AFONSO LOPES VIEIRA: o Tradutor de Kropotkine – por Cecília Barreira

O Poeta de País Lilás, Desterro Azul continua por reanalisar, apesar do brilhante ensaio que Aquilino lhe dedica in Camões. Camilo, Eça e Alguns Mais e dos lúcidos esclarecimentos de David Mourão Ferreira in Lâmpadas no Escuro – de Herculano a Torga.'(1) Deparamo-nos, desde logo, com um singular percurso político-ideológico que, tendo-se iniciado no lirismo intuitivamente inspirado em Nobre (lembremo-nos de Para Quê?), rondaria o anarquismo tolstoiano, sentiria a sedução dos escritos de Kropotkine, esgueirando-se, anos mais tarde, pelas complexas teias do lusismo integralista, vindo a assumir um anti-salazarismo. Porque, verdade seja dita, Lopes Vieira assumiu-se sempre na marginalidade aos vários poderes estabelecidos, na posição crítica, nunca desvanecida face ao statu quo. Há nele um pendor irresistível para o contrapoder, não no seu carácter subversivo, ou radical, mas na assumpção dum aristocratismo intelectual, num apurado sentido da justiça, de denúncia dos regimes opressivos e totalitários. Desde a «Nação Portuguesa», passando pela «Seara Nova», o poeta de Ilhas de Bruma cintila, ao lado dos grupos mais acerbamente críticos em relação à experiência republicana, com a sua suave rima lírica, musical e doce, de têmpera heróica quando empolgada de fulgor nacionalista.

Retornemos à questão – ou ao ponto de percurso – que ora nos preocupa nestas nótulas: a sedução anarquista’ dos seus vinte e poucos anos. Do próprio Poeta recolhemos as palavras que Aquilino Ribeiro lhe atribui na obra acima referida:

«(Perguntava Aquilino) – (… ) Mas, franqueza, franquezinha, Afonso amigo, coração leal de Amadis: também passou pela portela anarquista … ?

 – Como toda a gente que se preza. É a forma protoplásmica da generosidade mental. O nosso coração, na mocidade da vida, precisa duma fórmula ardente e ofereciam-nos aquela: Que admira! Depois, com o tempo, despimos as roupagens absurdas da utopia, e fica apenas a essência, o humano. Desta maneira, continuo a ser anarquista.

– De facto, pela inconformidade, você e de modo geral todas as almas portées à generosidade e à simpatia pelo seu próximo, continuam anarquistas.

Não tenho que me envergonhar. De resto, essa brochura explica-se ainda por uma paixoneta que tive pela sobrinha de Kropotkine que conheci em Paris. Não me arrastou ela até Londres?» (2)

– Que a tradução do folheto de Kroptkine, À Gente Nova, se tenha devido a uma paixão amorosa (pela sobrinha anarquista … ) é um pormenor sem dúvida interessante, mas não totalmente esclarecedor. Na realidade, A Gente Nova (Lisboa, Livraria Editora Viúva Tavares Cardoso, 1904, 31 p.), constitui versão de Lopes Vieira do folheto do anarquista russo. Aí podemos intuir a aproximação com determinados ambientes soturnos e de miséria em que se encontrava envolta a classe operária em inícios do século e que Raul Brandão primorosamente descreveria em algumas das suas obras de ficção, designadamente n’Os Pobres. Mas é no significado do anarquista, enquanto figura protestatária da sociedade capitalista-liberal, que teceremos algumas considerações. O anarquista dos nossos tempos já não corresponde com toda a exactidão à imagem bakouninista e kropotkiniana que serviu de inspiração a Lopes Vieira e Raul Brandão.

Enquanto hoje se aposta no negativismo sem qualquer conotação de uma visão social, o antepassado anarquista simbolizava, no rasgo e na postura perante o real, o Profeta libertador, misto de S. Francisco de Assis e Pai, proclamando um socialismo cristão e humanista, sofrendo pela dor alheia, com uma noção compadecida da luta das classes oprimidas. Ainda em finais do século XIX Raul Brandão, no belíssimo livro A Morte do Palhaço, falaria assim de uma das suas personagens:

 «O Anarquista tinha gestos de profeta, e na sua eloquência havia rasgos de visionário: como um vendaval que arromba portas, assim ela entrava pelo sonho dentro, engrandecida. Evocava as multidões, a miséria humana, a dor humana.» (3)

É nesta feição essencialmente profética e anunciadora do Anarquismo que Lopes Vieira encontra um filão que vai ao encontro da sua própria maneira de encarar a vida. Num passo de A Gente Nova, refere:

«Criancinhas amarelas, tiritando, olhar-vos-ão com olhos espantados. O marido trabalhou toda a vida doze a treze horas por dia em qualquer ofício: agora há três meses que não tem trabalho.» (4)

O fantasma da tísica, que constitui uma das obsessões mais virulentamente assinaladas pelos homens da geração de 90, designadamente em Nobre, é agora reposto e enquadrado socialmente: doença dos pobres por falta de condições de higienização e de subsistência mínimas;

«Dir-vos-á que essa mulher que tosse do tabique, é uma pobre costureira; que a engomadeira do rés-do-chão não chegará também à Primavera, e que no prédio do lado é tudo ainda pior.» (5)

Mas é ainda a revolução social(ista) que é promovida a solução para os males que afligem a sociedade liberal: O socialismo institui-se em processo de planificação do altruísmo social, da equidade, da fraternidade entre pessoas e povos:

“O momento não é para fazer descobertas! Trabalhemos, primeiro na transformação do regime de produção; quando a propriedade individual for abolida, cada novo progresso industrial far-se-á em benefício de toda a humanidade, e a imensa multidão de trabalhadores – máquinas hoje -, seres pensantes então (… ), dará ao progresso técnico um impulso cujos efeitos maravilhosos nós hoje podemos prever.. (6)

Neste entrecho tem oportunidade o autor de Para Quê? de se rever em outra das suas posições de fundo: o combate à máquina, ao monstro que domina a sociedade industrial, submetendo tudo e todos a um ritmo inumano, brutal, frustrante, imparável.

Existem, portanto, características de humanismo e de protesto social no ideário anarquista que são partilhadas e que não se encontram longe dos horizontes mentais de Lopes Vieira reflectindo-se, com toda a pungente beleza, na novela Marques recentemente recuperada da obscuridade em que injustamente se encontrava.

O tradutor de Kropotkine trazia em si a carga humanista do futuro opositor de Salazar.

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Cecília Barreira nasceu em Lisboa, licenciou se em História na Faculdade de Letras de Lisboa e entrou como assistente estagiária na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, nos anos 80.  Em 1991 defendeu doutoramento na FCSH e em 1999 agregou se em Cultura Portuguesa Contemporânea. É autora de muitos ensaios  sobre figuras do pensamento contemporâneo. Escreve poesia como hobby. Pertence ao CHAM-Centro de Humanidades como Investigadora Integrada.

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