RoMARIA DE FÁTIMA – por Danyel Guerra

“Nem que eu e a Mercedes Sosa tenhamos de ir a pé em roMaria de Fátima” .

Diogo estaca o passo à porta do cômodo e recua estupefato, a ponto de desviar o olhar. O que se passa, cariño? Parece que viste uma assombração.

Nem uma semana tinha passado  desde o momento em que Lúcia lhe ligara, anunciando promissoras sensações de comprazimento. Olá Diogo, tudo bem? Tenho uma novidade  para te contar. Meus pais vão a Fátima, no 13 de maio com a Jacinta e o Francisco. Quando me disseram fiquei  eufórica. Quase tive um desmaio. E já podes adivinhar o que vai acontecer…..

Há reticências que são muito mais eficazes na transmissão de um   desejo que milhares, milhares de palavras explícitas, assim tornadas redundantes. O ouvinte descodifica a mensagem e credibiliza as louváveis intenções da namorada.

Quintanista de Direito, ele conhecera a estudante de Esteticismo nas folias de um baile de máscaras, terça-feira gorda  atingindo o zênite na pista do Springfellows Club.  Nesse fastígio  carnavalesco, o centurião romano  sentiria, finalmente, esvair-se o que ainda sobrava  da paixão segregada  por uma colega de faculdade. Estimulado pela graça da odalisca, não demoraria a concordar com esta ilação, afinal um tanto óbvia: uma desilusão amorosa só se liquida de vez, quando uma nova ilusão desabrocha.

O universitário nascera em Cela, no planalto angolano de Amboim, filho de um casal de fazendeiros, oriundo de Pinhel, retornados, em época preventiva, à metrópole. Galega, de Ferrol, e portuguesa, de Santa Comba Dão, eis a ascendência da loura Lúcia de Jesus, natural da cidade que já “foi” del caudillo…

Olá Diogo, como vais? Sentado numa esplanada, vizinha da Basílica da Estrela, o jovem folheava, absorto, uma apostila  da Cadeira de Direito Penal. A bem dizer, nessa tarde quente de primavera, ele matava tempo até chegar a boa hora de rumar para casa de Lúcia. E o cálido espresso, acabado de servir, se tornou, num ápice, álgido como gelo. A senhora está na certa enganada, disparou, levantando-se brusco, abandonando  o pedaço. Não te lembras de mim? Sou a Tuxa.  Após o patético apelo,  a “senhora” ficou muda e queda, olhar submerso  de lânguida decepção,  à medida que o interpelado  se afastava, em passada acelerada, Jardim da Estrela adentro.

Em marcha a ré, Di aperta o roupão de banho e se afasta da porta do quarto, onde era convidado a entrar. Lúcia, as paredes estão pejadas de imagens obscenas.  A moça arregala os olhos coloridos de safira , cola as mãos tensas no rostro do namorado, onde se estampa um esgar de revolta. Abrázame, cariño!

Ofegante, mãos coladas ao volante da Mercedes Sosa, Diogo não aciona, porém, a chave da ignição. Cutucado por recordações, visiona  no vidro  para-brisas  o filme de um enredo que turva há meses sua vida.

Ele tomava uma cerveja no bar da faculdade, quando um colega se sentou à sua frente. Mais que cerimonioso, começou a falar. Diogo, tenho uma má notícia para te dar, desculpe…, disse Geraldo, um brasileiro de Ubatuba,  botando a boca na tuba. Fala, colega, desafiou, desembucha.

É a Fafá, a tua Tuxa. Fiquei sabendo que ela faz michê, confidenciou, ciciando a voz. Michê, o que é isso?, indagou, Diogo. Perdoe o brasileirismo.. .é uma forma de alto meretrício, prostituição de luxo. Uma conterrânea minha, estudante de Enfermagem, que faz programa, contou que é colega de ofício da Fafá, revelou pesaroso.

A Tuxa nessa vida, não é possível, não acredito. Não acredito, não é possível, Lucy. Teu quarto está inundado de fotos, cartazes, posters desse Chúlio… Que fetiche é esse?

O cliente entrou impante no Swing Bar. Seus olhos aquilinos buscavam localizar uma mulher trajando um vestido preto, de corte evasé e um bolero azul elétrico. Quando a encontrou, saudou-a com falsa amenidade. É a menina Rosário? Eu sou o cliente Otávio, aliás, Otário.

A visada sentiu-se despida de resposta, despojada de dignidade, despossuída de ânimo e coragem para enfrentar  o constrangimento. O homem que contratara seus prestáveis, afáveis  serviços,  era alguém muito bem conhecido. Rosário ruborizou, suas faces se tornaram mais rouges  que o bâton realçando  os lábios carnudos e cinabrinos. Lábios que pintados de um cremoso glam red, não autorizaram que a boca se abrisse sequer para a mais protocolar das réplicas.

Lamento desiludi-la, mas decidi substitui-la por uma girl com a rodagem feita, decretou, inchado de sarcasmo. O freguês retirou um sobrescrito do bolso interior do blazer, colocou-o em frente da acompanhante e se afastou, em passo estugado. O assomo de um pudor paralisante impediu que a petrificada  Rosário abrisse  o envelope. Era  adivinhável que forma de desprezo  ele continha.

Não dissimulando a angústia para o jantar, que sobra para outras refeições, Di fecha o vítreo ecrã e guarda o filme no arquivo. Está chegando a hora de acelerar em direção à residência de Lúcia, para a agendada reunião de cópula, perdão, reunião de cúpula.

Não quero chegar aos 20 anos sem ter sido inaugurada, reclamou, categórica, a galeguinha, na última vez em que se encontraram. As minhas amigas e colegas até já gozam de mim. Agora, eu quero gozar contigo na minha cama, Diogo. Estás a entender?!  Sim, ele entendeu a luz verde da disponibilidade proativa da teenager  que tanto o encantava por ser parecida com a Joni Mitchell. Bom rapaz, ele não era adicto da lobo-mauzice. Mas que ninguém dissesse que menos prezava o reptp de uma donzela zero quilómetro.

Enfim, motivado para fazer o test drive da fiancée, Di pisa na tábua, driblando a desgraça do trânsito do fim de tarde, até ao pitoresco bairro da Graça.

Estás atrasado, Diego, cobra a buliçosa Lucy, vestindo insinuante um negligé de cetim. Temos que nos apressar, aquela minha tia beata vem  me visitar depois do jantar, para verificar se estou inteira. Inteira, isto é, ainda virgem, ironiza o suado motorista. Querido, vai tomar um banho, mas não demores.

Uma ducha rápida, mas que dá tempo para pensar na aparição repentina de Fafá. Ela não está bem, aspeto macilento, olheiras até aos pés, cabelos desgrenhados, vestindo uma t-shirt  desbotada , jeans coçadas, uma caricatura da mulher formosa e perfumosa que o enfeitiçara numa aula.  Hoje, contudo, estava nos antípodas da triumphante Lucy, vestida com uma lingerie colorida de lilás djavan, perfumada de Miss Dior, que o desafia à porta do quarto.

Lúcia de Jesus, que ideia é essa de profanar  o teu, nosso santuário. Essas imagens indecorosas  do Chúlio Iglésias!. Chúlio? Exato, querida. Parece impossível. Se ainda fossem fotos do Joan Manuel Serrat  era tolerável.  Serrá, não conheço?!  Quem vai te serrar ao meio, sou eu. Porém, aqui não te inauguro. Esta poluição idólatra cortou o fio da minha tesoura. Tens de afiá-la, mas noutro quarto …

Sob pressão, a anfitriã sugere, lesta, o escritório.  E como penitência vais ter de rezar o rosário todo. Obediente, Lúcia ajoelha e começa a ora(liza)r, abrindo sôfrega os lábios, em tom de joli red.  Quando inicia o segundo terço, Diogo contemporiza . Levantando-se  do canapé de couro estofado, sugere que saltem os prolegômenos  e passem ao finalmente. E por bom fim, embora um tanto burocrático, o abensuado mancebo corta a fita da cachopa. A interrupção da litania do rosário revelou-se  providencial. De outra forma, a titia carola teria surpreendido o casalinho em plena cerimônia iniciática. Foi mesmo à tangente.

À tangente, resvés Campo de Ourique, a Mercedes escapa de uma colisão no cruzamento da Ferreira Borges com a Coelho da Rocha. O volante não é o leme mais adequado para quem acusa um agudo sentimento de culpa e remorso. A destempo, reconhece ter ajuizado com excessiva  severidade a traição de Fátima. Juiz cruel e implacável não faz justiça, consuma vingança.

Fafá telefonou, escreveu, pediu desculpa, rogou perdão, castanhos olhos umedecidos. Despeitado, Di revidou com sobranceira  indiferença. Soube que ela trancara a matrícula na fac e regressara a modesta casa da família em Aljustrel, próximo do santuário mariano. Nem sequer o comoveu o fato de Rosário ter abdicado do metiê, doando a uma IPSS os honorários do serviço (não) prestado.

Captando a brisa refrescante da lucidez, Di para o carro. Liga o autorrádio e escuta o dueto de Maria Bethânia com Serrat. “Não escolha só uma fatia/me aceita como eu me dou/inteira e tal como sou/não se engane à luz do dia.” ‘Sinceramente Teu’ soa como a senha de uma operação de resgate afetivo. Ele decide inverter o sentido, a direção da Mercedes, mas antes de tudo, da sua vida sentimental. E parte em roMaria de Fátima, demandando a mais transcendente das mariofanias. Nem que tenha de fazer o percurso a pé.

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Danyel Guerra (aka Danni Guerra) nasceu na cidade do Rio de Janeiro, Brasil. Tem uma licenciatura em História Universal da Infâmia pela FLUP. É jornalista nas horas (mal) pagas e autor literário nas horas com vagas.
Publicou os livros ‘Tomás Gonzaga-Em Busca da Musa Clio´’, ‘ Amor, Città Aperta’, ‘O Céu sobre Berlin’, ‘Excitações Klimtorianas’, ‘O Apojo das Ninfas’, ‘Oito e demy’, ‘Fernando de Barros-O Português do Cinemoda’ e ‘Os Homens da Minha Vida’.

2 comentários em “RoMARIA DE FÁTIMA – por Danyel Guerra”

  1. Felicito o Danyel por este Conto que apreciei. Um interessante jogo de palavras metafóricas , satíricas e divertidas. Um abraço cinéfilo/literário. Artur

    1. Valeu, Caro Artur, pelo teu feedback. É para leitores com tua sensibilidade cultural e argúcia interpretativa que eu escrevo. Abraço cinéfilo

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