A CHUVA QUE DERRETE O MÁRMORE ATÉ AO CADÁVER – por Alberte Momán Noval

                               
O poema
como um orgasmo após outro
numa produção fordista.

 

Não posso mentir,
não sou o melhor amante.
O pior de tudo é a cadência
como uma adição monótona.

E o silêncio cúmplice das expressões,
o rosto imutável,
a pele tão só morna e suave.
Repetir que não é possível chegar mais longe,
ficar num beco obscuro,
estreito e húmido
sem apenas uma saída certa.
Perguntar mais uma vez
por que o verso não chega ao final da página.
Ganhar distância com cada palavra,

criar a voz com as falanges
entre as folhas,
passando de vagar,
construindo um desejo que não se vê mais cumprido.

O poema
é a imagem reflectida no espelho
onde se procura o próprio prazer,
o amor,
a beleza que o corpo
acredita ausente.
O poema são os outros,
aquele não lugar que construíram para nós,
para o eu que sou apenas uma sombra dele
e o espelho como instrumento,
a página que fica em branco, imaculada,
com a sua voz percutindo sobre os tempos
para dizer que precisa ser desflorada
e não ser assim a virgem que fica deitada
com as pernas abertas,
aguardando o poema que nasce sem o contacto prévio,
sem o aroma dos fluidos que impregna os genitais.
Não, não quero morrer assim,
sem o berro desesperado,
sem rachar a página debilitada pelo cuspe e as lágrimas.

Desejo morrer com a pequena morte
aprofundando como um cancro
que se expande,
que se nutre do próprio ser.
Assim,
como a voz que não mingua
e repete:
assim, assim, assim mais uma vez.

♣♣♣

Aguardei a tarde toda

ao tempo que Thel anunciava: «Charlie, eu nunca te amei de verdade mesmo»

e Charlie replicava «Eu nunca deixei de amar-te, Thel»

Esse tipo de confissões ditam os impulsos

e a prudência recomenda que é preciso não os contradizer.

«Estou preparado para fazer uma pequena matança por minha conta»

Medrando sob as calças os impulsos tiveram a vontade de desouvir meu mandado.

«Tu és William Blake, um poeta, um pintor e agora um matador de homens brancos»

Ele perguntou se sabia usar essa arma.

Não soube que responder.

Sempre considerei importante definir o contexto.

O uso dessa arma fora do contexto adequado é que constitui o delito.

Fizeras planos para nós,

desejavas criar o contexto adequado.

Aguardei a tarde toda suportando o impulso,

a vontade de fazer uma pequena matança por minha conta.

Aguardei a tarde toda

contando os minutos.

 

♣♣♣

Não volverei para mostrar as cicatrizes
ainda que elas fiquem arrumadas e prontas para o uso.
O poema que medra sob as calças não tem nome,
é outra forma de morrer devagar
como quem aguarda.
Uma história, uma perspectiva que fita desde longe,
uma defesa passiva,
a vontade de escutar e não dizer,
a crença de que tudo é mutável
e o tempo que resta para a mudança.
O poema és se te mostras ausente,
se escreves com uma faca no peito dos inocentes
as palavras que compõem o poema,
marcando as sílabas com demorada insistência,
como se a dor fosse um recurso necessário
e ele só um jeito de provocá-la.
Derramo os versos que resvalam pela coxa,
quentes e húmidos.
Centras a atenção no meu gesto que contrai o rosto.
Sou apenas um nome,
a silhueta do poema que fica esquecido
no guardanapo de qualquer bar
com a marca dos teus lábios gravada na memória.

in "A chuva que derrete o mármore até chegar ao cadáver."

Livros de Ontem. 2016

Alberte Momán Noval. Ferrol. 1976. Escrevo por acaso. Esses acasos que acontecem quando não se tem claro o caminho certo. No meu primeiro livro, O lobo da xente (Positivas. 2003) falava sobre mim e no meu último, Tripas (Belagua. 2017) também falo sobre mim, pelo que acho que levo toda a vida escrevendo o mesmo livro. Acredito na ideia de que algum dia deverei cambiar de tema o abandonar a escrita.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *