A CASA AMORIM DE CARVALHO. No 50.° ano da morte do poeta e do filόsofo I – por Júlio Amorim de Carvalho

[NOTA: publicado pela primeira vez na revista Nova Águia (n.° 37, 1.° semestre de 2026), este estudo é aqui apresentado com alterações no título, no texto e no aspecto gráfico]

Desviando-me dos habituais assuntos a que me tenho dedicado [i], abordarei aqui o caso duma entidade que, pelas prόprias características da sua fundação, do seu funcionamento e da sua organização interna, se apresenta como facto muito original, único, nesta faixa litorânia de Entre-Minho-e-Guadiana e suas adjacências: refiro-me à CASA AMORIM DE CARVALHO, sediada na cidade do Porto. O objectivo da presente exposição é o de levar melhor e mais vasta informação, a seu respeito, a uma elite, aos espíritos cultos e inteligentes, aos que se sentem naturalmente interessados pela temática que nestas linhas será desenvolvidamente tratada.

 

I. Enquanto imόvel, a casa provém de família originalmente estranha à de Amorim de Carvalho; fôra adquirida em 1920 pelo então ainda alferes Antόnio Rodrigues casado com Ilda dos Santos Dias, pais de Ester Rodrigues, única sobrevivente e herdeira na imediata descendência do casal Rodrigues-Dias. Órfã de pai desde 1938, residindo com a mãe na casa por ele comprada, a Ester conheceria Amorim de Carvalho em finais de 1940 e casar-se-ia com ele em dezembro de 1943. Foi durante esses três anos de namoro que Amorim veio a conhecer a residência da noiva que seria, quatro décadas mais tarde, a Casa que receberia o nome do intelectual. Mas, morrendo Amorim de Carvalho em abril de 1976, sobrevivendo-lhe a sogra e a esposa, pode-se considerar que ele nunca foi proprietário natural da referida casa [ii].

O prédio comporta três níveis: um subsolo sobre-elevado com largas janelas que dão, por um lado, para a rua e, pelo lado oposto, para o pátio; uma escada interior dá acesso ao rés-do-chão que se prolonga, para as traseiras, num alpendre envidraçado permitindo a passagem ao pátio que logo chama a atenção pelo antigo tanque de pedra inteira e pelo canteiro aproximadamente semi-circular plantado de belas essências florais, algumas exόticas; dado o alto pé direito do térreo, ascende-se por íngreme escada à galeria central do andar superior que comunica com outros compartimentos, com especial relevo para o oratόrio e o salão. O interior do imόvel apresenta-se-nos judiciosa e agradàvelmente mobilado, assim facilitando o bom ordenamento na exposição do seu recheio além de facultar espaços de habitação com suas comodidades. Construída em pedra, oferecendo-nos fachada em grande parte revestida dos simples azulejos geométricos a duas cores muito em voga no bairro portuense em que fôra edificada nos finais do século XIX, a casa dá para uma curta artéria da freguesia do Bonfim. A porta de entrada em madeira maciça trabalhada é sobrepujada por larga bandeira de artístico gradeamento em ferro; as janelas e as portadas interiores são daquele mesmo madeiramento, de excelente qualidade.

Posicionada na parte central dum estreito espaço rectangular delimitado pelas ruas originalmente denominadas da Firmeza, de São Jerόnimo (que sobe até ao Largo da Pόvoa e à igreja da antiquíssima confraria de São Crispim e São Crispiniano), do Monte Tadeu e da Companhia das Águas [iii], ‒ a casa situa-se muito prόximo da cidade baixa oitocentista.

O espaço urbano delimitado pelas citadas ruas era povoado, ainda nos meados do século XX, por uma burguesia média que residia em moradias de aspecto frequentemente comparável à que tenho vindo a descrever. Entre elas haviam-se fixado algumas pequenas lojas de comércio local e modestas oficinas artesanais. É, pois, lamentável que ao bárbaro processo de descaracterização toponímica, se  venha desde há pouco impondo outro mais agressivo, resultado da cumplicidade das últimas massificadas administrações municipais com os desalmados novos proprietários imobiliários, ‒ desse entendimento resultando a destruição acelerada das tradicionais moradias que vão sendo substituídas por prédios elevados, incaracterísticos, do pior gosto arquitectόnico e urbanístico, promovendo-se paralelamente a alteração social e étnica da população, nesta partícula do velho burgo nortenho, que ainda há poucos anos abrigava uma classe social com hábitos e tonalidades expressionais tão caracteristicamente portuenses. A pressão destruidora dos antigos prédios, toma actualmente tal intensidade que, a perdurar esse ritmo, a Casa Amorim de Carvalho será em breve o único vestígio do recente simpático passado desta zona citadina.

A sua administração tem-se preocupado em preservar a traça original do prédio não sό no seu aspecto exterior mas também nos espaços interiores que, sustentados por maciço travejamento, apresentam-se enriquecidos pelos molduramentos de portas, montantes, altos rodapés e soalhos valorizados, estes, pelas restauradas antigas tapeçarias de Arraiolos nos dois níveis superiores da construção.

Naquela anterior fase urbanística e socialmente preservada da primeira metade do século XX, a moradia acolheu, para nela residirem por breve tempo, duas personalidades que seriam bem conhecidas nos meios culturais portugueses e estrangeiros: primeiramente, o futuro arquitecto e pintor Nadir Afonso[iv] que se inscreveria, nos anos trinta, na Escola de Belas-Artes, situada muito prόximo desta sua provisόria residência; e, na década seguinte, Amorim de Carvalho, que aí habitaria, apenas por alguns meses, logo apόs o casamento [v]. Novo mas efémero contacto com a Casa que receberia o seu nome!

No segundo semestre de 1974, tomou consistência, no meu espírito, a ideia de criar uma entidade que recolhesse o patrimόnio material e espiritual relacionado com o ilustre intelectual.

Foi finalmente já no período de transição daquela primeira fase, tipicamente portuense, para a fase seguinte, de incaracterístico cosmopolitismo, que fundei, em 1981, a Casa Amorim de Carvalho que memorialisa o nome do poeta e filόsofo, ‒ recebendo desde logo a adesão e imediata colaboração da viúva, Ester Rodrigues, e da nora, Maria Cristina Cidade Soares.

No ano seguinte, a Ester mandou afixar na fachada da Casa, uma placa de bronze, muito sόbria, fazendo referência aos locais e datas de nascimento e morte do marido: CASA / AMORIM / DE / CARVALHO / Poeta e filόsofo / PORTO ‒ 1904 / PARIS ‒ 1976.

A 15 de abril de 1988 instituí vínculo[vi] que recebeu como primordial fundamento a plena propriedade dessa Casa incluindo seu recheio, tomando eu, logo de imediato, a opção de lhe adstringir as propriedades rurais, provenientes essencialmente da família Rodrigues, existentes no termo da aldeia transmontana de Sapelos [vii]; procedeu-se igualmente à vinculação: a) da totalidade dos direitos ao jazigo perpétuo no cemitério Oriental ou do Prado do Repouso, no Porto, fundado pelo então tenente Antόnio Rodrigues; b) de um quinze avos sobre o jazigo perpétuo do cemitério da Venerável Ordem de Nossa Senhora do Carmo da Cidade do Porto, em Agramonte, fundado pelo poeta Antόnio Pinheiro Caldas, aí tendo sido inumados os restos mortais de Amorim de Carvalho, bisneto desse poeta; c) e dos direitos literários e artísticos, que considerei perpétuos, provenientes das obras de Pinheiro Caldas, de Amorim de Carvalho e de minha autoria. Do que ficou exposto, deduzir-se-á que parte substancial dessas propriedades e dos direitos vinculados, adstritos à Casa Amorim de Carvalho, provém não da estirpe amoriniana mas da dos Rodrigues, desta também procedendo muitos dos objectos e mόveis conservados na referida Casa.

II. No seu nível inferior, de melhor qualidade sob os pontos de vista da higrometria, temperatura do ar e luminosidade, ficou instalado o Arquivo: são, por ora, um pouco mais de 14 metros lineares que recolheram parte, ou certos aspectos, da histόria multi-secular da família. As pastas e caixas acomodadas nessas reduzidas dimensões, reunindo milhares de documentos, apresentam-se-nos ordenadas segundo a classificação de Sosa-Stradonitz (com início no futuro presuntivo administrador do vínculo), ‒ classificação esta que se preferiu para a vasta construção genealόgica e biográfica subordinada ao título Uma estirpe luso-brasileira. Sua origem europeia e sua dimensão atlântica que determina a base de toda a organização e classificação documental da Casa [viii]. Precedido esse estudo genealόgico-biográfico pelos documentos vinculares e outros comprovativos da identidade dos indivíduos nele repertoriados, ‒ segue-se-lhe a mais diversa documentação referente a cada um deles.

O mais extenso e mais rico conjunto documental diz respeito, naturalmente, a Amorim de Carvalho. Aí se encontram manuscritos seus e a imensa correspondência amoriniana (com a Maria Isabel Guerra Junqueiro, a filha do poeta, com Júlio Brandão, Marcello Caetano, Jean Cassou, Fidelino de Figueiredo, Georges Le Gentil, Rodrigues Lapa, José Marinho, Goulart Nogueira, Álvaro Ribeiro, Antόnio Sérgio, Pedro Veiga, Alberto Xavier, etc., etc., em cinco grossas caixas, sem esquecer a correspondência com sua mulher Ester Rodrigues e o filho do casal [ix]); aí se vai encontrar a importante iconografia pessoal, os recortes de periόdicos com parte da sua colaboração e referências que neles lhe foram até hoje feitas; lá se poderá consultar a vasta documentação respeitante à célebre revista Prometeu[x] e às suas relações com instituições culturais portuguesas e estrangeiras, etc., etc. Vem a propόsito assinalar o volumoso conjunto documental, perfeitamente ordenado, do I Encontro de Escritores de Angola, realizado no tempo de Portugal, em Sá da Bandeira, no qual Amorim de Carvalho teve activa e corajosa intervenção intelectual.

Recolheram-se noutras pastas inúmeros documentos que, por razões diversas, vieram a pertencer a Amorim de Carvalho. Numa delas, encontraremos, por exemplo, manuscritos de Antonio Corrêa d’Oliveira (soneto Lavoiras de África), Wenceslau de Moraes (postal de Tokushiuso, datado de 6 de abril de 1924, para o capitão Ernesto Sardinha, residente em Vianna do Castello), Georges Le Gentil (projecto de artigo sobre Guerra Junqueiro), Francisco Romero (pensador argentino, autόgrafos em recortes de periόdicos), Carneiro Leão (carta para Fidelino de Figueiredo, referindo-se a Amorim de Carvalho) e Fidelino de Figueiredo (Um drama nas nuvens). Aí se conserva o livro de actas do «Clube de Filosofia» cujos princípios-bases (redigidos por Fidelino de Figueiredo apόs longa troca de impressões com Amorim e em seguida copiados, para melhor legibilidade, em folha avulsa, por sua esposa, Dulce de Figueiredo) foram, a pedido de Fidelino, transcritos por mim para o referido livro [xi].

Nas secções reservadas aos outros nomes que integram o Arquivo, encontrar-se- -á informação de muito interesse sobre estilos de vida de longínquas épocas; nesta perspectiva posso indicar, por exemplo, os sectores atribuídos aos Rodrigues (documentação fotográfica familial relacionada com o antigo exército português), aos Pinheiros Caldas, aos Mourões. No fundo brasileiro do Arquivo, consultar-se-á as secções referentes à Maria Cristina Cidade Soares [xii] (com o curiosíssimo e o mais importante acervo pessoal sobre o escutismo feminino brasileiro durante o terceiro quartel do século XX), aos Cidades, aos Callages, Tacques, Soares, Azambujas, cujos espόlios, documentais em geral e especificamente iconográficos, são de primeira importância. Terei ensejo de fazer referência a alguns nomes dessas linhagens, quando tratar das Livrarias, Antiga e Nova, da Casa Amorim de Carvalho.

O Arquivo comporta um sector de espόlios provenientes de pessoas estranhas à família, tendo maior relevo o de Carlos Bastos, publicista, especialista de mérito da arte têxtil.

III. No mesmo compartimento em que o Arquivo está instalado, encontra-se o modesto sector de numismática, com alguns exemplares em metais nobres. Dos países representados, indico, a título de curiosidade: o Vaticano, a Rússia (incluindo Grão-ducado da Finlândia), Alemanha (incluindo Territόrio do Alto Comando do Leste: 1914-1917), França («Empire» de Napoléon III, «République Française», «État Français»), Portugal (incluindo Ultramar: Brasil, Angola, etc.), e Brasil (Império, regime republicano), etc.

 Segue-se-lhes, a colecção de notas: Portugal (incluindo Ultramar), Alemanha (territόrio polaco: 1940), França (incluindo Réunion), Brasil, Uruguai, Argentina, etc.

O sector filatélico, também de reduzidas dimensões, apresenta álbuns com títulos genéricos, cada um deles sub-dividido por regiões ou países. Por exemplo: Portugal (conquistas, descobrimentos, expansão imperial, histόria militar) incluindo Ultramar; Europa (nacionalismo a partir do século XIX) incluindo Alemanha, Espanha, França, Itália, Portugal; etc.

Algumas dessas espécies numismáticas e filatélicas entraram na posse de Amorim de Carvalho por herança de uma sua prima: a muito estimada Emília d’Ávila Amorim de Carvalho, falecida em 1953.

A medalhística comporta peças de relativo interesse: 1) homenagens à memόria de José Régio (1969, of.a a Amorim de Carvalho), Arnaldo Gama (1969, compr.a pelo mesmo), Leonardo Coimbra (1983, of.a a Júlio Amorim de Carvalho). 2) a medalha em homenagem a Abel Salazar (1946) encontra-se na gaveta dum mόvel; lê-se no respectivo registo: «Pertenceu a […] Amorim de Carvalho que a adquiriu, contrariadíssimo, em Lisboa, posteriormente a 1955, quando uma pessoa das suas relações lhe pediu com demasiada insistência para que ele lha comprasse. Amorim de Carvalho nunca expôs esta medalha na sua residência». 3) medalhas provenientes do Brasil: a) homenagem a Jeronimo d’Ornellas de Menezes e Vasconcellos, povoador da zona onde foi fundada a cidade de Porto Alegre (1940); b) 75.° aniversário da emancipação do município de Estrela, região do Alto Taquari, Rio Grande do Sul (1951).

 

Quanto à esfragística, anotarei as seguintes peças: a) sinete de base metálica para lacre, reproduzindo iniciais manuscritas ‒ AdC ‒, utilizado desde os anos trinta por Amorim de Carvalho; b) dois carimbos da sua revista PROMETEU, um com base de madeira, o outro com base metálica; c) sinete metálico de 1947 (reprodução dum vaso helénico: Prometeu e Atlas, a quem Amorim atribuía forte simbolismo pessoal) para a revista Prometeu mas também por ele usado em livros seus; d) carimbo de base metálica, CASA AMORIM DE CARVALHO BIBLIOTECA; e) carimbo circular, CASA AMORIM DE CARVALHO (junto à orla superior), DO SANGUE SEGUINDO A LEI (verso de Amorim de Carvalho, junto à orla inferior), cruz, espada, folha de papel redigida (no campo). Os dois últimos carimbos, desenhados por José Nilo Amorim de Carvalho, datam de 2000. Refira-se ainda o logotipo da Casa Amorim de Carvalho, desenhado, a meu pedido, pelo artista João Borges.

IV. Subindo ao primeiro andar, a galeria apresenta um conjunto de pinturas de origem brasileira: de Fernando Callage, aponto especialmente uma belíssima Árvore e o Retrato do escritor Roque Callage seu irmão (primeira metade do século XX); Luiz Schmidt Filho oferece-nos temáticas de carácter rural e etnográfico, demonstrando o artista gosto pelo geometrismo ou figurativo estilizado, como no Gaúcho sul-rio-grandense e Povoação de telhados vermelhos (meados do mesmo século). Como recordativos de Portugal, devo chamar a atenção para o muito sugestivo Rosto do Adamastor, pintura em acrílico sobre madeira de Alexandre Miguel Amorim de Carvalho (2011) mas também para o mapa Portugal Insular e Império Colonial Português (1.a ed., 1934) e a extensa Carta da Província da Guiné

(1961).

No vizinho oratόrio, recolheu-se a reprodução em suporte metálico, datada dos primeiros anos do século XX, de uma imagem de «Sainte Thérèse de l’Enfant Jésus» [xiii].

No salão, vamos encontrar diversos quadros de Amorim de Carvalho: aguarela, nanquins, pinturas a όleo, desenhos a lápis e caneta, focando  aspectos da Foz do Douro, da Boa Nova, etc.;  aí pôde-se reunir alguns dos nanquins amorinianos que ilustram os contos de A primeira mulher [xiv]. No mesmo salão expôs-se o retrato de Amorim de Carvalho (tirado duma fotografia sua): é pintura a όleo sobre tela de 40×60cm, da artista Magda Cidade, por ela oferecida, em 2004, à Casa Amorim de Carvalho em homenagem ao poeta e filόsofo, por ocasião do 1.° Centenário do seu nascimento. Duas fotografias de largas dimensões lembram o tenente de infantaria Antόnio Rodrigues e seus pais o major de cavalaria Augusto Rodrigues e Felisbina Rua. Ladeando a escrivaninha instalada num ângulo deste compartimento, eleva-se uma «chalcographie du Louvre»: «René Descartes. Hals (Frans) pinx.t A. Huot sculp.t. 1880».

Na sala de visitas, no rés-do-chão, chamam logo a atenção: 1) a pintura a όleo de Lázaro Lozano (oferta do artista a Amorim de Carvalho); 2) a cόpia da muito bela fotografia, de corpo inteiro, de Ester Rodrigues (tirada anteriormente a dezembro de 1943 no estúdio Neves Guimarães, do Porto); 3) retrato de Amorim de Carvalho (nanquim de Cruz Caldas; 4) a fotografia, de meio corpo, do poeta Antόnio Pinheiro Caldas, tirada em Paris aquando de uma das suas viagens a França. Na mesma sala, encontrar-se-á ainda: a) um perfil de Borges Guedes [xv], desenho-aguarela de H. Morais, 1951; b) retrato do escritor Carlos Bastos, carvão de Lauro Corado, 1929; c) uma aguarela e um desenho de A. Bugalho, respectivamente de 1958 e 1960 (ofertas do artista a Amorim de Carvalho); d) retratos de Filipe de Champanhe, «se ipse pinxit» (gravura dos começos do séc. XX), de D. Afonso V, o Africano (séc. XVIII) e de D. Miguel I, o Restaurador.

Dominando a sala de jantar, que confina com a de visitas, encontram-se a representação da última ceia de Jesus Cristo, baixo-relevo em estanho, que pertenceu aos pais de Amorim de Carvalho, falecidos em 1944; e um retrato, de corpo inteiro, de Vicentina de Oliveira Callage, tirado em 1902, no célebre estúdio «Venâncio Schleiniger», em Santa Maria  (Rio Grande do Sul).

Nessa mesma sala, uma curiosidade: a aguarela de autor desconhecido, retratando o rosto de homem de barbas e cabelo brancos. «Proveniente do espόlio do Dr. Quim Martins, de Coimbra» (informação manuscrita no fundo do caixilho), veio a pertencer (não sei por que meio) a Amorim de Carvalho. O nome do antigo ou primeiro possuidor deste retrato, conhecido embora por Quim Martins, é Joaquim Martins Teixeira de Carvalho, conforme a indicação de Rocha Martins em Portugal dos nossos dias. Vermelhos, brancos e azuis, vol. II, pág. 282.

Na sala de jogo (que recebeu a mesa quadrangular da década de 30 que, já para aquela função lúdica mobilara o salão de festas e do bilhar da residência dos Amorins de Carvalho na avenida do Brasil, na Foz) ficou exposto um exemplar da fotografia idealizada e realizada, por Alexandre Miguel, em meados de dezembro de 2017: reunião, em Paris, dos três irmãos, netos de Amorim de Carvalho, o autor da fotografia, a Maria Ester e o José Nilo.

As descrições fornecidas neste capítulo provêm, na sua quase totalidade, duma Relação dos quadros expostos na Casa, catalogada na Livraria Antiga.

V. Um significativo aspecto da Casa Amorim de Carvalho é o conjunto de mais de 400 objectos e mόveis, das mais variadas naturezas e de desvairadas origens, que se encontram descritos na Relação que lhes diz respeito. Sobre esse apreciável patrimόnio, limitar-me-ei a fazer breves referências a algumas curiosidades, sempre com a intenção de condensar, reduzir a informação. Nesta perspectiva, creio que será conveniente, desde já, precisar o seguinte: 1) a Relação dos objectos apresenta uma descrição de cada um deles, dos pontos de vista tanto da intrínseca natureza do material utilizado, do local e da data de fabrico (com a maior precisão possível) como da prόpria histόria da sua transmissão através das gerações, do meio e da razão por que vieram eles a integrar a Casa Amorim de Carvalho; 2) os objectos e mόveis referenciados provêm em máxima parte dos diversos ramos da família, aos quais, na Relação, se faz sistematicamente referência, considerados eles segundo a classificação genealόgica adoptada (vid. cap. II, parágr.° inicial); 3) os objectos e mόveis a que me refiro encontram-se dispersos pelos três níveis da Casa, tendo-se etiquetado em cada um deles o número que lhe corresponde na Relação, acima referida, que constitui, pela meticulosidade descritiva, um repositόrio impressionante.

Por todas essas razões posso desde já indicar de modo geral que no vasto espaço em que se instalou o Arquivo (vid. cap. II), acomodaram-se, com a melhor protecção, os objectos de material mais nobre e raro, isto é, peças de adorno ou utilidade pessoais e de decoração ou serventia caseiras, quase todas do século XX, em grande número da sua primeira metade.

Com significado intensa e dolorosamente afectivo, também aí ainda hoje se guardam, na sempre mesma caixa de metal, os soldados de papel que foram do Arnaldo, morto na flor da idade, o irmão que Amorim de Carvalho evocará num conto de forte sentimento metafísico, no livro A primeira mulher, ligando a imagem do irmão à obsessiva e infantil ambição do futuro filόsofo pela posse dos soldados de papel.

 Da sua breve passagem pela província portuguesa de Angola, Amorim trouxe uma cestaria do artesanato preto de Caconda (região de Sá da Bandeira), conservando ainda do Ultramar português, peças provenientes de Timor e do Estado da Índia. De origens bem diversas das dos objectos precedentes, pode-se admirar um recente artesanato norte-africano com especial relevo para uma bandeja argelina de latão ou cobre amarelo e uns pratos e vaso de ferro preto trabalhados a fio de prata, da região de Meknès, que datam aquele e estes, dos finais da década de 80 ou inícios da de 90 do século XX.

A existência de tecidos confeccionados para diversíssimos usos e de proveniências brasileira e portuguesa (incluindo antigo manípulo roxo de época desconhecida, colcha de seda adamascada de 1943, bordados, rendas e crochets), de uniformes do antigo exército de Portugal e do escutismo feminino brasileiro dos meados do século XX, de roupa de gala e peças de passeio, ‒ contribui para alargar a domínios não facilmente previsíveis, o patrimόnio duma instituição de carácter mais marcadamente literário…

Não será, pois, também, despropositado mencionar entre os objectos que se distribuem pelos diversos níveis da Casa, a amostra de cerâmica e porcelanas (com especial referência à da Vista Alegre, de Ílhavo, pintada à mão entre 1852 e 1869 [xvi]) e as múltiplas peças procedentes do Brasil, mais numerosas as do Rio Grande do Sul (entre as quais as bombas e cuia para tomar chimarrão, decoradas de metais nobres, e um modestíssimo cofre mόvel que pertenceu ao escritor Roque Callage).

A estatuária religiosa está representada, com mais importância, numa imagem de Nossa Senhora do Rosário: gesso pintado, protegido por redoma de vidro branco transparente e base de madeira, da primeira metade do século XX [xvii].

Em evidente disparidade expositiva, legitimada no entanto por um interesse de ligação às suas origens ou aos seus intrínsecos valores, mencionarei os seguintes objectos que, agrupados embora nestas breves linhas descritivas, se dispersam por vários compartimentos. São eles: a) a bela caixa de madeira com monograma do tenente Antόnio Rodrigues trabalhada à mão pelo entalhador, requintado artista português, Ernesto de San Simão [xviii]; b) sinete de mão, cobre amarelo do século XIX, pertenceu a Cândida Carolina Mourão mulher do poeta Antόnio Pinheiro Caldas [xix]; c) colher de café em metal prateado, cabo ornamentado por imagem de pavão e coroa, teria pertencido ao Imperador D. Pedro II do Brasil [xx]; d) taça de prata ganha em torneio de tiro por Antόnio Maria Caldas de Matos Amorim de Carvalho [xxi].

Como conclusão deste capítulo, chamo a atenção para o Guerra Junqueiro (rosto), trabalho em terracota do escultor Antόnio Claro. Datado de 1943, oferecido pelo artista a Amorim de Carvalho, encontra-se actualmente exposto no salão do primeiro andar.

VI. O mobiliário da Casa está repertoriado na já citada Relação dos objectos. Referir-me-ei aos mόveis que apresentam mais interesse.

Na sala de visitas, toma particular relevo, em perfeito estado de conservação e afinação, o piano alemão Gerbstädt e respectivo banco rotativo. Foi especialmente importado pela casa comercial «Salão Beethoven», do Porto, mediante encomenda passada pelo tenente Antόnio Rodrigues, para o oferecer à filha, Ester, que frequentava o Conservatόrio de Música do Porto. A factura da compra do piano (conservada no Arquivo da Casa) tem a data de 10 de maio de 1926; o preço da compra elevou-se a seis mil escudos.

Os outros mόveis têm três origens bem distintas; referi-los-ei em breves palavras:

            1) Os das salas de visitas e de  jantar: foram adquiridos, por compra, pelo casal Antόnio Rodrigues-Ilda dos Santos Dias; os trabalhos em madeira e do estofamento inicial realizaram-se em Portugal, anteriormente ao ano de 1933, no estilo da época, que se mantém até hoje.

          2) À sede da Renascença Portuguesa e redacção da revista A Águia (à rua dos Mártires da Liberdade, n.° 178, no Porto) pertenceram os seguintes mόveis:

      ‒ no oratόrio: pequena cadeira de braços, assento e encosto em palhinha cruzada;

       ‒ na galeria: armário cor de acajú, portas centrais envidraçadas protegendo prateleiras interiores, outras mais, à direita e à esquerda, abertas para o exterior;

      ‒ na sala de visitas: mesa rectangular, com dois tabuleiros, explicitamente declarada como sendo de fabrico português, anterior a 1930;

        ‒ na sala do Arquivo: escrivaninha de cinco gavetas e respectiva cadeira de braços, encosto trabalhado, assento em palhinha cruzada.

As razões pelas quais e as condições em que estes mόveis (descritos nos n.os 283, 267, 284, 266 da Relação dos objectos) passaram da Renascença Portuguesa-redacção de A Águia para a Casa Amorim de Carvalho, estão minuciosamente descritas no vol. II, cap. XLVI dos meus Comentários, evocações e pensamentos (manuscrito inédito catalogado na Livraria Nova).

 

            3) No salão do andar superior, reconstituiu-se, parcialmente, o escritόrio de Amorim de Carvalho, com peças transferidas da sua última residência em Portugal, no bairro de Campo de Ourique, em Lisboa: escrivaninha de nove gavetas com tampo protector de vidro branco transparente, cadeira rotativa e cinco estantes para livros, que haviam sido fabricadas em Matosinhos, anteriormente a 1944, em modesta madeira de pinho pintada de preto, para inicial instalação na primeira residência do casal Amorim de Carvalho-Ester Rodrigues [xxii].

Notas

[i] Em estudos relacionados com o significado da criação poética, da teorização estética, do pensamento filosόfico amorinianos, e em trabalhos de investigação genealόgica, publicados ora uns, ora outros em Espanha, no Brasil e por cá. 

[ii] Abundantes informações de carácter biográfico e genealόgico sobre a ascendência e a descendência dos Rodrigues-Dias encontram-se em textos da minha autoria: Uma ilustre família de Sapelos e Elevação de uma lápide em Sapelos. Razão e justificações, publicados na revista Aquæ Flaviæ, Chaves, n.os 49 (de 2014) e 66 (de 2023). Sobre o período de namoro da Ester Rodrigues com Amorim de Carvalho, vid. Assuntos familiares. Correspondência e dedicatόrias (Porto, 2025) das Obras reunidas de Amorim de Carvalho.

[iii] As denominações de três das artérias citadas, foram alteradas na insensata e geral descaracterização do patrimόnio toponímico da cidade, frequentemente motivada por sectarismos ideolόgicos do momento. Assim se vai ocultando interessantes facetas da histόria local e do processo urbanístico portuense. Vem a propόsito dizer que, a Amorim de Carvalho, repugnava, pelas razões acima referidas, que se procedesse a alterações das antigas toponímias urbanas… e eis que municípios nortenhos, inconscientemente respeitando, neste ponto, a sua memόria, atribuíram o nome de Amorim de Carvalho a novas ruas e praça abertas, quero crer, muito recentemente, sem portanto patrimόnio toponímico a preservar.  

[iv] De seu nome completo Nadir Rodrigues Afonso, filho de Palmira Rodrigues, neto pela mae, do major de cavalaria Augusto Rodrigues avô paterno de Ester Rodrigues. Cfr. estudos da minha autoria citados na nota 2

[v] Vid. cartas de Amorim de Carvalho para sua noiva Ester Rodrigues, com datas de 13 de setembro e 6 de outubro de 1943, in Assuntos familiares. Correspondência e dedicatόrias, já citado.  Pouco depois do casamento, Amorim instalar-se-ia, com a mulher, na residência dos Amorins de Carvalho, na avenida do Brasil, n.° 835 (na Foz do Douro), onde nasceria o filho do casal.

[vi] Não registado, et pour cause. Estabelecido na forma de sucessão regular, por primogenitura, preferindo-se a cada geração os machos às fêmeas; afastando formas excêntricas e irregulares na sucessão (anuladas pela lei pombalina de 1770), impôs-se ao administrador obrigações de abrigo e sustento, em certas condições, a favor de determinados familiares.

[vii] A maior extensão destas propriedades pertenceu ao major Augusto Rodrigues e sua mulher Felisbina Rosa Pires ou Felisbina Rua, avόs paternos da Ester.

[viii] Concebido o sistema organizador do Arquivo e dos outros sectores da instituição de modo a facilitar o seu acrescentamento, e eventual aperfeiçoamento ‒ previu-se desde logo a inserção, naquele sistema, das ascendências dos futuros presuntivos administradores da entidade vinculada.  

[ix] Vid., nas Obras reunidas de Amorim de Carvalho, os volumes Correspondência (ainda inédito) e Assuntos familiares. Correspondência e dedicatόrias (publicado em 2025).

[x] Vem a talho de foice lembrar que esta revista surgiu como resposta ao assalto à prestigiosa revista Portucale (na qual Amorim vinha exercendo evidente preeminência orientadora do ponto de vista estético e filosόfico), perpetrado por uma associação de malfeitores, o trio Veiga Pires-João Pina de Morais-Sebastião Pestana, no seguimento de um «mot d’ordre da maçonaria» (expressão que reflete a forte convicção de Amorim, proveniente de informações por ele recebidas, como já indiquei noutras ocasiões).   

[xi] Cfr. Um testemunho sobre Fidelino de Figueiredo, texto que redigi, a pedido da Fernanda de Figueiredo, neta do Fidelino, para ser lido no congresso organizado em Lisboa sobre seu avô, em outubro de 2015.

[xii] Já atrás citada. Usava igualmente o nome Maria Cristina d’Ornellas Leme e Cidade Tacques Soares. Tem papel de relêvo na organização e gestão da Casa Amorim de Carvalho.   

[xiii] Pertenceu a Vicentina de Oliveira Callage, irmã dos escritores Roque e Fernando Callage.

[xiv] Parte desses desenhos originais ficou perdida por permanecerem absurdamente na posse de uma familiar insensata e maldosa. Os desenhos actualmente expostos são os que José Pereira Herdeiro, grande admirador de Amorim de Carvalho, pôde ainda recuperar, entregando-os ao administrador da Casa.  

[xv] Médico psiquiatra, homem de cultura, membro-fundador do Instituto Cultural, no Porto; o desenhado perfil deste grande amigo e admirador de Amorim de Carvalho foi encontrado, à venda, na livraria alfarrabista Candelabro, à rua de Cedofeita, no Porto, por Maria Cristina Cidade Soares que o comprou para a Casa Amorim de Carvalho. ‒ Obs.: na ocasião da compra, a Maria Cristina pôde constatar que diversos outros objectos que pertenceram a esse médico e homem de cultura estavam à venda, incluindo um rosto esculpido de Borges Guedes…

[xvi] Pertenceu a um tio paterno de Amorim de Carvalho, Accúrcio.

[xvii] Pertenceu à já referida Emília e, por sucessão, ao seu primo Amorim de Carvalho.

[xviii] Nasceu em 1881; casado com a Deolinda irmã de Ilda dos Santos Dias mãe da Ester Rodrigues mulher de Amorim de Carvalho; morreu em 1948.

[xix] O sinete passou sucessivamente pelas mãos da sua filha Cândida Carolina Mourão Caldas, de sua neta Maria Cândida Caldas de Matos, dos bisnetos Maria Alice e seu irmão o poeta e filόsofo Amorim de Carvalho, e do trisneto actual administrador da Casa.

[xx] Informações circunstanciadas no n.° 249 da Relação dos objectos.

[xxi] Indicação gravada na taça: V Porto-Lisboa «Prancha»; o pé, de madeira, tem a seguinte inscrição em placa de prata: C. C. do Porto 5-VI-48. Explicação: taça ganha pelo referido atirador membro da selecção do Porto na modalidade de «prancha» (tiro aos pratos) da 5.a Competição Porto-        -Lisboa que se realizou no Club de Caçadores do Porto na data indicada acima. ‒ Melhor atirador desportivo português da sua geração, o Antόnio (irmão de Amorim de Carvalho) foi vencedor de grande número de torneios de tiro, com especial relevo para o Torneio Internacional de tiro aos pombos do Estoril, realizado, no «stand» de tiro do Goulão, em 1945, tendo conquistado a taça de ouro desta competição. A maior parte da colecção de troféus por ele ganhos, ficou na posse dos descendentes, não conhecendo eu o destino que lhes deram. A totalidade da numerosa documentação que se refere à sua actividade desportiva de atirador (impressionante conjunto fotográfico, recortes de jornais, etc.) foi doada, com a taça de prata acima indicada, à Casa Amorim de Carvalho, por sua viúva Almeirina Cândida Santiago Campêlo, conservando-se os documentos, devidamente ordenados, no Arquivo dessa instituição. Caçador emérito, excelente conhecedor das mais diversas modalidades e técnicas da cinegética usualmente praticada na sua época, em Portugal (por exemplo, caça às rolas, perdizes, codornizes, aos pombos bravos, coelhos e lebres), era intransigentemente respeitador das propriedades rurais, das culturas e do meio ambiente, ‒ do que sou testemunha idόnea, porque o acompanhei frequentemente em curtas e longas expedições de caça. Tudo o que atrás ficou descrito, é a expressão de um requintado ambiente burguês, certamente com sua faceta marcadamente elítica. A caça era, aliás, tradição antiga na família, pois seu pai, e meu avô, Júlio Diniz Amorim de Carvalho, também a praticara. Como vestígio dessa tradição familiar, conserva-se na Livraria Antiga um exemplar encadernado da sua revista A Caça. Revista Illustrada do Sport Peninsular e da Vida dos Campos (Lisboa, ano I, 1899-1900) que Amorim de Carvalho conservou carinhosamente na biblioteca, apesar de não ter a mínima predisposição para caçador. A direcção da citada revista, que abre com uma excelente fotografia do rei D. Carlos, à caçador, inseriu, abaixo da coroa real, a seguinte dedicatόria: «A Sua Magestade El-Rei D. Carlos I, como preito de homenagem ao primeiro caçador e atirador portuguez». ‒ Acomodei, pois, nesta extensa nota, não sό a referência a uma curiosidade bibliográfica mas também a expressão de uma justificada homenagem à memόria do irmão mais velho de Amorim de Carvalho, que foi o patriarca da família dos anos 40 aos anos 50 do século passado.

[xxii] Vid. carta de Amorim de Carvalho para a Ester, sua noiva, com a data de 6 de outubro de 1943, in Obras reunidas de Amorim de Carvalho, vol. Assuntos familiares. Correspondência e dedicatόrias (Porto, 2025).

(continua)

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Júlio Amorim de Carvalho. Nacionalidade francesa. – Estudioso da obra de Amorim de Carvalho. Fundador da Casa Amorim de Carvalho. – Jurista (Fac. de Droit et des Sciences Économiques de lÚniv.de Paris); diplomata (Service des Affaires étrangères) aposentado.