CONVERSA DE ESTÁTUAS – por Wander Lourenço

 

Conversa de estátuas

Drummond, Caymmi, Pessoa e Clarice

 

Dorival Caymmi

Eram meados de maio do ano da graça de 2022 e a imperiosa Copacabana transpirava uma brisa à Jonny Alf, quando a estátua do compositor Dorival Caymmi, que saudara a “princesinha do mar” em antológica canção praieira, se aproximara da escultura do poeta Carlos Drummond de Andrade, para dois dedos de prosa sobre as amenidades da vida e a arte da sobrevivência nesta São Sebastião do Rio de Janeiro.

–– Boa noite, meu velho e bom Drummond. –– cumprimentara-o o mestre do cancioneiro popular pátrio, baianamente, com a sua voz arrastada e doce.

–– Quem me veio fazer companhia, neste frio de outono em disfarces de inverno? –– indagara o bardo mineiro.

–– Dorival Caymmi. –– respondeu-lhe o menestrel soteropolitano, com o violão debaixo do braço.

–– Ah, meu nobre amigo Caymmi, perdoe-me por não reconhecer-te, mas é que mais uma vez um gatuno furtou-me os óculos de bronze, acentuando-me a miopia crônica das retinas já tão mais fatigadas… –– lamentou-se o vate itabirano.

–– Por esta razão, nem por um decreto legislativo ou do STF eu me desgrudo do meu pinho de cordas, que, no mercado de fumaça do crack, deve de estar valendo um dinheirão, meu caro Poeta. –– dedilhou-o em dó menor.

–– No que fazes muito bem, Caymmi, porque, diz que, com a pandemia; e, sobretudo, com o descaso das autoridades fluminenses de plantão, a população de rua quase que quadruplicou em nossa querida Copacabana, que tu cantaste com tamanha maestria. –– suspirou um nostálgico Drummond, com as reminiscências do tempo em que o bairro era considerado “um bom lugar, pra passear à beira-mar”.

–– “Existem praias tão lindas, cheias de luz / Nenhuma tem o encanto que tu possuis / Tuas areias, teu céu tão lindo / Tuas sereias, sempre sorrindo.” –– cantarolou o seresteiro trovador.

–– As tuas canções remetem às saudades que trago comigo dentro do peito dos versos do Vinícius de Moraes e das crônicas do Rubem Braga, que enalteciam as moças coloridas de sol, com as suas modas, bossas e melindres. –– ansiara-se Drummond de Andrade.

–– “Ai de ti, Copacabana!…” –– rememorou-se o modinheiro Caymmi, ao constatar o estado deplorável da outrora estupenda Copacabana, a região mais charmosa da Zona Sul carioca.

O suspiroso Dorival Caymmi pediu licença ao solícito Drummond para sentar-se a seu lado, de modo que proseassem sobre o lastimável desamparo do espaço urbano mais democrático do Rio de Janeiro, com seus inúmeros botequins, sotaques e etnias.

–– Por obséquio, sinta-se convidado, meu ilustre vizinho Caymmi. –– ofertou-lhe o lugar Carlos Drummond de Andrade, educadamente.

Carlos Drummond de Andrade

–– Tu sabes que o que mais tenho presenciado por estas paragens praianas, para além das cabrochas que me sussurram delírios ao pé do ouvido, quando se assentam aptas ao instante de fotografia, Drummond caríssimo? –– indagou-o, o enigmático Dorival Caymmi, maliciosamente.

–– A metafísica da perene solidão dos tempos, meu sublime Dorival? –– instigara-o o áugure originário de Itabira do Mato Dentro.

–– A fotografia da solidão que se esvai das almas perdidas em desalento, Poeta. –– sofismou-se Caymmi.

–– A humanidade desvairou-se, consoante diria o mestre Mário de Andrade sobre a sua Paulicéia equidistante, como metáfora de um país a modernizar-se, de vento em popa… –– conformou-se Drummond.

–– Tu sabes que ainda há pouco um sujeito alucinado de sotaque lusitano, de  sobretudo negro de veludo e de chapéu de feltro, segredou-me que são as lágrimas da poesia que adoçam as marés da vida em cais de saudade… –– confidenciou-lhe Dorival Caymmi.

–– E tu não o reconheceste, ó desavisado menestrel? –– inquiriu-o.

–– Confesso que me fez recordar a estátua de Fernando Pessoa do Chiado; entretanto, o homem das mil vozes não me dera o tempo ao diálogo prosaico, haja vista que se apressou a desandar em direção ao Arpoador, creio que à procura do Tom Jobim, com intuito dum fado d’Alfama com vista ao Tejo ou duma bossa nova ipanemense… –– rendeu-se, amuado.

–– A mim, nem se deu ao trabalho de visitar-me… –– lastimara-se Carlos, o gauche.

–– Se dobrasse à esquerda, pura e simplesmente tropeçaria distraído num astro de nomeada Carlos Drummond de Andrade. –– consolou-o Dorival Caymmi.

–– Caso o Pessoa houvesse te reconhecido, era provável que compusessem um samba lusitano ou fado baiano, quiçá. – obtemperou Drummond de Andrade.

Neste ínterim, o espavorido Fernando Pessoa se achegara para reclamar de que, ao se encontrar com Antônio Carlos Jobim no Arpoador, resolvera-se por telefonar ao Vinícius de Moraes, a fim de que esticassem a boêmia noite afora pelos bares de Ipanema, quando um ágil meliante lhe furtara o telemóvel (Smartphone).

–– Pois que não me dera tempo sequer de mencionar o sítio de encontro com o Poetinha carioca… –– rezingara-se o inconformado luso-africano.

A estátua de Drummond, com a placidez que lhe era característica, ao observar o atônito Fernando Pessoa inconsolado com a perda do objeto de comunicação, solicitara-lhe que se acalmasse pelo fato de que cordões de ouro, relógios e telemóveis tinham vida curta em posse dos proprietários nesta Copacabana contemporânea.

–– Pessoa, eis o poeta Carlos Drummond de Andrade, muito possivelmente, o seu mais inspirado discípulo e sucessor nas trincheiras poéticas desta última flor do Lácio, a Língua Portuguesa. –– apresentou-lhe Dorival Caymmi, antevendo um inesquecível encontro literário.

–– Carlos Drummond de Andrade? –– surpreendera-se diante da inusitada apresentação poética.

–– Um vosso admirador. –– assentiu, humildemente.

Ao passo que tranquilizavam Fernando Pessoa, o cantor Dorival Caymmi lembrou-se de que, no outro lado da Praia de Copacabana, mais especificamente no Leme, a estátua de Clarice Lispector ficaria satisfeitíssima, caso deliberassem por visitá-la para um trago de tabaco ou drink de vodka com água de coco, enquanto discorreriam sobre as atrocidades da guerra entre a Rússia e a sua terra natal.

–– Mas os embusteiros do calçadão não poderiam nos assaltar, a qualquer momento, durante o percurso até a grande ficcionista ucraniana? –– reagiu Pessoa, amedrontado com a violência citadina.

–– Não se preocupa tu, ó residente do Chiado de Lisboa, visto que já o foste vilipendiado pela corja de saltimbancos, ao passo que um raio não cairá jamais no mesmo lugar, meu insigne Pessoa. –– acalmou-o Caymmi.

–– Por isto não seja, Dorival Caymmi querido, porque os meus óculos já foram furtados pela enésima ocasião em pleno calçadão do Posto 6… –– replicou-lhe Carlos Drummond.

De comum acordo, os três menestréis decidiram que se dirigiriam até o ponto da estátua de Clarice Lispector, desde que caminhassem de mãos dadas, de maneira que um protegesse o outro das intempéries do itinerário costeiro até o bucólico Leme de Clarice Lispector.

Lá chegando, os trovadores solitários se depararam com a escritora preocupadíssima, a pitar cigarro após cigarro, em companhia de seu épico e fiel cão Ulisses.

–– A que devo a honra de tão conspícuas visitações em tempos de epidemia e guerra, companheiros? –– abismou-se Lispector.

–– Viemos em solidariedade à tua nobre gente briosa e audaz, acossada pela pusilanimidade de um tirano sanguinário, Clarice prezadíssima. –– antecipara-se Carlos Drummond de Andrade, acariciando o quadrúpede dócil.

A circunspecta Clarice Lispector mirou-os de soslaio; e, após tragar a fumaça do último cigarro, revelou-lhes toda agonia e aflição pelo sofrimento de seu povo aniquilado por um déspota inconsequente, que apontava os mísseis e canhões em direção à OTAN, mas bombardeava com toda ênfase cabível num gesto inerme e cobarde a irmã Ucrânia, como comprovação de poder bélico contra os Estados Unidos da América, sob a cumplicidade homicida da República Democrática da China.

A síntese clariceana desvendou-se como uma espécie de parábola metafísica entre Oriente e Ocidente, quando, não obstante, a exemplo de Caim (Rússia) e Abel (Ucrânia), assassinava-se o irmão consanguíneo, que se dissolvera mediante o fruto do pecado original capitalista.

Diante da premissa, os andarilhos Drummond, Caymmi e Pessoa se despediram, de modo a prosseguir em retorno a Copacabana, de mãos dadas (e pensas), diante da máquina do mundo, debaixo de um silêncio atroz, até que o curioso autor de Maracangalha lhe perguntou:

–– Mas, Pessoa, como tu vieste do Chiado?

–– A nado, pois. –– respondera-o lygiafagundestellesmente, muito provavelmente prenunciando a próxima estátua a ser inaugurada na Praça da Sé de São Paulo.

♦♦♦

Wander LourençoEscritor, Especialista e Mestre em Literatura Brasileira (UFF), Doutor em Literatura Comparada (UFF) e pesquisador do Pós-Doutorado em Estudos Comparatistas da Universidade Clássica de Lisboa, cronista do Jornal do Brasil (2010-15), diretor dos documentários “Carlos Nejar, Dom Quixote dos Pampas”; “Nélida Piñon, a dama de pétalas”; e “O Cravo e a lapela: cinebiografia de Ricardo Cravo Albim”, e autor do e-book Escrevinhaturas (Ed. Elefante-São Paulo) e do romance histórico Terrae Brasilis (Ed, Chiado-Portugal).

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