CONSERTO NO TELHADO – por Marcos Fernando Kirst

 

@JuliaML

Sabia que já não tinha mais idade para aquele tipo de coisa, mas mesmo assim tirou as teias de aranha da escada de madeira e encostou-a na parede do lado de fora da casa caiada, pronto para escalá-la rumo ao telhado, onde a antena parabólica aguardava por não mais do que uma pequena torcida para devolver a qualidade da imagem da televisão, pois que o jogo começaria dentro de poucos minutos.

“Chama o filho da Gertrudes que ele faz isso para você”, escutou a mulher gritar de lá de dentro, enquanto recuperava o fôlego já esvaído pelo simples esforço de transportar a escada da garagem até o quintal, onde ela, posicionada, esperava impávida que ele se pusesse a escalá-la.

“Homem velho subindo em telhado é anúncio de tragédia”, tentava ainda a esposa mais uma manobra de dissuasão, enquanto, pela janela da sala, já podia avistar o par de alpargatas de pano do marido trepando os primeiros degraus pelo lado de fora.

“Seja o que Deus quiser”, balançou a cabeça e voltou à cozinha para terminar de bater o bolo de fubá que já não sabia se teria companhia para saborear no café do final da tarde.

“É o que dá morar nessas grotas em que só se pega televisão com antena parabólica”, pensava ele, enquanto sentia, pé após pé, cada um dos degraus daquela escada que, em anos passados, parecia ter sido mais curta. Chegou, enfim, ao topo da casa e fitou fixamente a antena, deslocada de seu eixo na noite anterior, durante a meia hora de temporal com vento e granizo que assombrara toda a vila. Mentalmente, premeditou todos os gestos que faria daquele ponto do telhado até a antena, a fim de malograr as previsões trágicas da esposa e retornar para baixo são e salvo, após cumprida a tarefa a que se impusera. Questão de honra não pedir ajuda ao filho da vizinha, aquele vagabundo que continuava a dormir e a comer na casa dos pais, diferentemente dos guris dele, que incentivara a migrarem para a cidade, atrás de estudo e de título de doutor, evitando que seguissem o mesmo destino dele, que passara a vida de capataz cuidando do rancho dos outros.

“Não quero favor de vagabundo”, resmungou, equilibrando o primeiro pé sobre a fileira de telhas de barro alinhadas na borda do telhado. Ele mesmo ajudara a fabricar aquelas telhas, quarenta anos atrás. Telhas boas, fortes, firmes. Feitas para resistir a temporais como os de ontem à noite e para sustentar o peso de um homem de 65 anos como ele. Apenas mais três passos e já descansava seus 80 quilos na base da antena. Bastava respirar mais um pouco, torcer de volta para o lado e descer.

Mas como era bonita a vista dali de cima! Há quantos anos não tinha uma visão assim da vila, em sua sucessão de casinhas brancas cobertas com telhadinhos de telhas de barro, e a estrada de chão se sumindo ao longe no horizonte, em meio aos eucaliptos e margeando as terras repletas de trigo de um lado e soja de outro, pertencentes aos poderosos que se eternizavam de geração em geração por aquelas paragens. Que bonitas as cores verde do campo, amarelo das plantações e azul do céu se mesclando numa espécie de alegoria à bandeira nacional, dali de cima, e as casinhas brancas representando as estrelas e a faixa na qual se escrevia a frase que, puxa, como era mesmo a frase da bandeira nacional?

Não tinha importância. Bonito era ficar descansando ali em cima e admirando o quadro que lhe encantava os olhos e recompensava o esforço da subida ao telhado. Parecia moleque fazendo arte, o moleque que ele mesmo fora décadas passadas, quando trepava nos eucaliptos e se escondia em meio aos galhos mais altos para fugir das tarefas domésticas que a mãe lhe impunha sempre aos gritos de lá da cozinha. Hoje, fizera molecagem novamente. Que sensação agradável, pensava, quando seus olhos avistaram uma sombra se movendo ao longe, no horizonte, perto do final da estradinha, uma sombra que antes não estava lá e levantava poeira.

Ficou olhando, aguçou a visão nas vistas cansadas e se arrependeu de ter deixado sobre o sofá da sala o par de óculos que agora lhe fazia falta para confirmar se aquilo que via era mesmo aquilo que julgava estar vendo. Era um animal de grande porte que se deslocava de um lado para o outro da estrada, aproximando-se em grande velocidade e erguendo uma nuvem de pó avermelhado como rastro. Mas não era boi nem vaca, nem touro ou cavalo, e nenhum dos animais mais parrudos que existiam por ali, não. Ele já vira um bicho daqueles nos canais que exibiam programas sobre vida selvagem. Já vira fotos em revistas e sabia o nome daquilo. Era um rinoceronte. E branco.

Bichos daquele tipo não existiam pelas terras gaúchas e nem nas selvas brasileiras, a não ser em zoológicos, disso ele tinha certeza. Só não fazia ideia da distância a que deveria ficar o zoológico mais próximo daquelas paragens, para que dele se desgarrasse uma fera daquelas, mas perto não era, isso não era. Sequer sabia se havia mesmo algum pelas redondezas. Zoológico era coisa de capital, de cidade grande, e a vila tinha como marca registrada ficar longe, muito longe das cidades, especialmente das grandes. Circo jamais dava as caras por ali, por saberem que a localidade não reunia pares suficientes de olhos para cobrir o custo de um espetáculo, já que de palhaço ninguém tinha nada. Chocado como estava, esboçou um grito do alto do telhado, com a intenção de chamar a atenção de alguém que se irmanasse a ele no testemunho do descalabro que vivenciava.

Da cozinha, a mulher escutou o urro que antecedeu o estrondo do tombo. Os passos apressados dela e da vizinhança que rapidamente vieram socorrer seu marido, estatelado sobre as rosas do quintal da casa, ao lado da escada, abafaram as pisadas fortes do animal que fugia de volta por onde viera, reengolindo uma poeira que ninguém mais testemunhara e de cuja existência ninguém jamais ficaria sabendo, pelo menos, até que sua única testemunha saísse do coma, se é que algum dia o faria, para contar a história. Pior que, se ele não acordasse, nem mesmo existiria mistério algum.

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Marcos Fernando Kirst é jornalista e escritor, residente na cidade de Caxias do Sul (RS). É colunista do jornal “Pioneiro”, onde publica crônicas semanais literárias. Foi Patrono da Feira do Livro de Caxias do Sul em 2010. Em 2011, ganhou o Concurso Anual Literário Municipal de Caxias do Sul com a obra poética “Em Silêncios”. Integra a Academia Caxiense de Letras desde 2012, onde ocupa a cadeira número 11. Ganhador do Prêmio Açorianos de Criação  Literária 2014 com a novela “A Sombra de Clara”, também laureada com o Prêmio Vivita Cartier, em Caxias do Sul, em 2016. Já lançou 21 livros.

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