O ABORRECIMENTO – por Fernando Martinho Guimarães

Nunca, como nos dias de hoje, se foi tão solicitado a estarmos sempre ocupados.

Em lugar de procurarmos compreender e aprender, pedem-nos que dediquemos os nossos dias a empreender – o empreendorismo tornou-se um modo de vida. E a vida torna-se um zapping constante – uma azáfama, um frenesim. Continuar a ler “O ABORRECIMENTO – por Fernando Martinho Guimarães”

TOMANDO UM KAFKAFÉ COM ELE – por Danyel Guerra

Lygia Fagundes Telles © Acervo Arquivo Nacional

 

“(…)’As glórias que vêm tarde, já vêm frias’,

  escreveu o Dirceu de Marília. Me leia enquanto estou quente”                                

 Lygia F. T. 

    TOMANDO UM KAFKAFÉ COM ELE

 

Exuberância tecida de curiosidade, Lygia entra no jardim dos caminhos que se bifurcam, dirigindo-se, sem hesitações, ao canteiro nº 40. Embevecida, captura, ávida, a fragrância da rosa imarcescível, o primoroso exemplar do borgeano jardineiro. “(…) ninguém pensou que o livro e o labirinto eram um único objeto”. Continuar a ler “TOMANDO UM KAFKAFÉ COM ELE – por Danyel Guerra”

REFLECTIONS OF A STRANDED NOMAD – por Alexandra M.

Fire and Ice (South India, January 2020)

A dramatic title for the description of two mundane things. Winter in the tropics. Winter in Portugal. And yet so accurate. The temperature around me dictates my mood much more than I would like to allow. Give me sun and heat and I will be happy and pleasant. Give me cold and grey and I am too uncomfortable to be nice. Luckily I was born in one of the sunniest countries in the world so there the combination of both, cold and grey, is rare. Which doesn’t stop me from fleeing to warmer latitudes as much as possible. Continuar a ler “REFLECTIONS OF A STRANDED NOMAD – por Alexandra M.”

O SILÊNCIO – por Manuel Igreja Cardoso

Foto by Eugene Liashchevskyi

O silêncio é um dom e é um tom. Um dom, porque na ordem das coisas da mãe natureza que tantas vezes mais parece não haver ordem, nos é disponibilizado com todo o esplendor para nele ouvirmos os sons mais profundos das veredas da alma. Um tom, porque como sabemos, uma pausa também é música quando esta ostenta o timbre dos anjos.    Continuar a ler “O SILÊNCIO – por Manuel Igreja Cardoso”

NAS NÚVENS – por Fernando Martinho Guimarães

“O Infinito Reconhecimento”, by Rene Magritte

Além da infância, em que olhar as nuvens e brincar descobrindo formas nelas é uma tarefa a que nos dedicamos com todo o empenho, são poucas as vezes em que as olhamos com olhos de ver.

Esta injustiça para com as nuvens é sinal evidente de que ser criança é coisa já passada há muito tempo e que, à inconsciência disso, acrescentamos a ignorância das coisas que fazem da infância a fase mais feliz da vida. Continuar a ler “NAS NÚVENS – por Fernando Martinho Guimarães”

A TOLERÂNCIA – por Manuel Igreja Cardoso

Não vão muito de feição para os campos da tolerância os ventos que sopram na espuma dos dias nesta nossa modernidade. Ao contrário do medo, ela não nasce connosco. Germina, desponta, mas facilmente mirra quando não é cultivada e quando as pragas urdidas pelos temeres a infetam. Continuar a ler “A TOLERÂNCIA – por Manuel Igreja Cardoso”

POR QUÊ, A REALIDADE NÃO SE CANSA?… – por Rodrigo Costa

“Luz e Coerência” by Rodrigo Costa

… Numa das minhas voltas pela actualidade, fiquei a par do que, em resumo, é o livro, de memórias, de Francisco Pinto Balsemão… De algumas memórias, porque, de acordo com o próprio, nem todas convém serem lembradas. De relevante, no alinhamento, a confirmação, colateral, de que o País tem estado sob a tutela de jovens companheiros da vida airada; gente que nasceu e cresceu em clima de inocentes aventuras —razão porque, no topo da pirâmide, haja o que houver, não há culpados. E não há, por ser incoerente culpar quem, medrando em parcerias de irresponsabilidade, tem tido permissão para ser governo. Continuar a ler “POR QUÊ, A REALIDADE NÃO SE CANSA?… – por Rodrigo Costa”

…DA INSÓNIA – Fernando Martinho Guimarães

 

O que se pode dizer sobre a insónia? Que é uma moléstia, um distúrbio do sono, uma disfunção, uma falha, um desarranjo. Como anomalia, a insónia pode ir do simples desassossego em ter dificuldade de adormecer ao desespero da privação do sono.

Dormir é importante. Lembram-no constantemente o nosso médico de família, como também os muitos programas televisivos que se preocupam com a nossa saúde – o sono é regenerador, dormir sete horas por dia é essencial, deitar cedo e cedo erguer, dá saúde e faz crescer.

Pelo sono, todo o acordar é um começar de novo, um recomeço. Despertar de um sono restaurador de energias é instalar a esperança no dia que se inicia. Dormir tem isto de reconfortante e de enganador: permite-nos esquecer as preocupações da vida, ausentarmo-nos do mundo. Porém, com o andar do dia, os problemas e as preocupações acabam sempre por nos encontrar.

É assim natural que, do lado do sono, só encontremos benefícios. Alheios de nós e do mundo, abandonamo-nos à inconsciência que é cair nos braços da sonolência e do adormecimento. O paraíso apenas o é porque nele se pode dormir. No inferno, não!

Na insónia, na privação do sono, tudo concorre para nos atormentar, por um excesso de lucidez. Despertos contra a vontade, sofremos, pela insónia, com a desmesura de pensamentos que recomeçam sempre. Quem conhece a experiência da insónia, sabe o tormento que é querer dormir e não conseguir. E, no entanto, a impossibilidade de dormir é saudada como uma oportunidade de fazermos coisas. De acrescentar tempo ao tempo.

No livro Cem Anos de Solidão, que deu a imortalidade a Gabriel Garcia Marques – e o prémio Nobel da Literatura -, narra-se, a certa altura, o alastrar da epidemia da insónia. Os habitantes de Macondo, a aldeia onde se passa o romance, são acometidos da «peste da insónia». Acordados contra a vontade, aproveitam para tirar vantagem da nova condição – tudo o que havia para fazer é feito, e a produtividade torna-se uma vertigem que toma conta de todos. Rapidamente se dão conta que a exaustão e o tédio são consequências de não dormir. Sem sono, sem dormir, as coordenadas do tempo esfumam-se e as lembranças também – paradoxalmente, ou se calhar não, o esquecimento é a consequência de estar permanentemente acordado. Sem mais nada para fazer, sem conseguirem fazer mais nada, são muitos os que desejam voltar a dormir, nem que seja por simples saudade dos sonhos.

Fernando Pessoa, quer dizer, um dos seus heterónimos, Álvaro de Campos, diz-nos isso num poema, precisamente chamado Insónia: «Não durmo; não posso ler quando acordo de noite, / Não posso escrever quando acordo de noite, / Não posso pensar quando acordo de noite -/ Meu Deus, nem posso sonhar quando acordo de noite!»

Quer dizer, o que é preocupante na insónia é, afinal de contas, a impossibilidade de sonharmos.

♦♦♦

Fernando Martinho Guimarães (1960) Nascido transmontano (Alijó, Vila Real), foi na cidade do Porto que viveu até aos princípios dos anos 80. De formação filosófica e literária, a sua produção ensaística e poética reflecte essa duplicidade. Publicou em 1996 A Invenção da Morte (ensaio), em 2000 56 Poemas, em 2003 Ilhas Suspensas (edição bilingue, castelhano/português), em 2005 Apenas um Tédio que a doer não chega e em 2008 Crónicas.

O MEDO – por Manuel Igreja

 

O medo tolhe-nos. Rouba-nos o discernimento, aumenta-nos a desumanidade, cobre-nos de egoísmo primário. O medo sem que se perceba, pode fazer com que uma comunidade cordata e amiga do seu amigo e companheira do seu vizinho se transforme num ninho de vespas onde campeia a crueldade impelida por uma quase absoluta insanidade mental. Continuar a ler “O MEDO – por Manuel Igreja”

O SONHO DO SARGENTO PIMENTA – por Danyel Guerra

  

John Lennon e Yoko Ono (Foto: AP)

 

“I dreamed about  you last night and I fell out the bed twice”

                                           Morrisey, citando Shelagh Delaney           

A noite passada, o Sargento Pimenta sonhou  com  Nara e caiu da cama duas vezes. A sério, podem crer. Alerto porém que esta Nara não é, esclareça-se, a cidade dourada que no século VIII foi içada a primeira capital do Japão. Embora ela, a cidade, se tenha, antes de tudo, singularizado pela zen serenidade de seus templos budistas e pelos parques povoados  de cervos prenhes de meiguice. Continuar a ler “O SONHO DO SARGENTO PIMENTA – por Danyel Guerra”

OS AÇORES E AS FESTAS DO ESPIRITO SANTO – por Fernando Martinho Guimarães

Tradição significa «passar adiante», «entregar». Neste sentido, a tradição, costumes, símbolos, memórias, hábitos, cerimónias, festas, é aquilo que passa de geração em geração.

O conjunto dos bens culturais que constituem a tradição de um grupo, de um povo, assegura a sua permanência, a continuidade de uma identidade social e cultural. Continuar a ler “OS AÇORES E AS FESTAS DO ESPIRITO SANTO – por Fernando Martinho Guimarães”

A LIBERDADE – por Manuel Igreja

“Gaivota”, por Clarice Lispector.

Por razões de circunstância que somente terão a ver com coincidência, nas últimas quase cinco décadas, em Portugal a palavra Liberdade surge-nos quase geminada com a palavra Primavera.

Apetece-me dizer ainda bem, pois uma e outra dizem-nos daquilo que mais belo existe na vida de uma pessoa. Há muitas outras mais, mal de nós se as não houver, mas esta duas provocam-nos um brilhozinho nos olhos e um encher d’alma. Continuar a ler “A LIBERDADE – por Manuel Igreja”

PARA UM ELOGIO DA TRISTEZA – por Fernando Martinho Guimarães

Fotografia de Luís Guerra e Paz

Não há bem que sempre dure, nem mal que nunca acabe.

Depois da festa, sobram as cinzas, quer dizer, à exuberância carnavalesca sucede-se a míngua expiadora do jejum.

O carnaval são três dias mas, admitam comigo, ao terceiro dia ansiamos o regresso à normalidade, isto é, o regresso da tristeza. Continuar a ler “PARA UM ELOGIO DA TRISTEZA – por Fernando Martinho Guimarães”

TEXTOSTERONA-PRENSAMENTOS & DESAFORISMOS – III Série- por Danyel Guerra

TEXTOSTERONA

        PRENSAMENTOS & DESAFORISMOS

     CORTESÃS E MERETRIZES

 

As cortesãs com boa reputação são cumuladas com as rosas de Piéria, poetadas por Safo.

As de má reputação têm de se contentar com as rosas de pilhéria. Continuar a ler “TEXTOSTERONA-PRENSAMENTOS & DESAFORISMOS – III Série- por Danyel Guerra”

AMAR ANICÉE ALVINA – por Danyel Guerra

“Havia um jardim de Vênus, de roseiras rodeado,

 o grato campo da senhora, que quem tivesse visto amava”

      Floro

AMAR ANICÉE ALVINA

Que deslumbrante sinestesia. Uma noite destas, escutei no rádio, Carminho e Seu Francisco cantando a maviosa Carolina, numa interpretação timbrada pela depuração do sublimado. Inadvertida, a audição me sugeriu uma vertiginosa associação de ideias e de sentidos. Na tela da minha memória tremularam sequências de  Le Jeu avec le Feu (1975), de Alain Robbe-Grillet, reavivando algumas boas lembranças cinéfilas. Continuar a ler “AMAR ANICÉE ALVINA – por Danyel Guerra”

ERROS, ENGANOS E MENTIRAS – por Fernando Martinho Guimarães

 

O Espelho Falso, de René Magritte, 1928

Não sei se é uma memória real ou se é uma memória construída. Tenho a ideia de ter visto um documentário há já algum tempo em que Umberto Eco, filósofo e romancista, fazia uma visita guiada à sua biblioteca. A jornalista perguntou-lhe, se bem me lembro, de que falava aquela imensidão de livros. O autor de O Nome da Rosa respondeu-lhe que falavam de erros, enganos e mentiras. Continuar a ler “ERROS, ENGANOS E MENTIRAS – por Fernando Martinho Guimarães”

TEXTOSTERONA – PRENSAMENTOS & DESAFORISMOS- por Danyel Guerra

MULHERES VS HOMENS     

“Na vida eu fui vítima de dois graves acidentesO primeiro foi o choque de um tranvia com o autobus em que eu viajava. O outro foi o Diego….”

Frida Kahlo

Qual dos dois acidentes foi pior, querida Magdalena Carmen? Não precisa responder. Nós já estamos adivinhando.

o-o-o-o-o

De la femme vient la lumière

Louis Aragon

Merci beaucouo, Aragon. Finalmente, fico elucidado do motivo porque a conta, a fatura da luz é sempre tão elevada. Continuar a ler “TEXTOSTERONA – PRENSAMENTOS & DESAFORISMOS- por Danyel Guerra”

UM BRAVO GUERREIRO – por Danyel Guerra

“Os doze tiros partiram como um só. O Sr. Sauvage caiu, como um cepo,  para a frente. Morissot, mais alto, oscilou, girou e desabou sobre seu  camarada, com o rosto para o céu, enquanto da sua túnica, crivada no  peito, se escapavam borbotões de sangue.”  Guy de Maupassant                   

            Buon Compleanno, tanti auguri, Monicelli                               

                         UM BRAVO GUERREIRO

“C’era una volta il Italia”, 1982. No Cine Eliseo de Avellino, na Irpinia, entranhas do mezzogiorno da Campania, mais uma edição do festival (também) fundado por Pier Paolo Pasolini se desdobrava. Na plateia agitava-se um público inquieto, irrequieto, participativo. Continuar a ler “UM BRAVO GUERREIRO – por Danyel Guerra”

APOLOGIA DOS CALDOS DE GALINHA… – Paulo Ferreira da Cunha

APOLOGIA DOS CALDOS DE GALINHA…

I

“A Parábola dos Cegos”, de Pieter Bruegel, o Velho

Ecos no Umbral

Este artigo parece ser um pouco autobiográfico (o que não é meu costume), mas nem por isso o será. É apenas um artifício retórico para melhor dizer o que tenho a dizer. Pode levar-se tudo à conta de ficção. Peço mesmo que o faça o benévolo leitor. Acredite que tudo não passa de uma fábula da minha imaginação.

Ao longo da minha anterior “encarnação”, como professor universitário, como costumo agora dizer (espero que apenas achem graça à metáfora e não me interpretem mal), tive ocasião para conhecer muito o mundo. Continuar a ler “APOLOGIA DOS CALDOS DE GALINHA… – Paulo Ferreira da Cunha”

FALAR SOBRE SENTIMENTOS – por Teresa Escoval

“Tenho pensamentos que, se pudesse revelá-los e fazê-los viver, acrescentariam nova luminosidade às estrelas, nova beleza ao mundo e maior amor ao coração dos homens.”
Fernando Pessoa

Começar a escrever sobre sentimentos com base neste citação de Fernando Pessoa é acreditar que podemos tornar-nos pessoas mais sadias e generosas quando partilhamos o que nos vai na alma com o outro. É sentir que numa partilha honesta de sentimentos um cresce com o outro e ambos se tornam pessoas mais sadias e honestas. Continuar a ler “FALAR SOBRE SENTIMENTOS – por Teresa Escoval”

PRENSAMENTOS & DESAFORISMOS – I Série – por Danyel Guerra

La femme dans la nuit, by Joan Miro

PRENSAMENTOS  & DESAFORISMOS

COM TEXTOSTERONA DO AMOR

 Como a vida, o amor é eterno enquanto dura.
Mas em boa verdade, ele só será mesmo eterno enquanto for terno.

 o-o-o-o-o

“O amor é cura, mas também é loucura”

 Sigmund Freud

Sendo verdadeira esta contradição, ela explicará porque de médico e de louco, o amor também tem um pouco.

o-o-o-o-o

No amor, um é pouco, dois é bom, três é demais. Três só não é demais num ménage à trois. Contudo, nessa triangulação, por norma, isóscélica e e até escalena, o amor, enquanto ideal, pode ter cabidela, mas, em geral, não tem cabimento.

Nunca terá havido um ménage à trois mais inusitado do que o de Alex Delarge com a Sonietta e a Marty em ‘A Clockwork Orange’ do Stanley Kubrick, ao som da abertura de ‘Guglielmo Tell’, de Rossini. Capaz de causar tonturas de tão vertiginoso. Tanto aos parceiros como aos cinespectadores. Continuar a ler “PRENSAMENTOS & DESAFORISMOS – I Série – por Danyel Guerra”

UMA ROTUNDA BOA VISTA… por Danyel Guerra

“Depois da civilização de Atenas e do Renascimento,
 entramos agora na civilização do derrière”

Pierrot le fou, de Jean-Luc Godard    

(crônica carnevalesca)

Fim de tarde estival, sol quase no poente, na esplanada de um bar, dois clientes tomam, divertidos, um schopen Hauer* estupidamente gelado. O boteco situa-se numa praça em forma de círculo, que encanta sobremaneira um deles, cidadão caRIOca, que pela primeira vez degusta umas Trip’s à moda do Porto. Continuar a ler “UMA ROTUNDA BOA VISTA… por Danyel Guerra”

COMO IRRIGAR O PRAZER DE VIVER? – Teresa Escoval

Foto de Luiz Guerra e Paz

Diria que há que ter sempre um mote presente: ser um eterno aprendiz!

Isso consegue-se com humildade, sem deixar que o orgulho se aposse de si, mantendo constantemente o poder de criar e inventar. Conseguindo tornar cada dia num mundo de oportunidades e cada momento numa nova página da sua existência. Continuar a ler “COMO IRRIGAR O PRAZER DE VIVER? – Teresa Escoval”

MARILENE CAON, A CAÇA-TALENTOS, por Uili Bergammín Oz

Caxias do Sul tem fama de ser gelada, e seus habitantes de serem distantes e desconfiados. Na maioria dos casos essa pecha se justifica, mas vez por outra alguém (muitas vezes vindo de fora) quebra essa regra, tornando-se a exceção que só a justifica ainda mais. Este é o caso de Marilene Caon Pieruccini, caxiense por adoção, assim como eu. Poeta de mão cheia, prosadora em vários gêneros, vencedora de inúmeros prêmios literários, ex-presidente da ACL (Academia Caxiense de Letras) e agitadora cultural da Serra Gaúcha, Marilene também se destacava como olheira, caçadora de novos talentos e incentivadora de escritores neófitos. Foi exatamente o que aconteceu comigo. Quando cheguei à cidade, com altas pretensões literárias, ela foi a primeira autora de renome a olhar para meus textos e me chamar para a sua casa, dando-me dicas valíosíssimas. Uma delas, que jamais esqueci, é: “Não usar as palavras certas leva-nos a não ser compreendidos. Mas usá-las não é nenhuma garantia de sê-lo.” Internalizei isso e vi depois que ela própria foi incompreendida muitas vezes, por suas posturas firmes, por sua ousadia a frente da época. E olha que eu havia contatado outros escritores bem menos talentosos antes dela, sempre encastelados em suas torres de marfim inacessíveis. Pobrezinhos, todos eles desapareceram na poeira do tempo, sufocados pelo pó e teias de sua própria vaidade e egoísmo. Foi bem diferente com a Marilene. Continuar a ler “MARILENE CAON, A CAÇA-TALENTOS, por Uili Bergammín Oz”

CRISES EXISTENCIAIS – por Teresa Escoval

Quem é que nunca deu por si a pensar no porquê da sua existência?

As crises existenciais verificam-se em todas as etapas da nossa vida (infância, adolescência, maturidade e velhice).

Estas crises surgem pelas mais variadas razões: sexualidade, insucesso escolar, problemas familiares, conflitos com o grupo de pares, com o(a) parceiro(a), dificuldade na tomada de decisões importantes, qualquer doença, algum acidente, entre outros.

Na verdade, qualquer tipo de problema considerado grave, pode conduzir a uma depressão ou a uma crise existencial. A pessoa que a vive, sente-se confusa, perdida no meio de tantos problemas.

Gera-se assim um conflito interior em que a pessoa se sente incapaz de ultrapassar essa barreira. A sua vida perde a cor e a pessoa perde o interesse por tudo, inclusive pelos seus hobbies preferidos, amigos actuais, família, trabalho e começa a preferir ficar isolada. Assim, esta sua perda de discernimento e desmotivação, interfere na vida da pessoa, podendo mudar até a maneira como pensa e age.

O pensamento começa a estar confuso, pois os sentimentos estão exacerbados. Mas, acredito que a pessoa tem consciência do seu sofrimento e do sofrimento que causa aos que estão próximos dele. Porém, não consegue reagir a essa tendência interior, pois só encontra culpados para justificar a “tempestade emocional” que se apossou dela.

Fica no drama da escolha e encara a sua vida com grande desespero! Considera-se uma vítima das circunstâncias, e isto, traz-lhe um profundo vazio, que não pode ser preenchido por qualquer coisa, a não ser, pela decisão de se auto-reformular, de fazer de si um projecto da sua própria determinação.

Na verdade, qualquer ser humano, tem de aprender a retirar satisfação de todos os momentos presentes da sua vida. Pois no seu dia-a-dia, terá decididamente prazeres e alegrias que deve agradecer por viver.

Também importa saber que a vida é feita de ciclos e que cada um nos dá aprendizagens diferentes. Tal como na natureza há ciclos (o ciclo da água, do oxigénio, do carbono, do nitrogénio etc), na psicologia também.

Temos várias fases na vida que, na verdade, são ciclos em si. Têm começo, meio e fim, precisam ser abertos pelos motivos certos e fechados quando se esgotam verdadeiramente. Caso contrário, deixam marcas psicológicas que teimam em continuar a doer.

Os ciclos psicossociais são abertos pela idade (infância, adolescência, maturidade e velhice), pelas relações (namoros, casamento, família, amigos) e pelas actividades (escola, universidade, empregos). E nunca passamos de um desses ciclos para o seguinte impunemente, cada vez é uma “crise”.

Entretanto, se por um lado não temos como fugir dessas “crises”, por outro, aprendemos com elas, amadurecemos e evoluímos. Uma crise é um momento ou fase difícil em que factos, ideias, status ou situações são questionados e levados a mudar. Crise significa ruptura, perda de equilíbrio.

Mas, as crises podem passar de momentos perigosos e decisivos, para oportunidades de crescimento, de transformação para melhor. Só que, para isso, é necessário um certo grau de amadurecimento, que nem todo o ser humano é capaz de alcançar.

Voltando a falar dos ciclos, temos que lembrar que, por definição, eles se completam em si mesmos. Um ciclo só se resolve quando se fecha. Quando isso não acontece, levamos resquícios mal resolvidos para o novo ciclo que já está a abrir-se e que acaba sendo prejudicado pela não-resolução do ciclo anterior.

Actualmente há psicólogos que defendem que entre a adolescência e a maturidade existe a sub-fase dos “Anos de Odisséia”. É justamente nesta idade que o jovem enfrenta a sua primeira crise existencial diante do imenso conjunto de oportunidades que estão à disposição de sua vida.

E entre a maturidade e a velhice foi colocada mais uma sub-fase, chamada de envelhescência. É a adolescência do adulto, que não quer ficar velho. Teima em querer ser mais produtivo do que alguma vez foi, ter uma saúde “de ferro”, ou então controlá-la e continuar a fazer planos e mais planos irreverentes. Só que, assim como o adolescente, ele tem dúvidas, muitas dúvidas sobre o futuro.

O adolescente não é mais uma criança, mas ainda não é um adulto, apesar de achar que já é. O envelhescente ainda não é um velho, mas também já não é simplesmente um adolescente, apesar de achar que ainda é. Crises!

Mas, o que importa perceber na crise é o encontro das soluções. Só assim sairá compensado da mesma e fazer a escolha certa

A vida acontece sempre no presente. O passado deve servir de aprendizagem: olhar onde errou, mudar a partir daí. Não se pode voltar no tempo e fazer um novo começo, mas pode-se recomeçar e fazer um novo fim.”

Julgo que para aprender a ser feliz apenas tem de aprender a aperfeiçoar-se a si próprio. Utilizando as sábias palavras de Wayne Dyer “Você não é um ser humano que está a passar por uma crise existencial/espiritual. Você é um ser espiritual que está a viver uma experiência humana. Logo, lembre-se que o minuto anterior já não é real e o que chega daqui a pouco ainda não existe. Se existe algo de valor incomparável é o tempo presente.”.

Por último, e porque acredito ser de extrema importância sentirmo-nos completos, veio-me à lembrança o poema de Ricardo Reis:

Para ser grande, sê inteiro:
Nada teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a Lua toda
Brilha, porque alta vive.

♦♦♦

Teresa Escoval é Pós-Graduada em Gestão de Recursos Humanos, Licenciada em Sociologia, Bacharel em Gestão de Empresas. Desempenhou vários lugares de chefia na área Financeira e Gestão de Recursos Humanos. Desde 1994 que gere e desenvolve um negócio próprio na área do emprego, diagnóstico/desenvolvimento organizacional e formação. Mantém colaboração regular, desde 2007, com várias revistas, onde são publicados artigos sobre diversas temáticas, que é autora.

CRUZEIRO SEIXAS E ANGOLA – Jonuel Gonçalves

A primeira grande exposição de desenhos do conhecido artista português Cruzeiro Seixas ocorreu em 1953 em Luanda, cidade onde viveu 14 anos. Foram 48 desenhos. Quatro anos depois fez outra, sempre na capital angolana e, um desses desenhos foi-me por ele oferecido em 1959 ou 60, transformando-se em símbolo do apoio que deu ao nosso grupo estudantil clandestino.  Continuar a ler “CRUZEIRO SEIXAS E ANGOLA – Jonuel Gonçalves”

UM ELOGIO DA VIAGEM – por Fernando Martinho Guimarães

Todos nós conhecemos a história. Abel e Caim são irmãos, e Deus dedica-lhes uma afeição merecida. Abel é pastor, Caim, agricultor. Este fixa-se na terra e, com o seu trabalho, tira dela o que de melhor ela pode dar. Aquele, Abel, o pastor, percorre os campos, não tem lugar fixo e vai para onde o rebanho o leva. Ambos honram Deus com as suas oferendas. Mas Deus demora mais o seu olhar sobre Abel, o pastor. Continuar a ler “UM ELOGIO DA VIAGEM – por Fernando Martinho Guimarães”

PHELPS – por Duarte Klut

Ultimamente, Phelps andava muito taciturno. Estranhos pensamentos perturbavam-no.

Nos dias cinzentos, a sua depressão acentuava-se. Estava sempre intratável. Tudo o irritava. Esquecia-se de tudo e, com frequência, perdia a noção do tempo real. Falava sobre coisas do passado como se estivessem a acontecer no momento. Fisicamente aparentava estar bem. Não tinha a mínima consciência do seu declínio mental.

O homem que fora — culto, sabedor, activo, “bon-vivant” e óptimo companheiro, às vezes folgazão —, era agora um espectro de si próprio. Já não sorria, nem ria. O seu olhar, ora  mortiço, estava sempre alheio a tudo. Fechava-se, cada vez mais, em si próprio… Não lhe interessavam as viagens, as leituras, a música, o teatro e demais manifestações culturais e artísticas, ou seja, tudo o que sempre apreciara. Também  não ia aos repastos com os amigos.

Presentemente, era como um vestido de “toilette” que se transformou em farrapos. Sim, Phelps era um farrapo. Todos os que o conheciam e com ele conviveram sentiam um mal-estar com a sua presença. Era um desconhecido! Passava grande parte do dia sentado, olhando sem ver, cogitando e construindo, mentalmente, impossíveis. O seu ponto de partida eram as recordações da infância e adolescência. Lembrava-se do Principezinho, com a sua rosa e, se porventura, colhesse uma, imaginava-se a voar pelo espaço e a observar a Terra lá do alto; nessas ocasiões, esboçava um sorriso… Quem o visse diria: ali está um homem feliz.

Mas se à memória vinham os heróis de Dickens, depressa caía no habitual mutismo. Outras vezes inseria-se no mundo de Sherlock Holmes e a sua expressão ganhava um tónus de seriedade e concentração. Raramente, escutava Beethoven, Mozart, Liszt, Bach, Tchaikovsky, Verdi ou Chopin, nos poucos momentos em que estava menos desassossegado. Adorava Paganini. O som do violino era para ele tonificante: sempre fora o instrumento que teria desejado saber tocar. Muitas vezes relia alguns clássicos nacionais e estrangeiros. Os romances americanos e sul-americanos eram os  seus preferidos. Mas a poesia  tinha um particular destaque e, sempre que lia um poema, lia-o em voz alta. Porém, estes breves momentos de relaxe davam lugar à abstração da realidade. Enclausurava-se no seu mundo peculiar ou, antes, apartava-se do real, do presente. Então ficava apenas sentado, hirto, olhando o vácuo, onde nada é visível. Nestas ocasiões transformava-se no espectro que era. Phelps vivia uma vida diferente, tão diferente que ninguém, nem ele, entendia, ou percebia.

O declínio mental iniciara-se há quinze anos. Doenças, faltas de dinheiro, perda de qualidade de vida, de entes queridos, desgostos e a descrença, cada vez maior, num futuro sempre adiado, contribuíram para o turbilhão de pensamentos que o assolava.

A sociedade actual, decadente de valores e apologista dos bens materiais, desgostava-o e causava-lhe grande sofrimento, de tal modo que, descrente de tudo, se tornou no farrapo que  agora era. Este processo ao longo dos quinze anos, teve como resultado um estado de catatonia. Já não filosofava. Não lhe interessavam as questões metafísicas. Já não sabia pensar, nem interrogar e discutir problemas que  moviam as suas capacidades de análise e de síntese. Empregando uma linguagem de computador: deletara-se.

Dormia pouco; quase não comia. O seu lema era recordar, recordar, para fugir ao presente e não abordar o futuro.

Imaginava-se encarcerado num cubo. Esse cubo era transparente. Phelps via tudo, mas não era visto. O seu mundo fechado era muito  próprio. Único.

Porém…

Num certo dia cálido de Verão, a luz solar encadeou-o e, segundo ele, teve uma visão que mudou radicalmente o seu comportamento e forma de estar.

Já não tinha corpo e flutuava no imenso espaço estratosférico. Percepcionou o Universo e  observou todos os planetas como infinitésimos pontos. Só o brilho das estrelas cortava a escuridão que o rodeava. Em silêncio absoluto, as suas percepções permitiram-lhe apreender que a única  verdade real estava no  seu pensamento. Pouco importava se aquilo que  via existia, ou não. Mas se  ele via , então o seu mundo era real! E assim prosseguiu os seus dias, olhando para o infinito, sem falar, sem comer. Existia. Era um zombie pensante.

Numa manhã chuvosa, viu seca a rosa do Principezinho. Sorriu, acenou para o vazio e… feneceu!

Encontram-no passados dois meses. Seus ossos adivinhavam-se debaixo da pele ressequida e roxa mas, no rosto, notava-se o sorriso. Afinal Phelps partira feliz. Alcançara o seu Nirvana, via pensamento, que o alimentou nos seus  longos anos de Peregrinação.

Alcançou a felicidade pela via da abstracção/observação de uma realidade para além do Real!

♦♦♦

Duarte Manuel da Silva Passos Klut (Duarte Klut), nasceu em Lisboa a 20 de Abril de 1942.
Professor. Licenciado em História, possui os graus de Mestre pela FLUP e de Doutorado pela U. Gama Filho, Rio de Janeiro. Aposentado desde 2004.
Tem publicadas as seguintes obras:
Um quase Diário de um quase Nómada (2005)
Versos…Perverso (2008)
Lucubrações — estados de Alma (2011)
Esmerilhando… Mundividências (2013)
Aporias (2014) e
O Inquieto e as utopias possíveis ( 2016)

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