, em Abril de 2005 e de 2008.

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