JULGADOS – por Carol Demolimer

Estouraram foguetes na rua e me assusto. Essa gente me dá afasia. Por me assustar tanto. Me tirar do meu recanto de escrita onde estava tão tranquila. O quão ruim é sentir sentimentos desagradáveis. Porque não suportamos, e pior, porque ao outro o ofertamos? Direcionamos. Nosso ódio.

Nosso. Apenas tudo nosso. Defecamos. Como se o outro fosse realmente culpado por como nos sentimos. Ainda atribuímos. Assim e muitas outras coisas todos os demais erros que achamos que sabemos e compreendemos e julgamos e dissertamos para o outro. Coitados. Também tem seus pecados. Medrosos que riem desesperados. Todos. Acoplados e tão mas tão separados. Tão disseminados. Em si próprios. Eles falam desesperados. Não calam a boca. Ninguém os ouve e mesmo assim o homem não cala a boca. Isso não é apenas descarrego, isso é desespero. E eu tenho pena desse homem. Desse e daquele e o do outro e dos milhões que são iguais a ele. Um gole de café. Descafeinado por que são 21:47. E eu estou quase passando do meu tempo. Acho que até vou prorrogá-lo. Estender o prazo. Eu costumo fazer isso. -Olho pro lado- no mesmo instante que digito isso e me surpreendo por perceber que foi a primeira vez que fiz este movimento enquanto escrevo. O exato momento, do movimento com o sentimento, da palavra digitada com o alento que esta fala, fala. Olhar pro lado, desviar, parar, pausar, recuar… talvez. Do que fujo? Mais café. Um trago de tabaco, não fumo cigarro. Pescoço estalado, braços alongados. Olhos arregalados ao voltar o pensamento pro momento anterior. O homem. Berrento. Choroso. Culposo. Precisando de terapia. Se escondendo atrás da mania. Que agonia. Que alegria não ser eu. Que egoísta. Obviamente este último, eu.

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Carol Demoliner (1995), é gaúcha natural de Erechim e formanda em Psicologia. Amante de todas as formas de arte que expressam a vida genuinamente, sempre usou das palavras escritas e outras expressões artísticas para alcançar o que estava na brecha de saída de seu ser. Inspirada pelo céu e pela terra, pela vida e pela morte, começos, meios e fins, a autora traduz seu olhar do mundo através do lírico, passeando pela poesia, poemas e crônicas.

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