ARGUMENTUM E SILENTIO – por Luís Costa

18 poemas de Paul Celan
Versões de Luís Costa

@Artur Cruzeiro Seixas

Ouvi dizer

Ouvi dizer que na água havia
uma pedra e um círculo
e sobre a água uma palavra
que põe o círculo à volta da pedra.

Eu vi o meu choupo descer à água,
vi como o seu braço mergulhava na profundeza,
vi as suas raízes viradas para o céu, implorando pela noite.

Não corri atrás delas,
colhi apenas do chão a migalha
que tem a forma e a nobreza de teus olhos,
e tirei-te o cordão das sentenças do pescoço
e enfeitei a mesa com ele, onde agora está a migalha.
E nunca mais vi o meu choupo.


 

Foto de José Boldt

Os cântaros

Nas longas mesas do tempo
bebem os cântaros de Deus.
Bebem os olhos dos videntes
e os olhos dos cegos, até ao fundo,
os corações das sombras que imperam,
a face oca do entardecer.

Eles são os bebedores poderosos:
levam igualmente o vazio e o cheio à boca
e não transbordam de espuma
como tu ou eu.


Foto de Mariam Sitchinava

Corona

O outono come a sua folha na minha mão: somos amigos.
Descascamos o tempo das nozes e ensinamo-las a caminhar:
o tempo regressa à casca.

No espelho é domingo,
no sono dorme-se,
a boca diz a verdade.

O meu olho desliza até ao sexo da amada:

olhamo-nos,
trocamos palavras obscuras,
amamo-nos como papoila e memória,
dormimos como o vinho nas conchas,
como mar no raio sangrento da lua.

Estamos abraçados à janela, eles olham-nos da rua:
é tempo de sabermos,
tempo para que a pedra possa florescer,
para que bata um coração no desassossego,
é tempo de ser tempo.

É tempo.

@ Paulo Burnay

Flor

A pedra
a pedra no ar, eu a segui.
O teu olho tão cego como a pedra.
Éramos
mãos,

esvaziamos a obscuridade, encontrámos
a palavra que vicejou até ao verão:
flor.

Flor, uma palavra de cegos.
O teu olho e o meu olho:
buscam
a água.

Crescimento.
Vai-se folheando
de parede em parede do coração.
Mais uma palavra como esta, e os martelos
oscilam no espaço aberto.


Argumentum e silentio

Para René Char

Acorrentada
entre ouro e esquecimento:
a noite
ambos quiserem prendê-la
a ambos concedeu o seu propósito
Põe
põe também agora ali
o que quer subir do crepúsculo
junto aos dias
a palavra sobrevoada de estrelas
o mar derramado

A cada um a palavra
a cada um a palavra que o cantou
quando a matilha o feriu * pelas costas
a cada um a palavra que o cantou
e caiu petrificada

A ela, à noite
a noite sobrevoada
o mar derramado

a ela, a palavra oculta
cujo sangue não coalhou
quando o dente venenoso
trespassou as sílabas.

A ela, a palavra oculta
Contra os outros, que, de pronto,
prostituídos pelas orelhas dos esfoladores
escalaram o tempo e os tempos
testemunha por último
por último, quando só as correntes soam
testemunha por aquela que que além jaz
entre ouro e esquecimento
irmã de ambos desde sempre

Pois onde
madruga, diz, senão nela,
que na correnteza das suas lágrimas
afundando-se nos sóis, a semente mostra
uma e outra vez?

* No original: hinterrücks anfiel, atacou, ou assaltou pelas costas.

Artur Cruzeiro Seixas

Assis

Noite úmbrica
Noite úmbrica com a prata do címbalo e folhas de oliveira.
Noite úmbrica com a pedra que até aqui trouxeste.
Noite úmbrica com a pedra.

Sem voz, tudo quanto ascendeu à vida, sem voz.
Trasfega os cântaros, trasfega.

Cântaro de barro.
Cântaro de barro com que cresceu a mão do oleiro.
Cântaro de barro que a mão de uma sombra selou para sempre.
Cântaro de barro com o espelho da sombra.

Pedras, até onde consegues ver, pedras
Deixa o jumento entrar.

Jumento.
Jumento na neve que a mão mais despida espalha.
Jumento perante a palavra que caiu cerrada.
Jumento que come o sono da mão.

Brilho que não alcança o consolo, brilho.
Os mortos ainda mendigam, Francisco.


Artur Cruzeiro seixas

Radix, matrix

Como quem fala com a pedra,
como tu,
vinda do abismo até mim,
desde uma pátria irmanada,
lançada até aqui, tu,
tu de um tempo remoto,
do nada de uma noite,
tu que na nem – noite vens
ao meu encontro, tu
nem – tu:
Outrora, quando eu não estava
outrora, quando
medias o campo, sozinha:
Quem,
quem era aquela raça
assassinada, aquele raça
negra erguida no céu:
vara e testículo?
(Raiz.
raiz de Abraão. Raiz de Jessé. Raiz
de ninguém – Oh
nossa.)
Sim,
como quem fala com a pedra,
como tu
que com as minhas mãos agarras ali
e no nada, assim é
o que aqui é:
também este
solo frutífero se abre,
este
abismo,
uma das coroas
que cresce silvestre.


Grade de linguagem

@ Artur Cruzeiro Seixas

Redondez de olho entre as barras.
Pálpebra animal tremulante
rema para cima,
concede uma mirada livre.

Íris, nadadora, turva e sem sonhos:
o céu, coração cinzento, deve estar próximo.

Oblíqua, na boquilha férrea,
a lasca fumegante.
Na razão da luz,
adivinhas a alma.

(Se eu fosse como tu. Se tu fosses como eu.
Não estaríamos debaixo
de um só Alísio?
Somos estranhos)
As lajes. Sobre elas,
muito juntas, ambas
poças de coração cinzento:
duas
bocas repletas de silêncio.


Bebo vinho de duas taças…

Bebo vinho de duas taças
e ziguezagueio a cesura
do rei
como o outro
em Píndaro

deus cede o diapasão
como um dos pequenos
justos

do tambor das sortes  cai
o nosso naco.


Com carta e relógio

Cera
para lacrar o não escrito
que adivinhou
o teu nome,
que encripta
o teu nome.

Já vens, luz flutuante?

Dedos, de cera também,
arrancados por
anéis doridos e alheios.
Derretidas as pontas.

Vens, luz flutuante?

vazios de tempo os favos
do relógio,
nupciais as mil abelhas,
prontas para a viagem.

Vem, luz flutuante.


Qualquer das pedras que levantes

Qualquer das pedras que levantes
descobres
aqueles que necessitam do abrigo das pedras:
nus
já renovam o entrelaçamento.

Qualquer das árvores que abatas
constróis
o leito sobre o qual
as almas outrora se amontoavam
como se não se afligisse
também este
Éon.
Qualquer palavra que digas
deve-la
à perdição.


Conta as amêndoas…

Conta as amêndoas,
conta o que era amargo e te mantinha acordado,
conta-me com elas:

Procurei o teu olho, quando o abrias e ninguém te olhava;
fiei aquele fio secreto,
o orvalho em que pensavas
desceu aos cântaros;
guarda-os uma sentença que não encontrou nenhum coração.

Só então entraste, inteira, no nome que te pertence;
caminhaste com passos seguros na tua direção,
os martelos oscilavam livremente nas armações do teu silêncio,
o que ouviste uniu-se a ti,
o morto também pôs o braço à tua volta,
e os três caminhastes através da tarde.

Torna-me amargo.
Conta-me com as amêndoas.

 

Parte de neve…

Parte de neve, empinada, até ao fim, no vento que se ergue para sempre diante das cabanas sem janelas: sonhos rasos silvam por cima do gelo estriado arrancar a golpes as sombras da palavra, entreabri-las à volta dos grampos no fosso.


Estar…

Estar  na sombra
da cicatriz
no ar.

para – ninguém – e – nada- estar.
irreconhecido

para ti.

com tudo o que dentro tem espaço
também
sem fala.


[O nada]

O nada, por amor
de nossos nomes
(eles reúnem-nos)
sela

o fim crê-nos no
princípio

perante os mestres que
com o seu silêncio
nos envolvem

no inseparável  testemunha-se
a hirta
claridade.


[Ouro naufragado]

Atiras-me
Com ouro naufragado:

Talvez algum peixe
Se deixe subornar.


 

Artur Cruzeiro Seixas

Iluminados…

Iluminados
Os germes que em ti
Alcancei nadando

Libertos à força de remos
Os nomes
Que atravessam os estreitos
À frente
Uma bênção cerra-se
Um punho sensível
À intempérie.


A canção do trapaceiro

                       Uma canção de trapaceiros e chantagistas
cantada em PARIS EMPRÈS PONTOISE
por Paul Celan
de Chernivtsi, Sadagura.

                                        por vezes só em tempos obscuros
                                        Heinrich Heine

Outrora
quando a forca ainda existia
nessa altura, não é verdade, havia
alguma coisa lá em cima.

onde está a minha barba,
vento,
a minha nódoa de judeu,
a barba que me arrancas.
o caminho era torto, sim
o caminho por onde eu seguia,
depois, sim,
depois era direito.

eia

torto
assim há – de ser o meu nariz.
nariz.

e nós também fomos para Friul.
nessa altura teríamos, teríamos.
pois a amendoeira estava em flor.
amendoeira mandaloeira
sonhadeira mandaloeira

e também a manchaloeira
chandeleira

eia
ah

envoi

mas
ela arvora-se, a árvore.
ela,
também ela
é contra a peste.
outrora
quando a forca ainda existia
nessa altura, não é verdade, havia
alguma coisa lá em cima.

♦♦♦

Todos os poemas foram traduzidos do livro:  Paul Celan, Die Gedichte, kommentierte Gesamtausgabe, Suhrkamp, erste Auflage 2005.

Paul Celan, poeta de língua alemã, pseudónimo de Paul Antschel, nasceu em Chernovitz (antiga Roménia, hoje Ucrânia) a 23 de Novembro de 1920.

Em 1938 começa a estudar medicina em Tours. Um ano mais tarde, abandona os estudos de medicina e volta a Chernovitz para aí estudar romanística.

Em 1942, os seus pais, judeus de origem alemã, são internados num campo de concentração. O pai de Celan morre de tifo, a sua mãe é assassinada.

De 1942 a 1943, Celan encontra-se, igualmente, preso em vários campos de concentração romenos, sendo obrigado a trabalhos forçados. Em 1947 é libertado.

Chernovitz está agora nas mãos do Exército Vermelho. Ainda no mesmo ano, Celan abandona Chernovitz para fugir à ditadura estalinista.

Depois de viver durante algum tempo em Viana de Áustria, parte para Paris, cidade onde vai permanecer desde 1948 até ao seu suicídio em 1970.

Celan é considerado um dos maiores poetas da poesia alemã do pós-guerra. Em 1960 foi-lhe atribuído o Georg-Büchner-Preis, o prémio literário mais importante da Alemanha.

Ainda durante o seu tempo de estudante, Celan ocupa-se, em pormenor, com a poesia de Hölderlin, Rilke e dos simbolistas franceses que o influenciam profundamente.

Na sua poesia também se descobrem influências surrealistas (Celan esteve muito próximo da secção surrealista romena) e expressionistas.

O problema da linguagem vem a ser um dos temas centrais da sua poética.

Muitos dos poemas de Celan jogam com a forma fragmentária, cultivada pelos românticos, e procuram sondar, o mais próximo possível, as fronteiras entre o dizível e o indizível. Exemplo disso é o livro: Von Schwelle zu Schwelle (de patamar em patamar).

Numerosos motivos bíblicos bem como o uso de neologismos são igualmente traços marcantes desta poética. Muitos dos poemas de Celan, sobretudo os da primeira fase, espelham, de uma maneira muito original, o sofrimento do povo judeu durante o Holocausto. Deste modo, Celan opõe-se ao filósofo Theodor W. Ardono o qual afirmava que escrever poemas depois de Auschwitz é barbárico.

Paul Celan foi, para além de grande poeta, também um excelente tradutor, traduzindo autores russos, italianos, franceses, ingleses, romenos etc. Entre os muitos dos poetas que traduziu encontra-se também Fernando Pessoa.

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